Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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[29/ago/2002] Futuros possíveis: setembro de 2010

Quando foi eleito pela primeira vez, Lula prometera que não se candidataria novamente, por questões de princípios. Mas princípios se esvaziam e ele já completa seus oito anos de mandato presidencial. Claro que, com a atual crise nas contas públicas e com as diversas denúncias de corrupção envolvendo funcionários de segundo e terceiro escalão, ninguém se surpreende com o baixo desempenho que o candidato governista vem tendo ao longo de toda a campanha eleitoral.

Não há dúvidas de que o Brasil de Lula mudou. Só não se sabe ao certo o que realmente se pode atribuir ao seu governo, ou a razões exteriores. Por um lado houve uma clara melhoria nos indicadores sociais, ao longo desta década. Por outro, a concentração de riquezas continua um sério problema.

O capitalismo brasileiro se modernizou. Sua força de trabalho está mais qualificada e menos informal, o sistema tributário mais racional e o empresário mais eficiente. Mas a oposição tem uma certa razão em avaliar que estas melhorias teriam ocorrido fosse ou não Lula o presidente. De fato, foi um processo que ocorreu com vários países do bloco centro-sul, impulsionado em boa parte pela retomada do crescimento econômico americano, nos últimos cinco anos de gestão democrata. Talvez a grande contribuição do governo brasileiro, para esta modernização, tenha sido a profunda flexibilização das leis trabalhistas conduzida pelo partido do presidente.

Mesmo os tímidos avanços no perfil de renda da população encontram motivações estruturais. Afinal, a curva de consumo brasileira vinha sofrendo um processo de estagnação desde a década de 1980, com alguns períodos de crescimento pontuais na década de 1990. O potencial de consumo dos 175 milhões de brasileiros estava reprimido, entre outro motivos, devido ao longo período de 'política de recessão estimulada' aplicada ao longo da era FHC. Foi mais ou menos natural que a retomada da atividade econômica mundial tivesse impacto sobre o nosso mercado de consumo interno.

Em termos políticos, o Brasil também mudou. As instituições estão mais sólidas, e a população, mesmo a parcela mais humilde, começa a perceber esta permanência da República, em contraste com a efemeridade das pessoas.

O PT se tornou, desde o início do governo Lula, um dos maiores partidos do país, atraindo grandes setores do PSDB e do PMDB, para contar apenas os partidos maiores. Mas ao mesmo tempo perdeu sua principal característica histórica, que era de estar organicamente ligado à sociedade civil organizada. Hoje o PT lidera um grande bloco de centro, tendo como oposição a esquerda liderada pelo PDTU, surgido da unificação do PSTU e do PDT, após a morte de Leonel Brizola. À direita, PTB e PFL perderam força nacionalmente nas últimas eleições, apesar de ainda contarem com um expressivo número de parlamentares, apoiados nas forças regionais de pequenas e médias prefeituras.

O Brasil mudou nestes últimos oito anos. Se para melhor ou pior, depende de quem olha o copo. Os narcotraficantes da Amazônia, a crônica falta de água no sudeste, a baixa qualidade de vida nas metrópoles, a falência do sistema previdenciário e os focos de corrupção contrastam com os modernos parques industriais, com as baixas taxas de analfabetismo e de mortalidade infantil.

Os candidatos à sucessão de Lula sabem disto e escolhem com cuidado se mostram o joio, ou o trigo. Lula não elegerá o sucessor e vai, conformado, para um ostracismo voluntário: possivelmente aceitará o convite para lecionar política internacional em Paris.

E eu, como um eterno pessimista moderado, acredito que tudo tende a piorar, independentemente de quem seja eleito. Nossas escolhas determinam apenas se a merda virá com mais ou menos rapidez.

(m.b.)

 

 
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