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[22/jul/2002]
Personagens folclóricos: o conspirador
"Os homens fazem
sua própria história, mas não a fazem como querem; não a
fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com
que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo
passado."
(Karl Marx, O 18 Brumário de Luis Bonaparte.)
Enquanto você fala,
ele finge escutar compenetrado. Em seguida, com um sorriso de
canto de lábio, mostrando condescendência para com sua ingenuidade, ele declara a inabalável verdade: "X será o próximo presidente."
E ainda tenta lhe acordar deste abismo de alienação em que vive:
"Eles botam no poder quem eles querem! Você não sabe
disso?"
Quem já não
encontrou uma figura assim? Conheço aos cachos. São os
"conspiradores". São aqueles que crêem que existem
forças muito poderosas, mais ou menos ocultas, regendo os
destinos da Nação. Os conspiradores se vêem dotados de algum dom superior
ao normal, que lhes permitem perceber a Verdade oculta aos
mortais.
Dependendo do
conspirador, algumas vezes, a Força oculta e indeterminada ganha
nomes: Elite, Governo, Oligarquia, Rede Globo, Mídia, Mercado, EUA, etc. A
Força, segundo o conspirador, age por meio dos
Formadores-de-Opinião, que são seus catequistas para a
doutrinação das massas ignorantes. A Força age também por
manipulações escusas dentro do poder público.
A figura do
conspirador nasce da necessidade de ordem. De dar uma lógica ao
emaranhado social. Ele se alimenta do sonho da previsibilidade,
mesmo que ela signifique um futuro que se apresenta sombrio. É um
sentimento religioso, o de explicar por temas simples, o que é
por demais angustiante para humildemente dizer "não sei".
Nesta campanha
eleitoral, os conspiradores estão agitados. Ano passado diziam:
"Eles escolheram o Lula para perder de novo." Já no começo
deste ano se empolgaram com Roseana, a candidata da Globo
("Você não viu a novela?"). Mas mal ensaiavam seus
dons proféticos, quando ela se afundou na lama maranhense. Não
se fizeram de rogados: "Foi o Governo que usou a justiça e a
polícia para garantir a permanência do grupo atual."
Por alguns meses
festejaram a obviedade da vitória de Serra. Riam, com desdém,
daqueles que eventualmente acreditassem no voto: "A eleição
é só teatro. Já está definida." Com o crescimento de Ciro
nas pesquisas, os discursos se embolaram. Não sabem ainda quem
vai ser o "Anti-Lula" eleito pelas "Elites" para governar
o país.
A força do
conspirador está no fato de que nada do que ele diz é realmente
falso. É claro que elites econômicas e políticas querem influenciar as
eleições. É natural e há muitos exemplos concretos de como isto é feito
por baixo dos lençóis encardidos da burocracia pública. É
sintomático que arrecadadores das campanhas de Ciro, Serra e Lula
estejam sendo citados em processos variados. E se você for ao
último número do semanário americano "The Nation"
(www.thenation.com)
lerá que:
"Wall Street
will no doubt continue to use its financial mechanisms to favor
Lula's opponents, by attempting to panic Brazilian voters.
Individual corporate actors, of course, could also decide to
ignore the rules, as they have done in the past."
(Steve Cobble, The Nation, 05/ago/2002.)
Mas o engano do
conspirador está em seu simplismo analítico. Está em não
perceber que a complexidade do mundo em que vivemos reside não em
determinações de forças ocultas, mas, pelo contrário, na
multiplicidade de sujeitos sociais interagentes.
A estrutura do Estado é
composta por muitos grupos de interesses diversos, lícitos e
ilícitos. Banqueiros, evangélicos, traficantes, burocratas,
empresários, corporações, sindicatos, militares, professores,
ecologistas, latifundiários e
sabe-se lá mais o quê! Todos são forças que atuam com maior ou
menor grau de influência, e coletivamente criam a complexa
dinâmica do poder.
Se a história
recente da república brasileira alimenta o receio da eterna
perpetuação de determinados grupos no poder, é apenas porque o
domínio do poder econômico cria condições materiais que
aumentam as chances de auto-preservação. Mas isto de modo algum
é uma determinação absoluta: a cada eleição, a
renovação é mais que uma utopia, é uma possibilidade real em
disputa.
O conspirador
também se engana quanto ao papel dos formadores de opinião.
Estes seres menores na estrutura do poder são vistos como
essenciais para divulgação da mensagem da Força. Formariam uma
classe média de nível universitário, com um extraordinário
poder de convencimento de suas empregadas domésticas!
Não é preciso
jogar no lixo o conceito de "formador de opinião", mas
é necessário compreender melhor o que significa. Um sujeito com
um discurso bem-articulado, com uma posição nos meios de
comunicação, ou em sua comunidade local, com certeza terá um certo nível de influência
sobre o seu público ou seus interlocutores. Mas esta influência não é a de
estabelecer o que o público acreditará ou não. O que o formador
de opinião faz é estabelecer as questões que serão discutidas,
assim como a linguagem e os conceitos legítimos para estas
discussões. O que, por exemplo, o comunicador Ratinho faz não é
dizer "aceitem isto como verdade". O que ele diz é
"discutam se isto é ou não verdade".
Claro que o poder
manipulador pode ser muito grande. Freqüentemente vemos
discussões completamente deslocadas de seus pontos importantes.
É o que ocorre com a questão do crescimento econômico
brasileiro, que está completamente concentrada no tema do
comércio exterior. Quem se atreve a dizer que a questão do
crescimento deve ser discutida a partir do mercado interno e o
aumento da circulação da riqueza? (Quando Lula ameaçou falar
sobre isto, ano passado, foi pesadamente bombardeado. Ele aprendeu,
botou o rabo entre as pernas e se calou.)
Mas afinal, sejam
grupos de interesse, formadores de opinião ou cidadãos isolados,
qualquer que seja o sujeito social sua intervenção é sempre
limitada e condicionada pelas reações dos outros sujeitos da
cena. Parafraseando Marx, diria que os homens fazem sua própria
história, mas não como esperam. Nunca sabem realmente qual o seu
papel, e o resultado futuro de suas ações.
(m.b.)
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[15/jul/2002]
Entre a feira e o feirante
O pensamento
pós-moderno quis nos convencer que a era das ideologias havia
chegado ao fim. Queda do muro, nova ordem mundial, diluição dos
estados nacionais e o blá-blá-blá costumeiro. Cabeça-dura,
não estou entre aqueles que se deixaram levar facilmente. Em
particular, sempre me esteve mais ou menos claro que a distinção
política entre "esquerda" e "direita", apesar
de vaga e muitas vezes conjuntural, teria algo a ver com as
prioridades sociais que se escondiam nos discursos.
Por exemplo, tanto o
político de "esquerda" quanto o de "direita"
defenderão, com sinceridade, que o trabalhador tem que estar bem
alimentado. A diferença está em que o "canhoto"
articula seu argumento sobre a dignidade do ser humano, que deve
ter direito a alimentar-se. O "destro", por seu lado,
argumentará que o trabalhador bem alimentado é mais produtivo,
servindo melhor à sua empresa.
Como é comum às
coisas complexas da sociedade, nenhum dos dois detêm a
completamente a verdade.
Cada um a seu modo carrega uma dose de razão dentro de seus
contextos.
Não tem muita
novidade nisto que escrevi. Esta é a bem conhecida distinção entre a
"lógica do mercado" e a "lógica humanista".
O que talvez não seja tão claro é a promiscuidade entre estas
posições quando os discursos se diluem na "lógica do fim
das ideologias". Neste caso, será comum se perder as
distinções, confundir objetivos, lançar uma camada de neblina
sobre os diversos sujeitos, tornando difícil distinguir quem é
quem.
Isto está, é
claro, acontecendo com muita intensidade neste ano. Quem não
está incomodado com a homogeneidade dos discursos de todos os
candidatos à presidência? Aos montes, vejo analistas atônitos
com as profundas semelhanças entre as propostas e programas.
Culpa-se então o fim das ideologias materializado pelo marketing
banalizador.
Mas é isto
realmente? Creio que não.
O olhar atento
(aquele que provavelmente não terá, o eleitor médio) permite
distinguir entre "canhotos e destros".
Algum candidato
defenderá o atrofiamento da economia? Diante da obviedade da
resposta, é imediatamente claro que todos convergirão em pontos
básicos, como a redução de juros e a diminuição da
tributação sobre a produção. Mas as semelhanças vão ficando
por aqui.
Por exemplo, Ciro
Gomes defende a tributação prioritária sobre o varejo e sobre
valor agregado. Lula defende a tributação sobre a renda.
Tecnicamente, ambas as propostas cumprem os mesmos objetivos:
aliviam a produção, trabalhando contra o encolhimento econômico.
Mas, detalhe:
diferentes da tributação sobre renda, tributações sobre o
varejo e valor agregado não são progressivas, ou seja, não
diferenciam por alíquotas os vários sujeitos fiscais. E não é
novidade que a tributação progressiva é um dos principais
instrumentos de redistribuição de renda dentro do conjunto da
sociedade, coração do discurso de "esquerda".
Diante de sutilezas
como esta, fiquei realmente satisfeito ao assistir as entrevistas
com os candidatos ao "Jornal das Dez" (Globo News), na
semana passada. Pude enxergar, para além da homogeneidade, os
fundamentos das tradições políticas em que se inseriam os
candidatos. O humanismo da esquerda aparecia, por exemplo, quando
Lula descaracterizava a questão previdenciária como
"problema". "Não é um problema. É bom que as
pessoas vivam mais!" Ou quando defendia a regulamentação do
trabalho informal, visando prioritariamente não o aumento da
arrecadação da previdência, mas sim a criação de uma rede de
proteção social.
O "humanismo de
esquerda" de Lula não necessariamente o credencia como o
melhor candidato para liderar o Estado brasileiro nos próximos anos.
Mas seve para lembrar que a escolha nestas eleições não será
apenas entre "competências administrativas", como se
tornou comum analisar. Será também (e, afinal, como sempre o
foi) uma escolha entre projetos ideológicos.
(m.b.)
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[04/jul/2002]
Gratuidades
"Serviço
adequado é o que satisfaz as condições de regularidade,
continuidade, eficiência, segurança, atualidade,
generalidade, cortesia na sua prestação e modicidade das
tarifas"
Lei das Concessões, Art. 6o. (Lei
nº 8987, de 13/02/1995, publicada em 28/09/1998.)
Tentaram,
tentaram, e conseguiram: as empresas concessionárias obtiveram na
justiça a suspensão das gratuidades nos ônibus intermunicipais
do Rio.
As
transportadoras alegam que elas são obrigadas a assumir o prejuízo da
"solidariedade constitucional", para usar a expressão
do presidente da Fetranspor (Federação das Empresas de
Transporte de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro).
Ao
mesmo tempo, distribuem propaganda nos ônibus ensinando que é o
usuário comum que paga pela gratuidade, por meio de tarifas mais
altas.
(Como
são excludentes, resta saber qual dos dois argumentos é mentiroso.)
De
qualquer modo, a situação está uma zona. Os empresários
estimam que 40% (erro de 7,72% !!) dos passageiros não paguem
tarifa. Num universo de 180 M de passageiros/mês, estamos falando
de uma mesada de R$ 90 M, o que justifica tanto o olho-grande dos
empresários, quanto o corpo-mole estatal.
Toda
a razão técnica dada pelas empresas pode ser acompanhada por um
monte de estatísticas da página da Fetranspor (www.fetranspor.com.br
).
O
total das tarifas, uns R$ 130 M/mês, rateado entre 18 mil ônibus
em circulação, dá uma merreca de R$ 7 mil/ônibus. As empresas
têm ainda que pagar 6 funcionários/ônibus, o que, com encargos,
soma uns R$ 6 mil/mês. Depois, todo mês vai R$ 1,1 mil/ônibus
para impostos.
Mas
tanque vazio não roda, e o diesel para os 3 mil km que cada carro
percorre mensalmente custa uns R$ 750 (www.revistaocarreteiro.com.br).
E ainda tem os investimentos: são 90 carros comprados por mês, e
cada ônibus em circulação tem que contribuir com uma taxa de
uns R$ 400 (www.mercedes-benz.com.br).
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Fim
das contas, olha que surpresa: com um prejuízo mensal de R$ 1250
por carro, os empresários estão pagando para
trabalhar!
De
fato, o Estado tem que assumir suas responsabilidades sociais,
garantindo o direito de mobilidade para as populações carentes.
Mas tem que definir as fontes de recursos. |
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Valor/ônibus/mês
(R$) |
| Tarifa |
7000,00 |
| Salários |
-6000,00 |
| Impostos |
-1100,00 |
| Combustível |
-750,00 |
| Novos
carros |
-400,00 |
| Total |
-1250,00 |
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Pelo
lado do usuário, com a gratuidade deve estar associada à
responsabilidade. A gratuidade para o estudante, por exemplo,
deveria estar associada à exigência da freqüência escolar no
mês anterior, o que poderia ser controlado com a distribuição
de vales-transportes. (A histórica burrice da UBES abomina esta
tese.)
Mas
é realmente difícil cobrar do Estado e da sociedade, enquanto as
empresas concessionárias de um dos mais importantes serviços
públicos nos ofenderem com planilhas de custos absurdas.
(m.b.)
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