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[23/set/2002]
Mitos e mitos eleitorais
Uma
conseqüência, bem das secundárias, das eleições deste ano
será a de desfazer mitos. Todo o processo eleitoral, da
pré-candidatura à votação, vai servir para mostrar aos
analistas, que cada eleição é única, e que se eles querem
distinguir padrões, comparando estatísticas e comportamentos
entre anos diferentes, terão que mergulhar um pouco mais a fundo
nos dados.
Com
uma história recente de apenas três processos eleitorais para
presidência, temos uma base empírica muito rarefeita e
frágil para estimar seriamente os efeitos de um tipo ou outro de
campanha; ou para estimar as tendências espontâneas do
eleitorado; ou a evolução da rejeição de um candidato.
Lembro,
por exemplo, no começo de agosto, o Prof. Guilhon Albuquerque, na Folha, analisando a trajetória de intenções de
voto em Lula em 1989, 1994, 1998 e 2002. Ele ingenuamente tomava o
índice geral de intenções daqueles anos, mês a mês, e
extrapolava o que deveria acontecer agora. Concluía, soberbo,
pela inevitabilidade de uma nova e humilhante derrota do candidato
do PT, que não deveria ir nem ao segundo turno! Escrevia ele:
"Com
a ausência dos "ruídos eleitorais" de outros anos
_isto é, a ausência de um grupo de "nanicos", com
votação oscilando entre 3% e 5%_ e o esvaziamento de Garotinho,
mais de 60% dos eleitores se dividirão entre Serra e Ciro.
Qualquer dos dois que se distancie e ultrapasse um patamar de 40%
poderá ganhar no primeiro turno. Se houver indecisão entre os
dois, ambos poderão ir para o segundo turno, tirando Lula do
páreo. A crise resultante da derrota pode se revelar fatal para o
PT." (J. A. Guilhon Albuquerque, Folha de São Paulo,
07/ago/2002.)
Duas semanas depois, os números começaram a divergir de
suas expectativas, e o Dr. Guilhon Albuquerque, professor titular
de relações internacionais do Departamento de Economia da
FEA-USP, detentor da cátedra Rio Branco, na Chatham House, Royal
Institute of International Affairs (Reino Unido), deve estar dando graças a deus
por ninguém levar a sério as prosas jornalísticas. Ele deve ter
aprendido
que matematização grosseira e ingênua, que reveste a opinião
de um ar científico, pode levar a erros tão gritantes quanto os
da opinião distraída e mal formada.
Dentre
os mitos que vi destruídos, os principais:
1.
Lula é um candidato fadado a perder.
Lula ainda não venceu, mas
tem uma concreta chance de vitória. Eu mesmo, nos idos de 2001,
repetia o bordão de que o PT deveria "trocar de candidato,
pois Lula nunca ultrapassaria seus níveis históricos de
votação, e seria derrotado novamente". Nada mais falso. Ele
ultrapassou os níveis das eleições anteriores, pelo menos
segundo as pesquisas. Manteve os índices e diminuiu bastante a rejeição. Ganhando ou não a eleição deste ano, a campanha
de Lula já mostrou a falsidade dos argumentos que previam sua
derrota.
2.
O eleitor tem uma atração irresistível por um candidato
semi-desconhecido, que se coloque como alternativa.
Conseqüência
do fenômeno Collor, os analistas passaram a acreditar que
qualquer um que surgisse no cenário, com a cara nova da
alternativa, seria apoiado pelo povo que o carregaria, no
Planalto, rampa acima. Muitos viram esta possibilidade em Roseana
Zé Sarney. Muitos acreditaram que seria o destino de Ciro Gomes.
Alguns ainda tentam vislumbrar um azarão em Garotinho. Mas o erro
de quem acreditou em um novo fenômeno Collor, foi esquecer que o
fenômeno Collor já havia ocorrido, e que o eleitor não havia se
esquecido das conseqüências desastrosas de seu voto. A
velocidade de queda de Roseana e Ciro foi proporcional ao
conhecimento do eleitor a respeito de suas fragilidades e da falta
de uma certa solidez ética destes candidatos.
3.
A mídia trabalha pelo candidato das "elites".
Novamente,
o analista que acreditou neste mito, foi induzido ao erro pelas
eleições passadas. De fato, principalmente em 1989 e 1994 a
mídia trabalhou claramente a favor de Collor e Cardoso. Era uma
das facetas de nosso amadorismo com a tal recém-parida
"democracia". Mas nesta eleição, a mídia impressa ou
não, trata a eleição e os candidatos com o olhar do capital.
Demonstraram que não importa realmente quem vai ganhar, desde que
muitos exemplares de jornal sejam vendidos e que os índices de
audiência estejam em alta.
E
o mito mais gritante, que deve ser desconstruído, é o que diz
que o "povo é burro e não pensa". Nada mais falso.
Teorizar é algo tão natural e instintivo ao ser humano como
buscar comida, ou crer numa alma imortal. Todos nós fazemos isto
o tempo todo. Com as informações que dispomos, construímos
explicações para o passado e expectativas para o futuro.
"Nas eleições, todo o problema nasce da baixa qualidade da
informação que o eleitor tem para tomar suas decisões."
Isto foi dito por Lula, há um ano atrás, ao ser questionado
sobre se "o povo sabia votar". Concordo com ele: às
vezes, a informação falsa, parcial e preconceituosa embaça a
vista de grandes parcelas do eleitorado e mesmo do analista.
E
se aproveitando disto, muitos políticos aprenderam a andar no limite entre o
falso e o real, pois sabem que a desinformação pode lhes ser
útil. A dupla fluminense Garotinho e Rosinha é o nosso exemplo
regional: afirmam com uma impressionante cara-de-pau que sanearam as finanças do
Estado do Rio, a despeito dos especialistas mostrarem que eles
deixaram o governo em situação calamitosa. Já Fernando Henrique
é um exemplo nacional: numa semana diz que o FMI não exigira
nenhum esforço adicional da economia brasileira para o novo
empréstimo, na seguinte aumenta a meta de superávit primário.
Cada
eleitor, não importa quão baixo seja o seu nível escolar, e
quão precário seja seu acesso à cultura, analisa e teoriza
sobre as eleições e os candidatos; julga com as informações
que tem; raciocina com as ferramentas metodológicas que dispõe.
Mas quem reclama da falta de debates eleitorais de alto nível, deve lembrar
que os candidatos falam para um país cuja escolaridade média é
de cinco anos. Teremos tudo, menos alto nível.
Mito
por mito, o que mais me intriga é aquele que diz que a esquerda
não teria espaço para ganhar a eleição presidencial no Brasil.
O eleitor brasileiro seria essencialmente conservador e submisso
ao bacharelismo e à autocracia, comportamento no qual Gilberto
Freire via uma raiz sexual masoquista. Diante da muito provável
vitória de Lula, muitos poderiam acreditar que o mito cairá
diante do peso da evidência empírica. Mas eu, pessoalmente,
permanecerei em dúvida. De forma muito curiosa, a vitória de
Lula será dotada de muitas ambigüidades: Será a vitória das
forças de esquerda, em seu simbolismo do operário que derrota o
doutor? Ou será a vitória do discurso nacionalista de
centro-direita, que o PT adotou programática e pragmaticamente?
(m.b)
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