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[07/aug/2006]
Violência, corrupção e outros
bois
1.
Comportamentos e seus motores
No
segundo semestre de 2005, o Instituto Ethos, a Patri, o Pnud, a
Unodc e o Pacto Global iniciaram uma articulação para unir o
empresariado em torno do que eles chamaram Pacto Empresarial Pela
Integridade e Contra a Corrupção. Nas palavras de Ricardo Young,
presidente do Instituto Ethos,
e Carlos Eduardo Lins da Silva, diretor da Patri,
o pacto significaria na prática “um compromisso voluntário da
empresa com um conjunto de procedimentos e diretrizes que garantam
o combate sistemático de práticas estimuladoras de corrupção
no seu ambiente interno, nas relações com instituições públicas
e nas relações com o mercado” (Folha, 22/jun/06).
Perfeito,
quem poderia ser contra tal iniciativa? Bom, o leitor mais atento
pode ter sentido falta, na longa lista de ONGs do bem que aparece
no parágrafo anterior, da Transparência
Brasil. Eduardo Ribeiro Capobianco e Claudio Weber Abramo,
falando pela organização, explicam que o pacto é um instrumento
a ser usado, mas eles ponderam que
“o
melhor combate à corrupção faz-se pelo ataque às condições
objetivas que a propiciam. A corrupção não acontece porque
existem pessoas desonestas no mundo, mas porque o ambiente em que
ocorre a interação entre os agentes públicos e privados dá
oportunidades para conluios entre uns e outros.
A
consideração predominante é econômica e não moral. Se as
condições do ambiente institucional (Constituição, leis,
regulamentos) e administrativo (aplicação da lei, controles,
disponibilização de informação) apresentam oportunidades para
realização desses conluios e os riscos são reduzidos, a
racionalidade econômica será guiada por tais fatores. É claro
que existirão exceções, empresas que recuarão de recorrer ao
suborno para vencer licitações públicas, sonegar impostos,
obter vantagens em regulamentos que afetem suas áreas de atuação
etc.” (Folha, 22/jun/2006)
Foi
interessante ver esta diferença de percepção sobre ética e
comportamento posta de maneira tão clara: qual é o motor do
comportamento humano, as inclinações pessoais ou as condições
objetivas sob as quais as pessoas vivem? Esta questão aparece a
toda hora nos vários debates sobre comportamento, economia, violência,
corrupção, políticas públicas e educação.
Se
você fosse o responsável por uma agência governamental, cujo
objetivo é reduzir o número de fumantes, qual seria o seu
projeto prioritário: conduzir uma boa campanha sobre os males do
fumo ou propor um bom aumento de impostos sobre os cigarros? Se
sua escolha foi pela campanha, você, pelo menos neste caso, crê
que o motor do comportamento são as inclinações pessoais e
que é possível alterar certos comportamentos convencendo
diretamente os indivíduos, seja por apelos emocionais ou
argumentos racionais. Se sua opção foi, contudo, aumentar
impostos, você se alinhou com os que crêem que para se mudar
comportamentos, deve-se mudar as condições objetivas sob as
quais os indivíduos vivem: cigarros mais caros, fuma-se menos.
E
fosse você o responsável pela política econômica e seu grande
desafio fosse controlar a inflação, qual seria a sua linha de ação?
Proporia um pacto entre governo, empresas e sindicatos para
congelar preços e salários, chamando os cidadãos para
pessoalmente fiscalizarem o seu cumprimento; ou diminuiria a
liquidez da economia com medidas como confisco de poupanças,
desvalorização cambial e aumentos de juros?
E
se tivesse que reduzir a venda de produtos piratas, tentaria
convencer os potenciais consumidores dos prejuízos para a
economia formal que este tipo de mercado traz, ou tomaria uma
série de medidas como desburocratização, redução de impostos
e diligências fiscais, tudo com o fim de forçar o aumento do
preço do produto pirata em comparação ao legal?
Possivelmente,
pra variar, a verdade está em algum lugar entre os extremos.
Pessoas são movidas por suas inclinações e crenças pessoais,
assim como são induzidas pelas condições objetivas em que
vivem. Em cada caso, a decisão por uma ou outra linha de atuação
deveria ser ditada mais pela busca da eficiência nos resultados,
que pela simpatia por uma ou outra linha de pensamento. O problema
é que é claramente difícil reconhecer em cada caso a ação
mais eficiente. E na dúvida, se atira para todos os lados. Veja o
exemplo do cigarro: impostos altos convivem pacificamente com
campanhas educativas.
Em
particular, quando um tema envolve toda uma nação torna-se
particularmente perigoso seguir pela linha das “inclinações
pessoais”. Normalmente, pactos sociais exigem a formação de um
pensamento homogêneo, sem divergências. Ótimo para saudosos de
regimes totalitários e fundamentalismos religiosos; péssimo para
quem acredita que democracia ainda vale à pena.
Porém,
o fundamental é que estas decisões políticas não sejam tomadas
por indivíduos confiando apenas em suas intuições e
preconceitos. É essencial que as ciências sejam envolvidas para
subsidiar a tomada de decisão. Elas podem mostrar o resultado das
experiências passadas em outras sociedades ou em outros tempos.
Podem determinar quais grupos sociais são mais sujeitos a adotar
certo comportamento e merecem uma atenção especial. Podem
quantificar, por meio de pesquisas de campo, o efeito da adoção
de certas políticas. Podem modelar em laboratórios tendências
de comportamentos sob o efeito de estímulos variados. Podem
informar como indivíduos e grupos reagem a determinadas situações.
E
assim acaba-se com situações como: “eu acho que os jovens são
violentos porque não tiveram uma boa formação religiosa. Logo,
vamos introduzir ensino religioso no currículo escolar.” Aí
gasta-se dinheiro público com uma hipótese sem nenhuma sustentação
ou evidência empírica, aplicando uma medida que não tem nenhuma
indicação de sua eficiência. (No mínimo, a medida implementada
deveria ser periodicamente testada e quantificada para ver se está
ou não sendo eficiente em relação aos seus objetivos, e
eventualmente descartada quando se demonstrasse inútil.)
Pela
variedade dos exemplos, o caro leitor já percebeu que este texto
pode ir para qualquer direção. Então para a gente não se
perder, vamos focar num pequeno conjunto de temas, circulando
pelas questões da violência e da corrupção.
2.
Microeconomia da violência
O
que é a violência? É a expressão do mal ou é apenas uma
estratégia de comportamento? Ou posta de outra forma, a questão:
um indivíduo age violentamente porque é intrinsecamente mau ou
simplesmente porque a resposta violenta é a mais eficiente em
termos de custo e benefício?
Admito
que não tenho uma boa resposta para a questão, principalmente
por não conhecer o que os mais recentes estudos de psicologia
comportamental têm revelado a respeito do comportamento humano e
animal. Mas vamos trabalhar no terreno do razoável. (Provavelmente, ambas as respostas têm sua porção de verdade...)
O ato violento é sempre uma opção de resposta frente a qualquer
situação. O indivíduo não precisa ser “intrinsecamente
mau” para cometer o ato violento, como está implícito na
legislação da legítima defesa.
Se
a violência é uma estratégia, o seu controle é teoricamente
simples: basta torná-la uma estratégia desfavorável se
comparada com outras não-violentas. A princípio, se o Estado
estiver adequadamente funcionando, isto é o que se espera. Atos
violentos não-legítimos são sistematicamente punidos por meio da justiça, o que
eleva o custo e o risco de se agir violentamente.
No
entanto, se num Estado desequilibrado, com judiciário ineficiente
e sistema policial disfuncional, a violência pode se tornar uma
estratégia favorável. Ou seja, numa análise de primeira ordem,
a ação violenta pode trazer benefícios, que compensam os riscos
de retaliação. Numa situação de completa ausência do Estado,
como às vezes ocorre nas relações entre criminosos, a ação
violenta pode ser a única estratégia viável.
O
fato da violência ser uma estratégia a ser empregada por
qualquer um dependendo das relações custo/benefício, não
significa que as pessoas sejam “boas por natureza” ou talvez
“neutras”. Os sistemas psicológicos de avaliação do custo e
do benefício de se adotar uma estratégia violenta ou não, não
são sistemas primariamente racionais. São sistemas emocionais,
posterioriormente racionalizados. Assim as avaliações de estratégia
devem ser concretamente compreendidas como respostas emocionais,
mais do que raciocínios. Você está com pressa, correndo para um
compromisso. Um indivíduo vai calmo à sua frente, bloqueando a
passagem. Você se irrita e “tem vontade” de empurrá-lo. Você
não o faz, não porque “raciocina” que seria errado fazê-lo,
ou porque “avalia” que poderia ter problema com a polícia, ou
porque “conclui” que o indivíduo tem o direito de andar
devagar. Isto é o que você pensa depois. O ato de não empurrar
vem do sentimento negativo que seu corpo gera quando você
mentalmente se vê empurrando o indivíduo. É este sentimento de
um estado emocional do corpo que te faz não empregar a estratégia
não violenta.
Esta
resposta emocional envolve reações primárias como o medo e
outras mais sofisticadas como a empatia, ou seja, a capacidade de
reproduzir em nosso próprio corpo o estado emocional de outras
pessoas. Imagine dois extremos: primeiro, o covarde; depois o
psicopata. O covarde é aquele que cada vez que avalia a
possibilidade de adotar uma estratégia violenta, a resposta
emocional é tão negativa, que ela é sempre descartada. Para o
psicopata, sem empatia, não há resposta emocional negativa.
Entre os dois extremos, todos nós.
Então
violência é estratégia que pode ser adotada se os benefícios
superam os riscos e custos. Mas também podemos dizer que há
pessoas intrinsecamente más, na medida que os sistemas de avaliação
de estratégia julgam por parâmetros diversos, e para certas
pessoas, com todo o restante sendo igual, ela tenderão pela
estratégia violenta mais freqüentemente que a média.
Mas
o curioso é que a empatia nos prega peças que podem levar a maus
juízos. A gente vê padrões humanos físicos e comportamentais
em tudo. Conversa com plantas, se emociona com personagens de
animação e se compadece de animais. (Se você não sabe do que
estou falando, dê uma olhadinha na tirinha do Laerte abaixo ou,
melhor, assista O Túmulo dos Vagalumes, de Isao Takahata.) Em
todos estes casos, a gente sente que estes outros seres também
sentem com a gente. Isto é obviamente falso no caso de
personagens de animação ou plantas, mas é também falso para
outros animais? A resposta depende do animal em particular. Todos
eles “querem” permanecer vivos, lutam para isto. Sentem dores
quando estão doentes ou feridos. Mas o nível em que sofrem deve
variar profundamente, dependendo da complexidade cerebral.
Laert,
Piratas do Tietê, Folha, 10/jul/2006.
Mas
esta não é uma boa direção para o argumento. Mesmo que seja
possível mostrar que a diferença entre humanos e animais, ou
entre diferentes animais, no lidar com a dor e o sofrimento, o
fato ético é que muitos de nós chegamos a um estágio civilizatório
em estamos dispostos a incluir todos os humanos na lista de serem
que queremos proteger do sofrimento e valorizar ao máximo suas
vidas. Esta quase unanimidade não existe, contudo, quando se
trata de outros animais e basicamente somente naturalistas
radicais acreditam que devemos ampliar este círculo moral para
abranger outros seres não-humanos.
Eu,
profundo apreciador da picanha e da rabada, nunca vi um boi ser
abatido. E talvez ficasse muito mal impressionado se o visse.
Empatia. Qual a solução para o meu dilema, deixar de comer
carne, como me aconselharia um Verde? Não: a solução é
simplesmente não ir a matadouros! Bois vivem uma muito bem
sucedida relação simbiótica com seres humanos há alguns
milhares de anos. A gente garante a reprodução deles, os protege
contra parasitas e predadores, garante alimentação fácil e
farta. Em troca eles se deixam ser comidos â certa altura da
vida. Com perdão do trocadilho, pode-se dizer que eles ficaram
com o filé desta relação. Mas em resumo: boi é um animal que
existe para ser comido por humanos. (Incidentalmente, se todos
parassem de comer carne de repente, as mais de um bilhão de cabeças
de gado hoje existentes no mundo seriam um fabuloso problema ecológico.)
A eventual empatia que sentimos com sua necessária morte deve ser
evitada comprando sua carne nos insuspeitos pacotinhos do
supermercado.
ONGs
de proteção de animais já aprenderam o quanto nossa empatia nos
prega estas peças e trabalham com isto. Na Europa, elas fazem o tempo
todo comerciais mostrando carneirinhos sofrendo e macaquinhos
amputados. Quem não se apieda? Eles ardilosamente trazem o
matadouro para o intervalo comercial da TV.
Uma
curiosa situação também é vivida por bio-cientistas. Eles
sabem que a maneira de minimizar o potencial sofrimento de um rato
de laboratório ao ser morto é usando uma técnica de decaptação,
na qual o pescoço do bicho é rapidamente quebrado. Mas esta técnica
causa sofrimento psicológico aos cientistas, que preferem matá-los
numa atmosfera de gás carbònico, na qual eles morrem após
adormecer. Bom esta técnica já não é tão confortável para o
rato, que se vê sufocado antes de “perder a consciência”.
A
empatia prega peças. A falta de empatia também. Estratégias
violentas também são adotadas quando se consegue reprimir a
empatia, ou quando se esteja em situações nas quais ela não é
despertada. A violência de grupo, como a de gangues, exércitos e
torcidas organizadas, é gerada por mecanismos psicológicos de
“nós e os outros”, onde as vítimas são vistas como seres
inferiores que não despertam empatia. Muitos casos de violência
no trânsito são motivados pelo fato de um motorista não estar
vendo diretamente o outro, olhos nos olhos. Creio que é também a
falta de empatia que faz com que alguns eventuais leitores do
Defenestrando Idéias (normalmente criacionistas e evangélicos)
me mandem mensagens em tons de extrema agressividade, que duvido
que se repetiria se estivessem falando comigo diretamente, me
vendo como pessoa.
Tal
como a violência, a corrupção é uma estratégia que prolifera
em certos ambientes que a tornam favoráveis, ao mesmo tempo em
que certamente há pessoas mais susceptíveis a adotá-la que
outras sob a mesma situação. Se queremos pôr ambas sob
controle, a saída é tomar medidas que as tornem estratégias
desfavoráveis. Isto feito, na microeconomia dos comportamentos
humanos, a maioria das pessoas evitará tais estratégias. Para não
ficarmos somente no terreno das abstrações, vamos discutir um
exemplo concreto do que significaria “tornar uma estratégia
desfavorável”.
3. O DNA
dos policiais
Tanto
o controle e redução da violência quanto da corrupção
dependem essencialmente da eficiência da policia, a qual no
Brasil é tragicamente risível. Um dos (muitos) problemas é o
erro de diagnóstico, que se repete cada vez que se repete de
forma bem intencionada o discurso de que “a polícia não é
corrupta, a maioria dos policiais são honestos e existe uma banda
podre que precisa ser extirpada”.
Como
sempre, boas intenções não são a melhor maneira de se decidir
políticas públicas. Qual a evidência empírica de que a
“maior parte dos policiais são honestos”? Provavelmente não
há e uma pesquisa nesta direção poderia mostrar exatamente o
contrário, que os policiais brasileiros são normalmente
desonestos, mesmo que haja eventuais indivíduos que se negam a
praticar atos de corrupção. A lógica seria a mesma de antes: sob
um mesmo ambiente, certos indivíduos terão menos tendência que
a média de adotar certos comportamentos.
O
que salta aos olhos no caso da polícia é que é uma instituição
que funciona sob regras (ou falta delas) na qual a violência e a
corrupção são estratégias extremamente favoráveis. Imagine a
si próprio com o poder de intimidar, bater, humilhar, extorquir e
matar; protegido pelo corporativismo dos colegas; sem fiscalização
eficiente do seu trabalho; sem cobrança ou prestação de contas
sobre resultados; eventualmente julgado por um código
corporativo, como no caso das PMs. Imagine ainda que seu trabalho
demanda que você o tempo todo faça julgamento éticos a respeito
do comportamento de outras pessoas e este julgamento esteja
submetido a um emaranhado incompreensível de leis que freqüentemente
violam o seu bom-senso e modo de ver o mundo. Imagine que você
possa tomar decisões fora das leis sem grande risco de ser
penalizado, possa auferir vantagens pessoais com isto e ainda
liberar seus instinto mais primitivos. Dizer que sob estas condições
“a maioria dos policiais é honesta” significa adotar a hipótese
de que a maioria dos policiais são espécies de seres divinos que
não possuem DNA humano.
A
solução para uma situação como esta é teoricamente simples:
adote medidas que tornem as estratégias de corrupção e violência
desfavoráveis. Fácil, viu? De forma mais concreta, poderia
funcionar se investindo em duas frentes, a primeira, o
fortalecimento das corregedorias, que deveriam ser os mais
importantes departamentos das polícias. A segunda, a valorização
do comportamento honesto e legalista. Isto poderia ser feito, por
exemplo, fornecendo aos policiais bons seguros de saúde e de vida
para si e para a família; facilidades para o financiamento de
moradia; acesso a boas escolas para os filhos. Ou seja, vantagens
relativamente baratas e muito mais eficientes para aumentar a
qualidade de vida dos policiais e de suas famílias do que
aumentos de salário. (Lembre-se que o Estado pode comprar no
atacado, enquanto os policiais compram no varejo.)
Imagine
agora uma situação em que mesmo que você ainda tenha os poderes
de humilhar, bater, extorquir e matar; ainda tenha colegas
corporativos; mas saiba que existe uma eficiente fiscalização da
corregedoria e que se for pego em qualquer ilegalidade, todas
estas vantagens que garantem um bom padrão de vida para a sua família
serão canceladas. Pedir “o do café” para o motorista
infrator ou espancar o moleque da favela já não parece tão
interessante, não é?
4. Sobre
o quê este texto é e não é
Pessoas
são violentas (ou corruptas) por diversas razões: para se
defender, para sobreviver, por status, por sexo. Não discuti ao
longo deste texto tais razões, suas justificativas, sua lógica
intrínseca. Isto porque, da perspectiva que assumi aqui, não
interessa a razão do ato, apenas o fato abstrato de que ele é
uma estratégia de atuação no mundo. A partir desta constatação,
tudo se reduz a uma questão econômica: quais devem ser as condições
objetivas para que os agentes evitem adotá-la.
Existe
uma resposta fácil que, claro, é errada: a implementação de um
Estado autoritário e policial, na qual a vida dos indivíduos
simplesmente pertence ao Estado. Faço claro, sou um democrata e
este é o tipo de solução que não é proposta aqui.
Mas
este texto é sobre como fazer diagnósticos. Ou seja, é sobre
compreender porque as pessoas fazem o que fazem e como se propor
políticas eficientes para controlar comportamentos inadequados.
Para isto é necessário se investir no conhecimento tanto da
natureza humana, quanto no conhecimento dos padrões de
comportamento coletivo.
A intuição
e o senso comum devem ser postos sob quarentena
para que estejamos abertos a compreender, debater e aceitar o que
as ciências do comportamento têm para mostrar, mesmo quando são
hipóteses desagradáveis e indigestas, como a de que um dos principais motivos
para a redução da violência nos EUA nos anos 90, foi a legalização
do aborto na década de 70. (É bom fazer a ressalva que esta tese,
proposta por Steven D. Levitt, ainda não é um fato estatístico
plenamente aceito pela comunidade acadêmica.)
No caso particular da violência urbana que nos
inferniza, uma destas destas perguntas indigestas, com profundas implicações públicas,
tem sido evitada mas em algum momento terá que vir à tona: podem igrejas e
templos continuarem completamente livres de fiscalização para
movimentar dinheiro cuja suposta origem é a doação de fiéis? A
hipótese de que algumas instituições religiosas estejam
eventualmente lavando dinheiro ilegal deve ser levada a sério, ou
o leitor acha que eles estão em todas as comunidades, mesmo
aquelas que o Estado nem sonha entrar, de graça?
Argumentos
politicamente corretos do tipo “a maioria dos policiais é
honesta” ou
vindos do senso comum
como “as pessoas são violentas por falta de formação
religiosa” levam normalmente à implementação de políticas públicas
não só são ineficientes, quanto podem agravar o problema.
Assim
também o são políticas para “acabar com tráfico de
drogas”. Dez mil anos de civilização, dez mil anos de consumo
de substâncias que alteram o estado natural do corpo. Só mesmo
a arrogância sobre a cangalha da ignorância pode propor políticas
com este tipo de objetivo simplesmente impossível de ser alcançado.
E não esqueçamos que argumentos sofisticos como “o tráfico existe porque
existe o consumidor” são tão falaciosamente tolos como “o tráfico
existe porque existe o conservador que não deixa o consumo ser
legalizado”.
E
é sobre isto que este texto é: sobre como as ciências podem
ajudar a determinar as fontes reais dos
problemas, trabalhar com objetivos alcançáveis e implementar políticas cuja eficiência
possa ser testada.
(Texto
de Mario Barbatti)
Leia
também no Defenestrando Idéias:
Especulação sobre a biologia
da política (I)
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