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Mario Barbatti


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O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[01/Abr/2007] Colocando uma rede na quadra de tênis

Não espere encontrar em "The God dellusion" [1] uma profunda discussão sobre teologia. Um debate recheado de argumentos abstratos e intrincados sobre a existência de Deus. Não sei se por intenção ou por lhe faltar competência, mas não é isto que Richard Dawkins faz por lá.

O que ele faz é discutir a religião real, das ruas e dos templos, não a dos tratados filosóficos. Este ponto que tem sido rotineiramente atacado pelos críticos como a fraqueza da obra é exatamente o que a faz especial.

"The God dellusion" não tem a força de "O Gene Egoísta" ou "O Relojoeiro Cego", na minha opinião, as melhores obras de Dawkins. E isto pode assustar a princípio. Eu próprio li boa parte do livro com um certo sentimento de decepção, como se estivesse apenas lendo uma bem escrita compilação de argumentos, citações e anedotas de páginas ateístas da Web. Mas terminei "The God dellusion" com outra opinião. Acho que entendi o que o autor realmente queria.

Nada ali era realmente novo, pelo menos não para alguém com uma boa formação secular. Então talvez fosse uma questão de público. Dawkins estaria se dirigindo a um público de pessoas que se dizem religiosas não por convicção, mas apenas por falta de informação de que elas podem viver muito bem sem a religião, o mesmo público buscado por Daniel Dennett em "Breaking the Spell".

(Por sinal, Dawkins e Dennett agora têm o que poderiamos chamar uma relação simbiótica, com um emprestando conceitos do outro durante todo o tempo. Em particular, percebe-se que Dawkins degustou “Darwins’s dangerous idea” de Dennett.)

Alguns capítulos de “The God dellusion” são realmente fracos e dispensáveis. A discussão sobre as provas da existência de Deus tem um certo tom de ridículo. Mas a culpa não é realmente de Dawkins: tal discussão é de fato ridícula e como alguém já apontou é como jogar tênis sem a rede.[2]

“The God delusion” é com certeza uma boa obra-trampolim. Daquelas que a gente usa para nos ajudar a nos desprender de mitos sufocantes, socialmente impostos. Mais tarde, mais maduros, aprendemos a reconhecer nestas obras os exageros e defeitos. Para mim pessoalmente tiveram este papel há uns vinte anos “Cosmos” de Carl Sagan e “O Macaco Nú” de Desmond Morris. “The God dellusion” fará o mesmo por uma nova geração que “não sabia que podia” viver sem religião.

Boa parte das críticas que li a “The God dellusion” foram por Dawkins estar preocupado com formas “primitivas” da religião, com seus deuses antropomórficos há muito abandonados por formas mais abstratas. Mas se queremos entender o que é a religião e quais as suas conseqüências sobre as sociedades, a religião que realmente importa é a das ruas, não a religião repensada e abstraída pelos teólogos.

De que adianta, por exemplo, o estudioso tentar explicar que o catolicismo é monoteísta, se na prática o católico comum realmente crê em (sente a existência de) uma grande fauna de seres divinos que para todos os efeitos são deuses ou semi-deuses, distribuídos entre os entes da trindade, anjos, santos e demônios? De que adianta o teólogo sofisticado desdenhar do antropomorfismo, se na prática o crente (e provavelmente ele próprio) reza para um ser intencional em tudo análogo a um ser humano?

Ler “The God dellusion” leva a refletir sobre como estamos sempre esperando a religião séria, apesar da religião real. Sobre como somos extremamente condescendentes e respeitosos com a religião e com os religiosos, numa atitude do tipo: “Ok, este padre está falando um monte de abobrinhas e aquele pastor só está interessado em engordar a própria conta corrente, mas claro que há religiosos sérios, com argumentos com os quais eu provavelmente discordaria, mas pelos menos respeitaria intelectualmente”. Mas para onde quer que olhemos, a religião séria não aparece!

Sim, encontramos gente séria falando sobre religião, mas seus argumentos são sempre tolos e só resistem ao escrutínio da razão por jogarem fora das regras, apelando para o transcendente ou para a fé cega toda vez que se vêem encurralados. Estão sempre jogando tênis sem a rede.

No fim, a mensagem de Dawkins é simples: religiões podem e devem ser criticadas. Seu status não deve ser maior que do que o status de um partido político, com o qual democraticamente convivemos e, quando discordamos, temos total liberdade para nos manifestar contrariamente.

A liberdade de praticar uma religião qualquer não está em jogo. Mas isto não significa que a religião é um salvo-conduto para fazer coisas que a civilização já não deveria mais aceitar, como mutilar pessoas ou mantê-las ignorantes sobre ciências, política ou artes. 

Especial atenção deve ser dada às crianças. Não existem crianças católicas, nem crianças evangélicas, pelo menos não mais que crianças freudianas e crianças lacanianas, ou crianças presidencialista e crianças parlamentaristas. O que existe são crianças cujos pais são católicos ou evangélicos. As crianças não devem herdar a miséria dos pais em nome da liberdade religiosa.

Cientistas e pessoas secularmente educadas têm a responsabilidade social de não serem condescendentes com a religião. Ciência trata de fatos e religião, de significados e moral, certo?  Não, errado! Isto é um clichê absolutamente sem justificativa, a não ser nossa condescendência: “Desde que os religiosos não têm nenhuma competência em particular, deixemos os porquês para eles.” Tal condescendência tem nos custado caro, basta ver o quanto políticas públicas de planejamento familiar não conseguem se desenvolver por pressão dos religiosos.

A moral não pertence à religião, não mais do que pertence ao cientista, ou ao jurista, ou à mãe decidindo como educar o filho. Assim como se aceita que o Estado tenha o monopólio da violência, a religião quer para si o monopólio da moral, o que é uma incongruência em vários sentidos: primeiro, as pessoas já são naturalmente morais (ateus não são a maioria da população carcerária).

Segundo, num mundo multicultural, deixar a religião ditar a moral não é democrático (quantos anos levamos para legalizar o divórcio por pressões contrárias por parte da Igreja Católica? Quantos outros vamos levar para legalizar a união civil de pessoas do mesmo sexo?).

Terceiro, os religiosos não são moralistas especialmente competentes. Algumas premissas defendidas, por exemplo, por moralistas cristãos são simplesmente falsas. A moral, a beleza, a felicidade, o amor, a dignidade humana, enfim, toda a transcendência que enriquece nosso espírito (sim temos um espírito! mas ele é um fenômeno natural e morrerá com nossos corpos), não dependem da existência de Deus. Todos estes fenômenos têm raízes na nossa história evolutiva, se desenvolvem em nossa história cultural e têm sido, um a um, desvelados pelas ciências.

Para terminar, deixo um desafio moral para o leitor crente: religião e seus dogmas não se provam, são questões de fé, certo? Então suponha que algum destes dogmas tenha profundas implicações negativas para a sociedade. Você manteria sua defesa cega, mesmo sabendo que pessoas estão morrendo por isto? Então, será que não vale a pena parar um pouco e racionalmente reavaliar suas questões de fé, só para ter certeza de que de que você não é um pouco responsável por parte dos problemas que nos cercam? Neste exercício, mantenha em mente as palavras do físico Steven Weinberg: 

“Com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más. Porém para pessoas boas fazerem coisas más, é preciso religião.”

 

(Texto de Mario Barbatti) 

 
[1] O livro deve ser lançado no Brasil no segundo semestre de 2007. A tradução do título ainda não é conhecida, mas se for literal ficará "A delusão de Deus". Vários sites em português no entanto têm popularizado o mal traduzido título "A ilusão de Deus".
  
[2] Dennett (Darwin’s dangerous idea) atribui a origem desta divertida analogia ao filósofo Ronald de Souza, que teria descrito a teologia filosófica como “intelectual tennis without a net”.

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A opinião intocável 


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