Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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[08/jan/2002] Racismo e políticas de inclusão

1. Racismo e concentração de renda: problemas distintos.

O pesquisador do Instituto de Economia da UFRJ, Prof. Marcelo Paixão, calculou que a população branca no Brasil ocupa 46o. lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU (equivalente aos Emirados Árabes). A população de negros e mulatos ocupa 101o. lugar (equivalente ao Vietnã). No geral, o Brasil é classificado em 69o. lugar.

Isto é a expressão técnica do que todos sabemos: existe discriminação racial no Brasil. E também de algo que nem todos concordamos: Ela não é uma sombra do grave problema de concentração de renda brasileiro.

O problema econômico de concentração de renda, se reflete na baixa posição no ranking, mesmo da população branca.

Mas o abismo entre 46o. e 101o. lugares é essencialmente racial.

Isto implica em dois problemas diferentes. Possivelmente com soluções diferentes.

Brincando com os números, atacar apenas o problema da desigualdade econômica significaria fazer os índices subirem, talvez, 20 pontos. A população branca passaria para 26o.(algo como Hong Kong ou Portugal). A população negra e mulata saltaria para 81o. (equivalente ao Sri Lanka ou ao Arzeibaijão).

Ainda brincando com os números... atacar apenas o problema racial levaria a todas as populações possuírem o mesmo IDH, talvez no mesmo 69o. lugar atual.

Classifiquei os parágrafos anteriores como "brincadeira com números" pois tenho consciência que os fenômenos sociais são sempre muito complexos em suas inter-relações. Por exemplo, atacar o problema econômico se refletiria também no racial (já que os negros são mais pobres). Assim o IDH dos brancos poderia subir 18 pontos e o dos negro 24. Apesar destas sutilezas, a separação racial permaneceria.

2. Como atacar o problema do racismo.

Concluindo que racismo e exclusão econômica são problemas distintos, pois têm conseqüências distintas, apesar de relacionadas, me ponho a perguntar: como se ataca o problema do racismo?

Ora, como indicado no item anterior, simplesmente atacar o problema econômico melhora, mas não resolve.

Por isso não consigo imaginar nenhuma possibilidade de solução que não passe por políticas ativas de inclusão social das populações negra e mulata.

E política ativa de inclusão significa cotas e isenções fiscais para contratações e admissão de membros oriundos destas populações, nos setores público e privado.

Cotas em universidades, colégios e na contratação em serviços públicos. Isenções fiscais na iniciativa privada.

3. Balizas e objetivos para uma política ativa de inclusão racial.

Mas ser favorável a cotizações, não significa ser favorável a qualquer cotização.

Pelo contrário, propostas simplistas e demagógicas devem ser combatidas.

Um estudante só pode ser admitido em uma universidade se tiver nível para cursá-la, vindo ou não do sistema de cotas. Um profissional só pode ser contratado para um cargo, se tiver competência para ele.

A universidade participante do sistema de cotas tem que oferecer condições de estudo para o estudante cotista. (E não adianta reclamar que o estudante branco pobre também precisa desta ajuda. Sabemos disto, mas aqui estamos discutindo o problema racial, não o econômico!)

A política de inclusão deve ser clara e bem programada. Deve evitar influências, paternalismos e desmandos políticos. Deve ser autoavaliativa para saber se os objetivos estão sendo cumpridos. Deve incluir outros parâmetros além dos raciais. Não há porque, por exemplo, o filho de negros de classe média, vivendo em uma boa comunidade e freqüentando uma boa escola participar de um programa de cotas.

Deve ser datada. Não dever se tornar uma política eterna, mas deve ter como objetivo a criação de condições para que o desequilíbrio racial existente na sociedade possa ser eliminado nas próximas duas ou três gerações.

Deve visar o imaginário popular ao criar a noção de que é tão natural o médico ser branco quanto ser negro. Que ao entrar num campus universitário, o homem negro não necessariamente é o segurança ou o faxineiro, ele pode ser o professor ou o aluno.

4. Rebatendo críticas.

a) "O governo deve investir no ensino público fundamental e médio, em lugar de cotizar vagas universitárias."

O problema da educação em todos os níveis, de fato, é grave. Mas melhorar o ensino médio e fundamental não se refletiria num ataque ao problema racial. Se refletiria na questão da distribuição de renda, pois qualificaria melhor uma maior parte da população, possibilitando o acesso a melhores postos de trabalho e posições políticas mais críticas.

Os mecanismos discriminatórios raciais continuariam a existir, e essencialmente os cursos de odontologia continuariam sendo freqüentados por brancos e os de serviço social, por negros e mulatos.

O investimento no ensino público médio e fundamental levaria uma maior população negra e mulata a ter acesso à qualificação educacional, mas nada indica que isto representaria um processo espontâneo de inclusão racial.

Esta crítica é essencialmente reflexo da confusão entre os problemas racial e econômico.

b) "Uma política de cotas levaria a uma tensão social similar à norte-americana."

Um acirramento de tensões raciais seria parte do quadro, muito provavelmente. Naturalmente, um cidadão branco se sentiria lesado pelo Estado que diminui o acesso a cargos e postos que anteriormente seriam naturalmente dele.

Mas deve-se ter em mente que:

Não se pode manter a população negra e mulata excluída por medo. 

Parte da política deve ser a de deixar claro para população os porquês que a tornam necessária.

A mistura demográfica típica dos centros urbanos brasileiros, levam a minimização das tensões. No caso americano, os negros viviam (vivem) em bairros separados dos brancos. Este afastamento despersonaliza a figura do outro e facilita o acirramento de ânimos.

Políticas de inclusão econômicas desenvolvidas concomitantemente com as de inclusão racial serviriam como apaziguadoras. Afinal, nada impede que paralelamente haja políticas, por exemplo, de infra-estrutura para estudantes pobres em geral.

c) "No Brasil não é fácil distinguir quem é branco de quem é negro devido à mestiçagem."

É uma dificuldade real, mas que não tem impedido que a discriminação racial ocorra com bastante eficiência há séculos.

Obviamente haveriam casos limites que tornariam difíceis uma decisão. Mas o estabelecimento de critérios pode ser feito levando em conta as condições de vida do pleiteante a uma cota. Assim, com pouco rigor, poderia ser estabelecido que o quase branco pobre seria tratado como negro. (No exemplo acima, o negro de classe média, freqüentador de boa escola, estaria fora dos critérios para pleitear vagas cotizadas.)

d) "Tratar os negros como diferentes seria injusto para os brancos que não teriam acesso aos mesmos privilégios, e seria injusto para os próprios negros que seriam tratados como inferiores que necessitam de privilégios"

Esta crítica não se sustenta diante do quadro de desigualdade entre as populações. De fato, a população branca estaria perdendo não seus direitos, mas sim os privilégios. As populações negra e mulata não estariam sendo privilegiada e sim tendo acesso a direitos similares aos dos brancos.

e) "A política de cota levaria a uma queda de qualidade das instituições educacionais"

Uma política responsável de cotas, levando em conta que o estudante deve preencher certas condições para o acesso e que a universidade deve fornecer infra-estrutura para seus estudos, teria estudantes com níveis similares aos atuais.

Basicamente, no lugar de termos dois estudantes brancos de formação mediana no curso de engenharia, se teria um branco e um negro de formação mediana.

Além do mais, décadas de políticas afirmativas nos EUA não indicaram queda de qualidade das instituições de ensino.

5. Racismo, um problema complexo.

Resolvi escrever este texto um pouco mais longo, pois tenho percebido que minha posição parece minoritária em vários meios.

Às vezes percebo até uma certa irritação no discurso daqueles contrários às cotas, como se elas fossem obviamente absurdas e apenas conseqüência da demagogia política.

Não tenho a política por profissão nem simpatia pela demagogia e mesmo assim reconheço que existem argumentos racionais e fundamentados a favor destas políticas.

Obviamente, o problema é muito complexo. Envolve questões históricas que desconheço. Mecanismos de discriminação que não compreendo o funcionamento. Mas realmente não consigo encontrar argumentos que invalidem total ou parcialmente as razões apresentadas acima.

Não sei realmente como se deu historicamente a discriminação racial no Brasil. Mas, tenho medo de simplesmente culpar o processo de escravidão. Costumo fugir das "explicações coloniais". O Brasil, enquanto nação, é produto do século XX, construído no processo de urbanização e explosão demográfica. Não acredito que as raízes de um tempo agrário/colonial - quando a população era 10 vezes menor e os imigrantes não haviam ainda chegado - sejam tão predominantes sobre nossa história e sociedade atual.

Mas de qualquer maneira, no pós-abolição, os negros foram largados à própria sorte, deseducados e imediatamente substituídos pelo imigrante europeu.

Esta eu creio que é a raiz do empobrecimento da população negra: não ter podido, de imediato, participar do mercado de trabalho fabril. E a partir daí, o fenômeno apenas se auto-alimentou: o filho do negro não recebe educação adequada e portanto não consegue bons postos de trabalho, o que leva a repetir o processo na geração posterior. Note que este é um fenômeno extremamente novo: seis ou sete gerações apenas.

É este ciclo que tem que ser quebrado pela ação afirmativa.

(texto de Mario Barbatti)

 


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