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Mario Barbatti


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[10/Fev/2007] A seção que falta aos jornais

Nos tropeços e desacertos da relação entre o governo petista e os meios de comunicação, muito se tem falado sobre liberdade de imprensa. Não se passa uma semana sem que algum membro do governo critique o comportamento da dos meios de comunicação, que estariam fazendo "o jogo das elites", seja lá o que isto signifique. 

Muito provavelmente estes governistas estão errados em sua análise. O jornalismo, como qualquer atividade de mercado, sobrevive de público, vendas e receita. E o grande guia do que será ou não publicado nos jornais é o que será ou não vendido nas bancas. Portanto, o tom permanentemente negativo dos noticiários não reflete algum tipo de conspiração (como acreditam tais membros do governo), assim com não refletem a simples e podre realidade das quadrilhas instaladas no Congresso e no Planalto (como frequentemente é defendido por colunistas de jornais). O tom dos noticiários resulta apenas da demanda do público. Estivesse os consumidores de jornais ansiosos por notícias brandas sobre esportes e estilo de vida, em duas semana a revista Veja estaria estampando modelos sorridentes em suas capas. 

No primeiro dia de aula do curso de jornalismo, já se aprende os pretinhos básicos da teoria do conhecimento: a imparcialidade é um mito, todo fato contém uma teoria implícita e completa objetividade é inalcançável. O que era para ser um alerta e tornar o jornalista mais rigoroso e atento, curiosamente se torna um passe-livre para a falta de rigor, quando não, para o oba-oba interpretativo.

Note que belo exemplo de imprensa ruim encontramos neste pequeno extrato de um editorial da Folha de São Paulo:

"Envereda pelo mesmo caminho o governador Roberto Requião, conhecido pela boçalidade, que inventou um complô de veículos de comunicação para explicar sua reeleição apertadíssima no Paraná." (Folha, 01/nov/2006)

O jornal diz que o governador é "conhecido pela sua boçalidade": Conhecido por quem? Ouve alguma pesquisa de opinião que mostrou que a maioria dos paranaenses o considera boçal? Ou é esta a opinião de seus adversários (de todos eles ou de apenas alguns)? Ou simplesmente esta é a opinião do editorialista, revestida de informação pública? Eu não sei nada sobre o tal governador, mas é difícil acreditar que quase três milhões de pessoas votaram em alguém "conhecido pela boçalidade".

E passando da ofensa gratuita, para a afirmação de que o governador inventara um complô dos veículos de comunicação contra ele. Não existe a possibilidade de ter havido um tal complô? Ou será que os veículos de comunicação paranaenses são tão imaculados, que aventar tal hipótese pode talvez ser considerado algo como ofensa religiosa? Eu, que mal sei apontar Paraná no mapa do Uruguai, ficaria feliz de encontrar no jornal que leio uma boa matéria sobre as relações da mídia e o governador, mostrando se existe ou não o tal complô.

O leitor poderia argumentar que o exemplo é ruim pois se trata de um editorial, que por definição é opinativo. Os noticiários em si, produzidos com mais objetividade, poderiam ser melhor protegidos contra estes tropeços subjetivos. Ficaria realmente feliz se isto fosse verdade, mas não é o que observo normalmente. Sob a pressão para produzir cada vez mais rápido notícias rentáveis, editores, colunistas e jornalistas chafurdam na falta de rigor. Vou enumerar mais alguns poucos exemplos, retirados de seções diversas dos jornais, e tenho certeza que o leitor os reconhecerá como exemplos de casos gerais e não de raros acidentes.

Quando a jornalista Giovana Girardi entrevistou um cientista a respeito da sua pesquisa sobre altruísmo, ela escreveu:

"o que incentiva o ser humano ao altruísmo é uma questão que há tempos mobiliza a ciência. Uma tese controversa, que completou 30 anos agora em 2006, é de que somos guiados por “genes egoístas” que só estão preocupados em serem passados para a frente. Um estudo liderado pelo neurocientista brasileiro Jorge Moll Neto, pesquisador dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, traz agora uma nova explicação." O Estado de São Paulo, 3/jan/2007.  

A jornalista claramente não tem a menor idéia do que trata a teoria do gene egoísta (ela confunde "gene egoísta" com "gene para egoísmo"). Mas o que chama mais a atenção é ela ter escrito este parágrafo mesmo após o neurocientista explicitamente explicar que ela estava enganada em sua interpretação de que as novas teorias sobre altruísmo põem em cheque a hipótese do gene egoísta:

"Sua pesquisa derruba então a idéia do gene egoísta?

Moll - Acho que o gene egoísta continua existindo, mas da forma como evoluímos, é possível que ele, ironicamente, tenha se transformado em um gene altruísta, porque nossa sobrevivência individual dependeu de a gente cooperar em grandes grupos."

Ciência é terreno fácil para se cometer erros, quando não se é um especialista. Mas bastaria um mestrando em biologia lendo as matérias ainda na redação, para que se evitasse publicar bobagens como esta acima ou:

"Segundo Cyrulnik, a grande descoberta da neuropsiquiatria dos últimos quinze anos é a plasticidade cerebral, que faz com que o cérebro esteja sempre sendo moldado pelos acontecimentos de nossa vida e pelo nosso ambiente social. “Ele é permanentemente reformulado pelas interações afetivas.” Se entendi direito, essa flexibilidade vai permitir que se operem no meu mapa genético correções, alterações no sentido de desenvolver maior aptidão para o bem-estar e a felicidade." Zuenir Ventura, O Globo, 03/jan/2007.

Não, ele não entendeu direito. Nada na sua vida altera sua genética. O neuropsiquiatra estava falando apenas da arquitetura dos neurônios. Não dos genes. Novamente, bastava que alguém com educação científica revisasse o artigo, para que se evitasse o engano.

Na falta de notícias relevantes, por que não se inventar notícias relevantes?

"Métodos condenáveis" deram vitória a Chinaglia, diz Aldo

estampa uma manchete da Folha em 7/jan/2007 sobre a eleição para presidente da Câmara. (Por sinal, a intensiva cobertura desta eleição ilustra bem a falta de notícias relevantes no noticiário político...) Então o deputado derrotado resolveu abrir o verbo e fazer acusações? Isto pode ser interessante. A introdução para a entrevista confirma o tom explosivo:

Derrotado na disputa pela reeleição à presidência da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo (PC do B-SP) diz que o governo Lula vai precisar do bloco que o apoiou (PSB, PC do B, PDT, PAN e PMN) para "assegurar a governabilidade" e classifica de "método condenável" as promessas de cargos em troca do apoio a seu adversário Arlindo Chinaglia (PT-SP), segundo diz ter ouvido de aliados.

Então vamos lá para para saber o que o deputado realmente disse:

"Mas o sr. considera o oferecimento de benesses, cargos e emendas normal?
ALDO -
Eu acho que, se realmente houve, o método, naturalmente, é condenável." 

Era isto! Uma única sentença respondendo hipoteticamente a uma pergunta do jornalista. Resposta formal, que possivelmente até o próprio deputado vencedor teria dado. Bom deixar registrado, assinam a pérola Valdo Cruz e Letícia Sander. 

Mas este tipo de jornalismo ruim não é nada diante da maior praga do jornalismo atual, as notícias em off, aquelas cujas fontes são anônimas. Editores, colunistas, jornalistas fariam um favor aos leitores se simplesmente acabassem com estas notícias, ou as reduzissem para o estritamente necessário. Não fazem porque neste caso dificilmente os jornais teriam mais que uma ou duas páginas. Se o caro leitor defender este tipo de notícia lembrando que foi uma notícia em off que desencadeou o escândalo do Watergate e a queda de Nixon, perguntarei qual a relevância (para o leitor, claro) de notícias como esta, abaixo?

"Vitaminado pela condição de sócio maior da vitória de Arlindo Chinaglia, o PMDB da Câmara avisa: não aceitará que a escolha de José Temporão para ministro da Saúde seja considerada de sua cota" (Folha, 7/jan/2007)

Quem avisa? Esta notícia só teria relevância se os nomes dos deputados peemedebistas fossem dados. Do jeito que está não é noticia. Não é nada, senão fofoca plantada por alguém escondido nos bastidores. É apenas a grande imprensa trabalhando como moleque-de-recado para políticos. 

Fica como proposta: querem encher páginas de notícias em off, tudo bem. Mas vamos adotar também que jornalista deve ser juridicamente responsável pelo que escreve: tem o direito de não revelar a fonte, mas neste caso deve responder perante a justiça como se fosse a própria fonte. Afinal, o que garante que não foi ele próprio que criara a noticia?

(E por falar em  responsabilidade jornalística, me vem a memória de quando a polícia federal quebrou o sigilo dos telefones da Folha, que haviam feito contatos com suspeitos sob investigação. Houve uma impressionante grita por parte dos meios de comunicação, que durou alguns dias, mesmo depois que a polícia, com rabo entre as pernas, pediu desculpas e jurou nunca mais cogitar a hipótese de que um telefone de jornalista pudesse estar envolvido em algo que não fosse o bem maior da sociedade. Aprendemos naquele caso uma importante lição: se queres fazer algo ilícito, seja jornalista.)

Os exemplos acima, são em boa parte motivados pela falta de rigor associada à pressa de se produzir noticias que vendam. No último exemplo, porém, aparece uma outra motivação que é a relação da imprensa com o poder. Como já discuti em outros textos do Defenestrando Idéias, a classe política brasileira se apartou da sociedade como uma classe de fato, uma espécie de nova nobreza (A maldita herança das capitanias), enquanto jornalistas políticos assumem o papel de vassalos (A melancólica crônica das capitanias).

Isto traz a tona, claro, as relações entre imprensa e poder, que deveriam ser freqüentemente objeto jornalístico. No entanto, tais assuntos são cercados de silêncio. É verdade que as organizações Globo têm imensas dívidas e contam com benesses governamentais? E o que construtoras exigem que não seja objeto jornalístico antes de pagarem por aqueles anúncios de duas páginas nas edições dominicais? 

E na figura abaixo, onde acaba a notícia e começa a publicidade? Teriam As Casas Bahia mantido o anúncio se a reportagem fosse negativa para eles? Talvez sim, talvez não: ainda estou esperando ler uma boa reportagem sobre o assunto.

O Globo, 19/jan/2007.

Ali Kamel, diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo, argumenta que a honestidade da relação  entre mídia e poder está na percepção pública da qualidade do meio de comunicação:

"Grupo de mídia algum trocará a sua reputação de longo prazo, garantidora de sua audiência e de sua credibilidade, e, portanto, de seus lucros, para se imiscuir na vida política da sociedade visando a obter benefícios de curtíssimo prazo. Quem pode fazer isso são experiências “jornalísticas” efêmeras, de oportunidade; mas estas, ao enveredarem por esse caminho, abandonam o jornalismo para praticar algo que, como disse antes, na verdade é apenas publicidade" Ali Kamel, O Globo, 6/fev/2007.

(Bom lembrar que Kamel ainda não era diretor da Globo à época da Campanha das Diretas e da eleição de Fernando Collor.) A falha no argumento de Kamel está na suposição implícita de que o público é um crítico perfeito, com informação suficiente  e bem dotado de capacidade de análise para perceber quando um meio jornalístico está seguindo o caminho da "publicidade".

Como qualquer bom democrata, acredito no fundamental valor do princípio da liberdade da imprensa. Mas queria que esta liberdade fosse ampla, sem os arreios da política e do capital. E isto não será feito incentivando a proliferação do jornalismo de tendências, como parece que tem sugerido o governo em mais uma de suas obscuras fórmulas. 

O que realmente pode elevar a qualidade jornalística é permitir o julgamento por parte do publico consumidor. Mas para isto é necessário informação. É necessário saber o que se passa não só nas redações, mas também nos departamentos de contabilidade e de marketing das companhias de comunicação.

É realmente difícil acreditar que o jornalismo, um setor política e financeiramente tão poderoso da sociedade, não seja por si próprio um objeto jornalístico relevante, que deveria estampar as páginas dos diários com tanta freqüência quanto as notícias de Brasília.

Se os meios de comunicação querem ter o apoio da sociedade em sua legítima luta pela liberdade de informar, têm a obrigação de tornarem-se eles próprios transparentes. Podem começar adicionando uma seção a mais nos jornais. Depois de Política, Economia, e Internacional, que tal a seção Imprensa?

(Texto de Mario Barbatti) 


Leia também no Defenestrando Idéias:
A maldita herança das capitanias
A melancólica crônica das capitanias


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