Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

   

[12/set/2002] Ainda não perderam a ternura

Após um grande tour internacional por Montevidéo e Buenos Aires, volto à Terra das Bananas disposto à reflexão. Mas não a simples reflexão turística, típica daquela gente estranha que faz estatística de caso único. Come uma pizza em NY e constata soberano: "Americano não sabe fazer pizza!"; É mal-atendido por um lojista ao pé da Eiffel e consolida: "Os franceses são mal-educados".

Comi pizza duas vezes por lá (por sinal, deliciosas), e ainda não me sinto à vontade para traçar generalizações gastronômicas. Também não vou falar dos vinhos ótimos e baratos, da mania irritante daquele povo comer pão em todas as refeições, ou contar que o espetacular "bife de chorizo" portenho se chama "entrecot" entre os uruguaios.

Não gosto de generalizações fáceis, estereótipos ou piadas com nacionalidades. Dizer que "argentinos são como pombos: ambos existem em excesso, fazem muito barulho e não servem para nada", pode ter uma certa verdade sutil, mas só cria falsos acirramentos entre povos irmãos.

E assim seria uma generalização fácil dizer que a música uruguaia é uma merda. Apesar de que não tenho outro adjetivo para classificar tudo que ouvi por lá.

Mas para evitar gafes e ingenuidades, vou me ater a temas mais simples e básicos, como a crise econômica e social que aflige os dois países.

Por meses ouvi falar que a Argentina estava indo abismo abaixo. E como todo mundo, assisti curioso, em 2001, aquele país cumprir o seu destino histórico de republiqueta latino-americana, o qual vinha irritantemente se negando a fazê-lo havia um século.

Mas sabia que o tal "fundo do abismo" não era tão sujo e escuro quanto o pintado nos jornais. Afinal, brasileiro, conheço bem o conceito de crise. Assisti, nas minhas poucas décadas de vida, o país passar por uma dúzia bem medida delas.

Lembra o último ano do governo Zé Sarney? Mil por cento de inflação anual e estávamos apenas "à beira da hiperinflação". E mesmo assim, não podia se dizer que estávamos no fundo do poço, pois sempre há mais para descer. Talvez numa situação de guerra total, com todas as instituições falidas e o um completo cada-um-por-si, se possa falar de fundo de poço. Mas claro que não é (nem foi) o nosso caso, nem é o caso dos nossos vizinhos.

Não é novidade que num mundo desigual, há sempre aqueles que ganham e enriquecem com as crises. Há sempre os que se apoderam do estado e se aninham no colo da Mãe-República. Há os que lucram com os vários mecanismos de transferência de renda, tais como juros e achatamentos salariais. E há os que engordam com a violência, como os ladrões e as seguradoras.

E não foi outro o cenário que encontrei no Uruguai e na Argentina.

Hospedado na Ricoleta, um bairro equivalente ao Leblon do Rio, é difícil imaginar qualquer crise. Um magnífico bairro de classe média alta para cima. Imóveis de 200 mil dólares. Delicatessens com pães e frios que nunca vi do lado de cá do Prata.

E se saímos da Ricoleta para o Centro, Retiro, Boca e San Telmo - outros bairros do circuito turístico -, ainda é difícil tropeçar na crise. Afinal, Buenos Aires, vista da margem do rio, é uma cidade magnífica. Elegante e charmosa pela arquitetura que mescla o austero e o moderno. Sem grandes atrativos naturais, sua beleza nasce da intervenção humana, e não da geografia, como aqui no Rio.

Mas algo estava fora da ordem. Em comparação com quando a visitei pela primeira vez, há cinco anos, havia, desta vez, uma imensa população de pedintes e subempregados. E chamou a atenção a agressividade daquela gente empobrecida. Um "não" não bastava como resposta. Esmolavam como se os culpados pela cleptocracia instaurada no país fossemos nós, e não Menem. Era claro o perigoso sentimento de raiva entre classes: o típico estopim da violência civil, que conhecemos tão bem.

Não deixei os bairros feitos para inglês ver. Mas a TV local revelava a cidade mais adentro. Violência, pequena para os padrões cariocas, assustadora para os deles. Fome e pobreza. Campanhas para arrecadação e distribuição de alimentos. Protestos pela paz, por emprego e pela recuperação das bibliotecas públicas. Filas de desempregados recebendo passagens subsidiadas de ônibus. Campanhas de sabão-em-pó que não queriam lavar mais branco, mas prometiam tirar pesos do varal.

A crise estava mais visível distante do epicentro, no Uruguai. Em Montevidéo é difícil encontrar um prédio sem um cartaz de "Aluga-se". Pedintes estão espalhados pela cidade. Ao longo da calle 18 de Julho, a avenida Rio Branco deles, os shoppings e galerias estão com quase todas as lojas fechadas.

Alguém brincou dizendo que o Uruguai era uma cidade na fronteira entre o Rio Grande do Sul e Buenos Aires. E, de fato, assim parecia o muito pouco que conheci. Era um exercício exótico tomar qualquer produto industrializado, um talher ou uma cerveja, e verificar que havia sido produzido ou no Brasil ou na Argentina.

E nesta fragilidade econômica é fácil compreender a dificuldade que o país passa numa época de recessão dos dois vizinhos continentais.

Curioso por temas étnicos, percebi logo que tanto na Cisplatina, quanto além do Prata os mais pobres não eram brancos. Diferente dos nossos pobres, que em sua maioria são negros, naquelas terras eles são crioulos. A pele mais escura e o traço fugidio dos andinos são logo percebidos.

Quando voltava para casa, lendo o Clarin, aprendi com a Prof. Suzana Torrado que na formação da população argentina, durante o século 20, circunstâncias sociais como a identidade cultural de imigrantes de mesma nacionalidade, criou uma situação de endogamia, que acabou por segregar as duas populações, os nativos e os imigrantes europeus. (É verdade! Lê-se estas coisas nos jornais de lá!)

Mas ainda segundo a Professora, os argentinos têm uma imensa dificuldade de reconhecer o racismo na sua sociedade. "Ha persistido en nuestro imaginario coletivo la idea de que la Argentina es una sociedade en la que no existen diferencias étnicas o, al menos, las mismas no son importantes como causa de desigualdad social."

E nisto, lá e cá, somos extremamente semelhantes.

(m.b.)

 

 
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