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[15/Fev/2007] Não usarás
o nome do inocente nome em vão
A
morte do menino arrastado pelas ruas por bandidos é um fantasma
que vai nos assombrar por muito tempo. Mas não bastasse a barbárie
em si, temos agora que agonizar ainda um pouco mais e suportar os
urubus em sua fome de sangue e carniça. Suportar esta gente
“indignada” exigindo providências, que não são mais que a
implantação de uma agenda neofacista. O menu de sempre: controle
policial-militar de guetos, eliminação de direitos, pena de
morte.
É
impressionante como esta gente ignorante não consegue entender os
mais básicos conceitos da civilização. Não consegue entender
que “direitos humanos” não é fru-fru de intelectual para
defender bandido. É a garantia de que nenhuma pessoa será presa
sem que pese contra ela alguma acusação fundamentada; de que a
sua moradia e seus bens não lhes serão tomados arbitrariamente;
de que ela poderá expressar sua opinião, rezar em seu templo,
decidir quantos filhos vai ter sem que seja punido por isto. É,
afinal, a garantia de que a polícia e o Estado vão agir sempre
rigorosamente dentro da lei. Se a lei é ruim, mude-a, não a
atropele.
Bandidos
são como governantes: cada povo tem os que merece. E vendo estas
manifestações raivosas e cheias de ódio, desejosas de ver um
Estado policial, autoritário e vingativo, fica dolorosamente
claro que os bandidos cariocas são selvagens porque os cariocas são
selvagens. A tragédia é ver inocentes morrendo em consequência
disto.
Estou
me lixando para os discursos anti-humanistas, para o deboche
anti-intelectual, para o raciocícnio tacanho com suas falsas soluções.
Mas realmente me incomoda ver esta gente usando o nome do inocente
menino em vão. Profanando sua memória ao usá-la como estampa em
suas agendas políticas. Foi quase inacreditável me deparar com o
canalha de um bispo católico, numa coluna de jornal há poucos
dias, usando o matirizado para vender suas idéias anti-aborto e
anti-camisinha. Se o inferno existisse, ele teria por lá seu
lugar já reservado.
Se
você, caro leitor, é um dos raivosos a que acabo de me referir.
Tente sincera e racionalmente responder qual a diferença que
faria se sua “polítca de segurança” - esta que você tem
certeza que resolveria o problema - fosse implementada. Se sua
resposta começar com um “eu acho que”, simplesmente cale-se.
O assunto é muito sério e políticas mal fundamentadas
significam matar mais inocentes no futuro.
Mas
se está disposto a fazer um pouquinho para a situação melhorar,
vá estudar. Aprenda que existe um universo imenso de coisas que
você não tem idéia. Leia algo que não seja a Veja, Orkut ou a
Bíblia. (Fica como sugestão “A Tábula Rasa”, de Steven
Pinker.) Nos próximos meses, ao invés de dar o dízimo para sua
igreja, junte com seus vizinhos e use este dinheiro para doar
livros e computadores para a escola pública de seu bairro.
Finalmente, toda vez que vier à sua boca a expressão “o
problema do Brasil é” e você tiver certeza que sabe como
resolvê-lo, pare, respire e lembre-se de uma útil platitude:
“para todo problema complexo existe uma solução simples, e
errada”.
(Texto
de Mario Barbatti)
Leia
também no Defenestrando Idéias:
Cada povo tem a bandidagem
que merece
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