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[05/ago/2002]
Você quer um zero quilômetro?
Cerca
de 1,5 milhão de automóveis 0 km são negociados anualmente no
país. E talvez possamos aprender algo sobre o seleto grupo de
brasileiros que os adquirem, olhando os comerciais da TV. Numa
rápida busca pela memória, selecionei alguns bem reveladores.
Num
destes comerciais, vemos uma família (gente branca, pai, mãe,
dois filhos...) esperando o cachorro decidir se eles devem ou não
levar o carro (não me lembro qual a marca). Numa cena patética,
estão os quatro de pé, comemorando a aprovação do cão.
Mas
os comerciais não se satisfazem em apenas mostrar o modelo ideal
para a família consumidora. Querem mostrar também as hierarquias
sociais. Um caipira faz a propaganda do Honda Civic. Ele reclama
que queria conhecer o carro, por isso fora trabalhar numa oficina,
"mas não tem quase nada pra fazê". Na propaganda do
Classe A, jovens executivos negociam com um flanelinha o preço da
lavagem. Em ambos os comerciais, o mundo se divide entre aqueles que
terão e aqueles que olharão. Pelo menos são realistas.
No
comercial do novo Polo, após ver o carro do namorado, a moça
corre para trocar a roupa de noite, e colocar um vestido de noiva.
O rapaz foge em disparada com o assédio da Maria-Gasolina. E
casamento foi também o tema para a propaganda do Peugeot 206, que
mostra um casal de noivos espancando seus padrinhos e convidados
na escadaria da igreja, para protegerem o automóvel, que seria
pichado com glacê de bolo.
Um
comercial recente do Fiat Marea, ensina a um jovem profissional
que a realização de sua vida adulta é dirigir aquele câmbio
automático. Em off o motorista escuta: "Você chegou onde
queria".
Um
quilo bem pesado de propagandas automotivas mostra carros se
enlameando em estradas esburacadas, ou correndo em alta velocidade
por estradas paradisíacas. A publicidade criou um Golem
parnasiano: seu sonho de liberdade com 25% de IPI.
Os
publicitários do Honda Civic já estavam garantidos na galeria do
ridículo com um comercial de 2001 que mostrava um rapaz
abandonando a namorada, para acariciar a marcha e o painel do
carro: "Honda Civic. Você não vai querer perder tempo com
mais nada". Mas eles nos deram um presente sociológico com a
campanha do Honda Civic 2002, na qual o feliz proprietário
abandona duas crianças de escola no meio da rua, quando percebe
que são desconhecidas. Pegou mal. Poucos dias após o lançamento
do filme, ele foi substituído por uma versão mais comedida, que
não mostra as crianças sendo defenestradas.
A
maior parte destes comerciais é feita num tom humorístico, que
esconde a seriedade da publicidade automotiva, que responde,
atualmente, por 17% do valor de cada veículo vendido. Com estas
dimensões, é bem razoável supor que os publicitários conheçam
bem o seu público alvo. Para além do estereótipo, os patéticos
personagens de seus comerciais devem nos dar um rápido 3x4 de
nossa elite econômica: branca, urbana, fútil, burra, alienada,
egoísta e egocêntrica.
(m.b.)
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[24/jul/2002] Quanto custa aumentar o salário mínimo?
Sempre
que se fala em aumento do salário mínimo, os economistas correm
para lembrar o rombo que ele provoca na previdência social. Dizem
que para cada Real de aumento, o custo anual da previdência sobe
em R$ 200M.
Uma
idéia sedutora, que tem sido propagada nos últimos tempos, é
que o impacto não é tão grande, pois indiretamente a
arrecadação aumenta, compensando em parte o aumento.
Quem
ganha um salário mínimo, está abaixo de seu potencial de
consumo. Assim, qualquer aumento não vai para poupança, mas
imediatamente retorna para o setor de consumo, ampliando a
arrecadação.
A
lógica é boa, mas eu nunca vi uma estimativa quantitativa deste
efeito indireto, que com certeza deve ter sido discutido em meios
especializados em economia. De qualquer forma, acho que
podemos fazer uma estimativa básica deste efeito de
"retorno".
Hoje,
a previdência conta com uma base de 26,7M de contribuintes [1],
ao mesmo tempo que paga 20,6M de benefícios, num total de R$ 7,1B [2].
Dos beneficiários, 13,2M ganham um salário mínimo (64%) [2], o
que custa R$ 2,6B.
Um
aumento no salário mínimo por um incremento x custará, por ano,
para a Previdência
(13,2M)*x*(13
meses) = 171,6M*x.
Assim,
R$ 1,00 de aumento (x=1) custará R$ 171,6M. Além do impacto na
previdência, o aumento do mínimo tem outros impactos sobre as
contas públicas. Para cada Real de aumento, a folha do pessoal da
ativa nos estados sobe em R$ 4M/ano nos estados e R$11M/ano nos
municípios [3], o que cria dificuldades de pagamento,
principalmente para os pequenos municípios.
Vou considerar dois
tipos de efeito de "retorno", primeiro, o aumento da
arrecadação do INSS devido ao fato de que o aumento do salário
mínimo cria uma base maior para a arrecadação. Segundo, o
aumento da arrecadação geral devido ao aumento do
consumo.
Para
estimar o primeiro efeito, é necessário algumas hipóteses
simplificadoras.
Primeira:
após o aumento, não haverá mudança substancial no nível de
empregos. De fato, um estudo específico sobre o impacto do
salário mínimo sobre a economia mostrou que o aumento altera
bastante o perfil de salários de quem ganha até 3 mínimos, mas
tem impacto pequeno sobre o desemprego [4].
Segunda:
14% dos trabalhadores ganham um salário mínimo [5]. Este é um
dado de 1999, que imagino que não tenha se alterado muito.
Terceira:
o salário mínimo não atua como indexador para salários mais
altos. Esta hipótese tende a subestimar o aumento da receita, já
que os salários mais baixos (2 ou 3 salários mínimos) são
atrelados ao valor do piso.
Quarta:
a alíquota de descontos para o INSS é de 20%. De fato as
alíquotas são diferenciadas por classes: empregados,
empregadores, domésticos, etc., podendo variar entre 7% e 20%.
Portanto, esta hipótese tende a hiperestimar o aumento da
receita
Assim,
se o número de contribuintes do INSS ganhando um salário mínimo é
26,7M*14%
= 3,3M,
o aumento da arrecadação da previdência em um ano
será
20%*3,3M*x*(13
meses)= R$ 8,6M*x.
Logo,
para cada real de aumento, a previdência arrecadará por ano mais
R$ 8,6M.
Por
outro lado, o aumento do mínimo injeta mensalmente na economia o
incremento de salário dos aposentados que ganham um salário
mínimo e dos trabalhadores com carteira assinada que ganham um
salário mínimo
(13,2M
+ 3,3M)*x = 16.5M*x.
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Parte
deste valor retorna aos cofres públicos através dos impostos,
mas é bastante difícil saber quanto. Algumas estimativas
dizem que a tributação brasileira, feita em cascata, pode chegar a 35%. Mas parte
do consumo das populações de baixa-renda é feito no setor informal, com alíquotas
mais baixas.
Considerando,
por baixo, a base de impostos em 12% (apenas ICMS), o
aumento da arrecadação será, por ano, |
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Déficit
e Retorno para cada Real de aumento no salário mínimo.
Valores em milhões de reais por ano. |
| Fontes
de déficit |
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| Aposentadorias |
171,6 |
| Folha dos
Estados |
4 |
| Folha dos
Municípios |
11 |
| Total de déficit |
186,6 |
| Fontes
de retorno |
|
| Aumento da
arrecadação INSS |
8,6 |
| Aumento da
arrecadação ICMS |
25,7 |
| Total de
retorno |
34,3 |
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12%*16,5M*x*(13
meses)=R$ 25,7M*x
Assim,
para cada real de aumento, haverá um aumento de R$ 25,7M por ano
na arrecadação. Novamente, não estou levando em consideração
o fator de indexação do salário mínimo, que faz salários
maiores que o mínimo também aumentarem. Também não considerei
o efeito de aumento de salário sobre a base de ocupados
não-contribuintes do INSS (sem carteira assinada), 40,2M de trabalhadores [1].
Conclusão,
o aumento do salário mínimo custa anualmente aos cofres
públicos, entre previdência e pessoal da ativa, R$ 186,6M para
cada Real de aumento. O retorno por tributação de consumo e
previdência resulta em R$ 34,3M (18,4%), que é mais do que
suficiente para cobrir o custo da folha de pessoal dos estados
e municípios. Mas o efeito de "retorno" está muito longe de cobrir o crônico problema
do aumento do déficit da previdência.
Referências:
[1] R. Brant, Conjuntura Social v.12, n.2, abr-jun, 2001. http://www.mpas.gov.br/07_03.htm
[2] Boletim estatístico da previdência social, jun, 2002. http://www.mpas.gov.br/12_02.htm
[3] Portal Brasil: salário mínimo. http://www.portalbrasil.eti.br/salariominimo.htm
[4] C. H. Corseuil e F. G. Carneiro, "Os Impactos do Salário
Mínimo sobre Emprego e Salários no Brasil: Evidências a partir
de Dados Longitudinais e Séries Temporais", Rio de Janeiro,
2001. http://www.ipea.gov.br/Publicacoes/index.html
[5] IBGE: http://www.ibge.gov.br/brasil_em_sintese/default.htm
(m.b.)
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