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Mario Barbatti


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Defenestrando idéias
   
O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[20/Nov/2006] Da aspirina e dos múltiplos pontos de vista (I)

1. A aspirina no meio do caminho

A cabeça dói após um longo e estressante dia de trabalho. O sujeito toma um analgésico e dali a quinze minutos já nem se lembra mais que havia a dor. A menos que se seja um profissional da área, ninguém nesta situação pára para se perguntar porque o analgésico funcionou. Se o fizesse, iria descobrir que para cada diferente analgésico, existe uma explicação baseada na química do organismo. Com o estresse, os músculos da nuca e da cabeça estão contraídos e vasos sanguíneos sofrem espasmos. As células começam a produzir e liberar prostadalginas, ácidos glaxos que viajam pela corrente sanguínea e ativam os neurônios receptores. A informação da chegada das prostadalginas é processada pelo cérebro e aparece na forma de dor. Ao se tomar aspirina, a gente ingere ácido acetilsalicílico. A molécula do ácido se insere na enzima ciclooxigenase (COX), inibindo o seu funcionamento, que é o de justamente produzir os mensageiros químicos, as prostaglandinas. Sem prostadalginas, sem dor.

Cada um destes passos, a química da produção das prostadalginas, como elas se comunicam com as proteínas terminais dos neurônios, como o ácido acetilsalicílico se liga à COX, e muitos outros processos envolvidos, é conhecido em detalhes pelos bioquímicos. Ou seja, existe uma bem determinada base molecular para se explicar a dor de cabeça e para se explicar como os medicamentos atuam para eliminá-la. 

O nível imediatamente superior, a compreensão de como os neurônios receptores funcionam e se conectam, ainda tem uma boa interface com os estudos moleculares. Mas agora o trabalho já não é mais o do bioquímico. O trabalho é do biólogo. Os objetos básicos de estudos não são moléculas e reações, mas as células, suas organelas e suas funções. 

Subindo mais um nível, vem o trabalho de entender como o tecido neural formado pelos milhões de neurônios e sua incontáveis sinapses se organizam. Macromoléculas e a química orgânica ainda são importantes, mas estão se tornando objetos mais distantes. Os neurônios em si são importantes, junto com questões ligadas aos genes e ao desenvolvimento embrionário.

Um degrau acima, a questão é saber como o cérebro processa a informação que aparece na forma de dor, e as explicações dificilmente são baseadas em reações moleculares. Este já é o campo do neurocientista, cuja base é o estudo de como as várias regiões cerebrais funcionam e interagem. 

Existe uma longa cadeia que liga o micro ao macro. Das moléculas ao funcionamento do cérebro. Mas seria uma tolice tentar explicar o funcionamento do cérebro em termos das moléculas que o constitui. Em cada nível, os métodos e teorias têm uma certa autonomia. São desenvolvidos em si mesmo, com objetos recortados especialmente para aquele nível, por cientistas formados para atuar normalmente somente naquele nível. Apesar disto, sempre há profissionais trabalhando nas fronteiras. Não tentado reduzir um nível ao outro, mas construindo pontes entre os níveis. Criando um certo consenso de que ¨é claro que não posso explicar todo o fucionamento dos cérebro em termos de neurônios ou reações químicas, assim como é claro também que o funcionamento do cérebro é essencialmente o funcionamento dos neurônios, e mais basicamente, das reações químicas¨.

Tais níveis e pontes também existem nos ¨abaixo¨ das moléculas. Moléculas são ligadas às partículas e estruturas elementares por uma não menos longa cadeia de níveis. Seria uma tolice tentar explicar o cérebro em termos de quarks, cordas e outras estranhezas. Por outro lado, só os tolos duvidariam que o cérebro é essencialmente composto por eles. 

O consenso acaba aqui.

2. As pontes queimadas

A dor de cabeça foi causada pelo estresse do trabalho. É possível, portanto, se estender a cadeia dos quarks ao ambiente de trabalho? Dependendo de onde você enunciar esta questão, você vai imediatamente ser xingado com uma série curiosa de palavrões político-filosóficos, começando por ¨reducionista¨, ¨mecanicista¨ e ¨positivista¨, não raro progredindo para “pseudo-intelectual”, por pessoas que simplesmente não admitem a hipótese de que os fenômenos humanos e culturais possam ser conectados a esta cadeia. Para muitas delas, cultura tem uma realidade autônoma e independente do mundo natural, a não ser pelas trivialidades, como termos que rigorosamente obedecer à lei da gravidade. Para outras, mesmo que a cultura esteja ligada ao mundo natural, seu nível de complexidade é tão alto, que as ciências naturais e seus métodos têm pouco a contribuir.

Esta ruptura entre natureza e cultura é onipresente na grande maioria de debates sobre a natureza humana. Considere, por exemplo, este trecho de uma crítica da antropóloga Ivonne Maggie a um texto do antropólogo Otavio Velho: 

“O passo seguinte no argumento de Velho é sugerir, de maneira vaga e ‘sem dar nome aos bois’, que há respaldo para a idéia de ‘raça’ em outros domínios da biologia contemporânea. Ironicamente, o que a antropologia e outras ciências demoraram décadas para reverter (desnaturalizar a idéia de ‘raça’, situando-a como uma invenção sociocultural) é recolocado como fato por Otávio Velho.”(Ivonne Maggie, Folha, 10/Out/2006) 

Sem entrar no mérito da discussão, só quero chamar a atenção para como a antropóloga só aceita raça como sendo um conceito “natural”, se ela for provada em bases genéticas pela biologia. Se raça for um conceito “sócio-cultural”, ela é uma invenção não-natural (desnaturalizada). Porém, por que raça como invenção sócio-cultural não pode ser considerada tão natural como raça no sentido genético? Ou, colocada a questão de outra forma, por que invenções sócio-culturais não podem ser objetos das ciências da natureza? Não vejo nenhum motivo a não ser a velha distinção natural versus artificial estendida para o discurso acadêmico.

Já discuti aqui no Defenestrando Idéias (Ciência porquê?) que uma das três grandes funções da ciência é a de fornecer para a sociedade matrizes explicativas com as quais podemos descrever a realidade. Do meu ponto de vista, tais pontes conectando natureza e cultura serviriam principalmente para construir uma visão de mundo coerentemente confortável. Assim como, mesmo sem apelar para a realidade molecular, sabemos que o funcionamento do cérebro se baseia fundamentalmente nas propriedades das moléculas, seria confortável estabelecer bases para dizer coisas semelhantes a respeito da cultura. Dizer, por exemplo, que mesmo que não se possa reduzir cultura à genética, os fenômenos culturais se fundamentam na realidade dos genes.

Com a exceção de fundamentalistas religiosos e roteiristas de Hollywood, que por motivos diferentes acreditam que qualquer limitação pode ser superada, ou com orações, ou com autoconfiança, a idéia de que comportamentos culturais são restringidos pela realidade genética é bem aceita. As línguas faladas por humanos só podem ser construídas com sons que corpos humanos podem produzir. A discordância está no nível quantitativo destas restrições. Existe todo um continuum de opiniões, desde gente que acha que o efeito dos genes é desprezível (desde que não se usem sons tais como os produzidos pelos golfinhos, as línguas podem ser qualquer coisa, dependendo do contexto cultural), até extremo oposto (existem mecanismos genéticos restringindo até as possibilidades gramaticais). 

Mas a questão não é simplesmente a de acertar o ponteiro entre os dois extremos. Para a construção de uma verdadeira ponte entre níveis, é necessário se estabelecer ligações conceituais entre fenômenos culturais e genéticos, qualquer que seja a proporção de cada um. 

Lembro que já nos meu tempos de estudante, a separação gene versus cultura me parecia inconsistente. Como podia um mundo único ser separado em compartimentos tão autônomos? Intuía desde então que, de alguma forma, estes “modos explicativos” tinham que estar conectados. Entendo com mais clareza hoje, que nossos genes fazem nossos corpos, de acordo com nossa história evolutiva, extremamente eficientes para criar, trocar, acumular e transformar informações. Por isto, a neurociência e a evolução são fundamentalmente importantes na construção destas pontes conectando o mundo natural ao cultural. A teoria da evolução, em particular, trabalha em dois níveis, explicando não só nossa origem biológica, mas também como a informação é transmitida, acumulada e transformada.

Este tipo de idéia, que naturaliza a cultura, causa horror em pelo menos dois meios, entre muitos pensadores oriundos das ciências humanas e entre muitos teólogos. Na academia, lembram-se os cientificismos tão ingênuos quanto perigosos, que já fizeram suas vítimas no passado, como a frenologia ou o darwinismo social. Aventar a possibilidade de haver uma natureza genética para um comportamento social provoca temores que outro destes golems esteja sendo forjado. Crêem que o discurso da objetividade científica é particularmente perigoso por não admitir o dissenso e assim poder ser usado para justificar políticas de segregação.

Além disto, critica-se os cientistas por lhes faltar “sutileza”, ou seja, por estarem amarrados a bases empiricistas arcaicas, enquanto as humanidades há muito já mostraram como discursos e dados podem ser desconstruídos, tão logo se reconheçam as suas limitações intrínsecas. Vez ou outra até se recorre à matemática, citando de terceira mão o teorema de Goedel, para provar as limitações do saber objetivo.

Em círculos religiosos, por outro lado, repete-se que a alma e a dignidade humana não podem ser reduzidas à realidade natural. Este tem sido o discurso oficial da Igreja Católica em pelo menos os dois últimos papados.

Pelo restante deste texto, vou passear por várias destas críticas, tentando mostrar algumas da suas falhas mais óbvias. 

3. Abridores de caixas-pretas

Começo pelo palavrão “reducionismo” e para falar de reducionismo, vamos por partes. A questão central é: é possível reduzir o todo a uma composição de suas partes? A resposta, com a qual todos, com excessão dos tolos, condordam, é... não. É óbvio que não, como tenho argumentado nos exemplos do início deste texto. Moléculas não são conjuntos de átomos. Células não são um conjunto de macromoléculas. A mente não é uma coleção de neurônios. Fenômenos culturais não são conjuntos de memes. Bobó de camarão não é uma soma de aipim com crustáceos. E mesmo que fosse possível um computador infinito, uma teoria quântica das oscilações da bolsa de Nova York seria simplesmente inútil.

Mas não é este tipo de redução que o reducionismo “sadio” proclama. A própria física, a “teologia do reducionismo”, digamos, ensina que a interação entre as partes cria um todo maior. Quando se juntam dois sistemas - por exemplo, dois gases - a entropia final pode ser maior, menor ou igual à soma das partes. Por que? Qualquer um que fez um curso de física estatística sabe a resposta: o número de microconfigurações do sistema ajuntado pode ser diferente do número da soma das microconfigurações das partes isoladas. Isto ocorre porque as partes interagem criando um novo conjunto de microconfigurações. Se os sistemas não interagem, a entropia simplesmente será a soma das partes.

Isto para a gente é assim simples, mas imagine num tempo pré-Boltzmann. O químico ia para o laboratório, media entropia, via que ela era não extensiva, mas não tinha idéia do porquê. Se ele tivesse tendências filosóficas, poderia até argumentar que a entropia era um exemplo anti-reducionista de como o todo não se reduz às partes!

Pós Boltzmann, nada mudou em termos de laboratório. Os químicos iam medir suas entropia tal como antes. Ninguém nunca pensou: “agora que eu entendo a base microscópica da entropia, tenho que arranjar um jeito de contar as microconfigurações dos meus gases...”. Mas a gente, justamente a partir da perspectiva reducionista da física estatística, tem uma compreensão muito mais sofisticada do mesmo fenômeno, do que aqueles que só a entenderam como uma quantidade termodinâmica macroscópica.

E este é o ponto: o pensamento reducionista decompõe o fenômeno em vários níveis de complexidade, e cada nível, em suas partes básicas, melhorando nossa compreensão do todo em várias etapas. Num primeiro momento, compreendemos melhor cada uma das partes; num segundo momento, entendemos como as interações entre as partes ocorrem; num terceiro momento, aprendemos como as partes em interação se transformam gerando certas características que observamos no fenômeno global.

E assim, a ciência vai produzindo luz. O que vale mais, continuar a pequenos passos tentar compreender como se dá o desenvolvimento embrionário, ou simplesmente desistir e dizer que é algo que está além da nossa compreensão, uma caixa-preta? Passo a passo entender como o cérebro cria a mente, ou sentar confortável e proclamar que a mente está muito além da ciência? 

Note que não estou dizendo, como diziam os físicos do século 18, que já temos todas as teorias em mão para explicar tudo. Estou falando sobre a atitude diante das caixas-pretas: nunca aceitá-las passivamente, e isto envolve inclusive criar novas teorias e eventualmente revisar as que temos.

Mesmo sabendo que a mente, em sua globalidade, não vai ser explicada em termos de neurônios individuais, compreender a fenomenologia básica da psicologia humana em termos da neurologia e da teoria evolutiva é tão importante como foi compreender o movimento planetário em termos da Lei da Gravidade, ou as propriedades das substâncias químicas em termos dos átomos. Muitos psicanalistas morrem de medo da idéia, esquecendo que ciência é um empreendimento social coletivo. Deve existir espaço para abordagens diversas. Em psicologia deve haver desde gente trabalhando com as bases reducionistas mais primárias, até os que a aplicam à terapêutica cotidiana. Melhor ainda se toda esta gente estiver se comunicando e aprendendo uns com os outros. Partes interagindo e criando um todo maior...

Escrevi no texto “Dos guindadstes e das tranças do Barão” e repito agora: o reducionismo é a única atitude intelectual honesta! Qualquer outra significa criar caixas-pretas que não podem ser vasculhadas. Isto não é atitude digna de cientista. Mas curiosamente é o que fazem, por exemplo, gente que se recusa sequer a cogitar que a biologia possa ter algo relevante a dizer sobre a mente: 

“Afinal das contas: por que os psicanalistas querem tanto ser cientistas? Que não se iludam! A neuropsicanálise é um cavalo de Tróia que porta um projeto reducionista no ventre.” (Daniele Riva, médico neurologista do Hospital Sírio-Libanês de SP, e Jorge Forbes, médico psiquiatra e psicanalista, presidente do Conselho da Escola Brasileira de Psicanálise - Seção SP no JC e-mail, 2561, de 12 de Julho de 2004) 

Pode ser que seja verdade. Pode ser que o tempo revele que a neuropsicanálise fora um cavalo de Tróia que condenara Freud e Lacan a serem peças de museu, compartilhando a mesma sala que Hipócrates e Galeno. Porém, lutar contra as neurociências por medo que isto venha acontecer, não é ciência, é sindicalismo corporativo. 

(Texto de Mario Barbatti) 


Leia também no Defenestrando Idéias:
Da aspirina e dos múltiplos pontos de vista (II) Em breve...
Dos guindadstes e das tranças do Barão
Ciência porquê?


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