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[04/jun/2002] Inutilidade patética
Por mais que se queira distância,
é
claro que em época de Copa, é impossível não saber o que que
está ocorrendo. Desde a breguice verde-amarela das ruas,
sapatarias e farmácias, ao poder intelectual das análises
táticas dos telejornais, tudo se volta para o evento. Os
telejornais, por sua vez, são para mim um caso especial: assisto
diariamente um noticiário de meia hora na Globo News. Atualmente
cerca de vinte minutos têm sido dedicados aos assuntos
futebolísticos. Aí eu me ponho a questionar: e os outros vinte
minutos de noticias políticas e econômicas? Ou os assuntos
usuais são irrelevantes, ou eles não nos estão sendo
informados. Nas duas hipóteses, saio perdendo.
Bom, já disse que não gosto de futebol e
da idiotia que o cerca (havia um cretino soltando fogos ontem, às
05:50 da manhã!), mas como não quero passar por elitista ou
alienado, decidi que vou escrever sobre o assunto.
Para começar, a estréia. O time francês
perde para o Senegal e se encontra no que eles chamariam de
carrefour, que é o local adequado para se comprar o
principal produto da exportação sub-saariana: carne de zebra.
Agora as ex-colônias franco-africanas têm mais o que comemorar.
Além de ter superioridade em número de famintos, aidéticos e
analfabetos, ainda contam com uma vitória esportiva contra a
metrópole. Imagino até um imigrante ilegal aportando em Paris,
apontando para o Louvre e sacaneando: vocês podem ter dado ao
mundo Descartes, Moliére, Sartre e o telhado de vidro, mas a
gente meteu um a zero na estréia!
Para os distraídos, este resultado pode
até ter parecido aleatório, algo guardado em um pequeno
reservatório de surpresas. Mas como cientista, não posso
simplesmente aceitar o "acaso". Sempre há uma
explicação, que normalmente pode ser encontrada a partir da
lógica. Por exemplo, no caso da derrota dos árabes para os
alemães por oito a zero, foram óbvias as correlações: o ícone
da fauna da península arábica é o camelo, número oito do jogo
do bicho.
E para quem quer saber mais sobre a ciência
por trás do futebol, pode estar interessado em visitar o atual
número da New Scientist, que comenta um modelo estatístico que
põe o Brasil como favorito para o título, logo atrás da
Argentina. (Não chega a ser novidade: muitos acham que após a
Argentina, será a vez do Brasil.)
A National Geographic deste mês também dá
a sua contribuição. Nela se aprende que um homem trabalhando
sozinho por seis horas diárias, levaria 1860 anos para construir
o Maracanã. Nada é dito sobre repouso semanal, férias ou
aposentadoria. E sinceramente? Mesmo gostando de estatísticas,
sou obrigado a concordar que esta é a própria definição da
expressão "inutilidade patética".
Termino com mais uma estatística: segundo
o último censo, há no país 169.799.170 técnicos de futebol.
Como eu não gosto do esporte (deste em particular e qualquer
outro, no geral), nem para praticar nem para competir, vou
encaminhar ao IBGE um pedido de retificação deste dado. Peço
demissão deste cargo não-comissionado, e, juro, é a última vez
que escrevo sobre este tema.
(m.b.) |
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[30/mai/2002] Sobre o olhar sem ver
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Há uns dois dias tenho
passado por alguns outdoors anunciando a churrascaria Oásis. Olhando de relance,
sem prestar a atenção, realmente não sabia do que se tratava. Era uma figura estranha.
Meio que sem significado. Apenas mais um detalhe da poluição urbana.
Hoje, porém, voltando para casa, novamente num olhar
de relance, a foto ganhou sentido. Era uma peça de carne sendo fatiada pelo lado cego de
uma faca. |
Esta experiência realmente banal do "olhar sem
ver" contém alguns elementos interessantes para o curioso sobre a percepção
humana.
Há mais de cinqüenta
anos, ela foi testada,
possivelmente pela primeira vez, em laboratório [1]. A vinte
e oito sujeitos foram apresentadas seqüências aleatórias de cartas de baralho. Entre as
cartas normais, estavam cartas alteradas: três de copas preto, dois de espadas vermelho,
etc.
Mostrava-se uma mesma carta da
seqüência em intervalos
controlados, com durações de exposição cada vez maiores, até que ela fosse
corretamente identificada ou se atingisse um máximo de 1s de exposição. Repetia-se,
então, o processo, com a próxima carta.
As normais eram rapidamente identificadas. As
anômalas, no entanto, levavam quatro vezes mais tempo para serem identificadas.
Havia quatro tipos básicos de reações:
a) O sujeito identificava, por exemplo, o três de
copas preto como três de copas ou três de espadas. Isto ocorreu, em algum momento, com
vinte e sete dos vinte e oito entrevistados.
b) Ou então ele tentava um meio termo do tipo "é
um três de copas marrom", ou "é um três de espadas com um contorno
vermelho". Metade dos indivíduos mostraram este tipo de reação.
c) O sujeito às vezes percebia que algo estava errado,
mas não identificava o erro: "é um três de espadas, mas o símbolo está de ponta
a cabeça".
d) Finalmente, mais da metade dos indivíduos não
conseguiram de forma alguma identificar uma das cartas em algum teste. Mesmo com um tempo
quarenta vezes maior que o médio para reconhecimento das cartas normais, mais de dez por
cento das cartas anômalas não foram reconhecidas. Nestes caso, era comum o sujeito
experimentar uma grande aflição: "Não posso fazer a distinção, seja lá qual
for. Desta vez nem parecia ser uma carta. Já não sei sua cor, nem se é de espadas ou
copas. Não estou seguro nem mesmo do que é uma carta de copas. Meu Deus!".
A maioria era capaz de identificar a
carta anômala após certo tempo. E depois da primeira carta identificada, a próxima
anômala era reconhecida mais rapidamente. A terceira mais rápido ainda.
Os padrões de "normalidade" pareciam se
alterar, para permitir a adaptação à nova realidade do baralho modificado. |
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Este
processo de alteração dos padrões de normalidade parecem ser
automáticos e rotineiros. Thomas Kuhn inclusive sugeriu que eles
poderiam estar na base psicológica das transformações
científicas. Será que todo o drama de Galileu nasceu da
dificuldade dos inquisidores reconhecerem o seu exótico
baralho?
(m.b.)
[1] Jerome S. Bruner and
Leo Postman, "On the Perception of Incongruity: A Paradigm", Journal of
Personality, 18, 206-223 (1949). Versão online em:
http://psychclassics.yorku.ca/Bruner/Cards/#f1.
Comentários sobre este experimento e sua analogia com a percepção científica é feito
por Thomas S. Kuhn, em "A Estrutura das Revoluções Científicas", Cap. 5. |
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[23/mai/2002] Previsões de
meio de ano
Neste primeiro semestre de 2002, morreram Pierre
Bourdieu, aos 71 anos (23/jan), Thor Heyerdahl, aos 87 (18/abr) e Stephen Jay Gould, aos
60 (20/mai). Três grandes perdas.
Pode talvez ter passado despercebida a coincidência:
intelectuais competentes, polêmicos e com uma grande capacidade de comunicação com o
grande público.
Para mim, em particular, mais Bourdieu e Heyerdahl, um
pouco menos Gould, são fortes fontes de influências e idéias.
Bourdieu é fundamental para compreender a atividade
científica como atividade humana e contextual. Ainda me lembro da forte impressão que me
causou quando há quase dez anos atrás travei contato pela primeira vez com a sua noção
de campo social.
Heyerdahl, alimenta um outro canto de meus pensamentos
e dúvidas: a pré-história humana e nosso quase total desconhecimento de tudo o que
ocorrera antes de cinco mil anos atrás.
Gould representa a mais poderosa idéia da modernidade,
a dinâmica de seleção natural. Esta que é a base para se espantar todos os espíritos,
demônios, deuses e animismos. Que ensina como o mundo anda por si só, sem guias ou
projetistas.
Bom, se o universo continuar conspirando neste ritmo,
os próximos meses trarão mais luto. Aí vão minhas previsões:
Perderemos Habermas e a compreensão moral da
importância do diálogo. Prigogine levará consigo a complexidade como base de
interpretação do mundo. Então, o cérebro de Damásio sucumbirá prematuramente,
morrendo com ele as possibilidades de uma teoria da consciência.
Para o próximo ano, todo este pensamento denso e
fértil será substituído pela areia fina e rasteira de Paulo Coelho, pelo fanatismo
doente de Olavo de Carvalho, pelo hermetismo inútil de Derrida, pelos panfletos de Noam
Chomsky e pelas imposturas de Alan Sokal.
(m.b.) |
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[17/mai/2002] Recordar é viver... (II)
Besteiras todos falamos. Com mais ou menos eloqüência, elas são
parte integrante dos discursos.
A besteira pode ser individual ou coletiva. Grande ou pequena. De
esquerda ou de direita. De elite ou proletária. A capacidade de enunciá-la talvez seja
uma das mais democráticas e bem compartilhada das capacidades intelectuais. Deve, de
alguma forma, estar correlacionada com o Princípio da Equipartição do Bom-senso, de
Descartes, enunciado no início do "Discurso sobre o Método" como:
"Le bon sens est la chose du monde la mieux partagée; car chacun
pense en être si bien pourvu que ceux même qui sont les plus difficiles à Contenter en
toute autre chose n'ont point coutume d'en désirer plus qu'ils en ont."
Mas após gastar meu nulo francês, deixe-me voltar ao meu favorito
passatempo: falar mal dos outros.
A besteira coletiva é assustadora e, algumas vezes, trágica. Mas
em geral é também cômica.
Guardo com carinho um belo exemplo de 1995. No 44. Congresso da UNE
uma das resoluções publicadas foi:
"A UNE exige a retirada de tropas da ONU e da OTAN da
Bósnia."
(Para não sobrar dúvidas, esta UNE é de fato a nossa União
Nacional dos Estudantes e não estou inventando fatos: tenho uma cópia da publicação!)
São os arroubos da política estudantil...
Em 2000, a Associação Nacional dos pós-graduandos publicava um
projeto para regulamentar a situação dos Pós-graduandos. Louvável, pelo menos até o
artigo nono:
"Art. 9. É assegurado ao Pós-Graduando o desconto de 50% em
atividades e eventos culturais, bem como em transportes coletivos urbanos municipais e
intermunicipais, mediante apresentação de comprovante de matrícula emitido por
Instituição reconhecida pelo MEC ou MCT, ou documento semelhante de identificação do
Pós-Graduando."
(Devo reconhecer que os relatores do texto eram explicitamente
contrários a este artigo, mas a ' coletividade' o exigiu...)
Para evitar quaisquer acusações de parcialidade minha pró-isto ou
pró-aquilo, devo registrar alguma besteira 'de direita'. Claro, para este fim nada melhor
que Olavo de Carvalho.
É até covardia: este lunático fala tanta merda, que se torna
difícil escolher. Tem uma especialmente boa, de sua coluna em O Globo de 1. de setembro
de 2001.
Estava ocorrendo uma conferência da ONU, na África do Sul, sobre
discriminação. Olavo de Carvalho expressava sua indignação pelo Ministério da
Justiça brasileiro ter enviado uma delegação para atacar a questão da discriminação
sexual. Toda sua coluna tentava nos convencer que uma outra questão muito mais urgente
deveria ser o ponto central do Ministério brasileiro:
"O que não está muito bem é que, na sua afetação de bons
sentimentos pelos grupos [sexuais] discriminados, essa entidade [o Ministério da Justiça
brasileiro] não tenha uma só palavra a dizer em favor dos católicos que estão sendo
massacrados na China (...)"
Até sei que uns dois ou três céticos acharão que estou
caluniando o pobre-coitado. Bom, http://www.olavodecarvalho.org/.
Isto e muito mais...
(m.b.) |
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