Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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[26/jun/2002] A Sociedade Mágica

“Considera-se astrólogo, para efeito desta lei, aquele que estabelece juízos a partir do estudo das configurações do Céu, calculando e elaborando cartas astrológicas.” 
Arthur da Tavola, Projeto de Lei do Senado, 43 de 2002, art. 2o. 
http://www.senado.gov.br/web/senador/tavola/tavola.htm
 

Tramita no senado um projeto de lei, do senador Arthur da Tavola (PSDB-RJ), que regulamenta a profissão de astrólogo. Isto mesmo, astrólogo. Não confundi com astrônomo, não. Segundo o senador, uma das justificativas é “o reconhecimento que o estudo de astrologia deveria figurar a nível de (sic) terceiro grau, ou como pós-graduação, doutorado etc.., em face de sua alta especificidade e de interpretações que demandam amplo conhecimento”.

Imagino que os próximos na lista de regulamentação deverão ser, em ordem de eficácia nas previsões, jogadores de búzios, i-ching, tarô, borra de café e economistas do governo. Mas isto é o Mercado: astrologia envolve dinheiro, muitos profissionais e um grande público consumidor. Por mais absurdo que possa parecer legalizar a charlatanice, ela existe de fato e talvez deva ser regulamentada.

Somos mágicos por natureza. Muitos antropólogos e biólogos desconfiam que a natural atração humana para o misticismo, o divino e o sobrenatural está implantada evolucionariamente em nossos cérebros. Parece razoável se  notarmos que todas as sociedades humanas, em qualquer época, criaram  culturas xamânicas e narrativas míticas.

O ideal iluminista de racionalização do mundo sucumbiu com o peso da complexidade dos fatos. Mesmo o cientista é racional por partes, por especialidade, aceitando a explicação mítica e a sobrenatural para setores dissociados de seu conhecimento profissional.

A crença no “Além” é básica em nossa natureza humana e, tal como sexo, gera produtos altamente rentáveis. Não apenas as igrejas sabem disto: o mercado, em geral, também aprendeu que é lucrativo alimentar nossos sentimentos místicos. Toda a indústria cinematográfica, por exemplo, se utiliza disto. Não me lembro de um único filme, que tivesse o mundo mítico ou sobrenatural em sua trama, e que não os mostrasse como reais. Mesmo quando o protagonista acorda ao final e percebe que tudo fora um sonho, um pequeno objeto na mesinha ao seu lado nos alivia, mostrando que “algo mais” teria realmente acontecido.

E, claro, Feuerbach estava certo: o Além aliena. Nos vemos atolados em quilos de seitas reencarnacionistas, que justificam nossa miséria como conseqüências de vidas passadas. Enquanto isso, a incompreensão dos processos que movem o mundo se deixa substituir pela regência das  energias positivas e negativas.  Neste estado de crenças em  demônios e assombrações, sinto saudade de Carl Sagan e seu mecanicismo idiota.

Hipótese básica para o epistemólogo:  todo conhecimento é parcial e em construção. Mas isto não justifica o mergulho no mar da lama sobrenatural. É urgente, para uma sociedade espiritualmente sadia, que se definam “projetos”  de conhecimento seculares e racionais. Diante do que não se compreende em bases racionais, a atitude deve ser: “Não sei a resposta, mas não me satisfaço com explicações místicas”.

Finalmente, quanto ao senador Arthur da Tavola Redonda, homem inteligente, capaz de reconhecer os passos em falso, espero que tome a sério as palavras de Leo Vines, presidente da sociedade de céticos Terra Redonda (http://www.strbrasil.com.br): “há agora um precedente para pessoas serem legalmente discriminadas e sofrerem retaliações baseadas na sua data de nascimento”.

(Texto de Mario Barbatti)