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[22/Jul/2007] Sobre
o aborto (I): Não matarás (a não ser que...)
“E
formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas
narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.”
Gênesis 2:7
Não
matar outra pessoa é um imperativo moral que transpassa barreiras
culturais. O que varia são as exceções à regra, e elas são
muitas. A auto-defesa, por exemplo, normalmente legitima o ato de
matar. Porém matar em defesa da honra ou da propriedade, extensões
diretas da auto-defesa, é aceitável em algumas sociedades, mas não
em outras. Em algumas culturas, infanticídio é uma prática
aceitável para controlar a paternidade, o número ou o sexo dos
filhos. Em outras, é impensável.
Em
sociedades complexas como a nossa, formadas por variadas tradições
culturais que se interpenetram, o que é ou não é aceitável em
termos de regras para matar é sempre um elemento de tensão.
Matar em defesa da honra pode ser a regra para um indivíduo
crescido dentro do complexo do Alemão e impensável para outro
crescido nos prédios de classe média da Penha, regiões do Rio
de Janeiro geograficamente separadas por poucos quilômetros.
O
aborto é um destes pontos de tensão. Para uns é tão abominável
quanto infanticídio. Para outros – a maioria provavelmente –,
aceitável em certas circunstâncias. É um dilema moral que não
tem solução simples, nem a favor, nem contra. O único ponto que
deveria ser óbvio (e, no entanto, não o é) é que regulamentar
o aborto baseado em argumentos religiosos é simplesmente inaceitável.
O argumento religioso
é sem dúvida legítimo como instrumento de convencimento
individual, do pastor para com seus seguidores, mas impô-lo a
toda sociedade é profundamente não democrático.
Como
qualquer pessoa razoável, não sou a favor do aborto em qualquer
situação. Por exemplo, abortar porque o feto não tem o sexo
“correto”, como é comum hoje na Índia, me parece
simplesmente errado. Mas também não encaro o aborto com a carga
emocional daqueles que acham que abortar é matar criancinhas. A
universalidade biológica, histórica e transcultural do aborto é
um forte indicativo de que sua legitimidade se estende a muito
mais que os dois casos previstos na legislação brasileira,
gravidez resultante de estupro e risco de vida para a mãe.
E
aqui me ocorre uma idéia perigosa, da qual não gosto realmente
por suas consequências, mas que também não consigo refutar:
Se
uma variante cultural é adotada e considerada legítima por uma
fração importante da população, ela não deve ser proibida por
lei. Se o poder público crê que esta variante cultural deva ser
evitada ou mesmo eliminada, deve-se fazer isto por políticas de
indução e educação.
Assim,
uma fração importante da população acha que correto consumir
álcool, mas o poder público reconhece que este consumo cria um sério
problema de saúde pública. De acordo com a minha “idéia
perigosa”, não se deve proibir o consumo de álcool, mas adotar
políticas que induzam a redução do consumo, como educação ou
taxação sobre o produto. (Razoável este raciocínio aplicado ao
álcool, não é? Agora troque a palavra álcool por maconha ou
cocaína e leia o argumento de novo. Não é uma idéia perigosa?
Vou voltar a esta questão em um outro texto.)
Uma
expressiva fração das mulheres considera o aborto uma opção
legítima (indesejável, normalmente). É de uma arrogância sem
fim simplesmente assumir que elas estão erradas porque a religião
x diz isto ou o
argumento filosófico y
ensina aquilo e simplesmente proibir a prática baseado-se nestes
argumentos. Provavelmente, o mais razoável seria que o aborto
fosse legalmente entendido como uma decisão de fórum pessoal a
ser tomada pela mãe nas primeiras semanas de gestação, contando
com o apoio médico necessário. O legítimo objetivo de se
reduzir os casos de aborto deveria estar na esfera da educação e
do planejamento familiar, não na legal.
É
possível que um dia estejamos prontos para estender para fetos de
poucas semanas e mesmo células embrionárias o “círculo
moral” que estipula de quais criaturas a vida deve ser
protegida. Mas fazer isto hoje tem custos muito altos para a
economia das famílias, para a saúde pública e, no caso das células
embrionárias, para a pesquisa médica.
Os
radicais “pró-vida” são uma minoria barulhenta ancorada nos
poderosos lobbies religiosos recitando seu único mantra: “A
vida começa na fecundação, e disto não abro mão, não me
importa as conseqüências. Não me importa que pessoas possam
viver infelizes ou que eu esteja contribuindo para um mundo mais
violento e populoso. Não me importa nem mesmo que eu esteja
contradizendo o livro sobre o qual me sustento e que diz
claramente que a vida humana começa quando se respira pela
primeira vez”.
(Tenho
que confessar que realmente abomino o objetivo não declarado da
Igreja Católica, que tem pouco a ver com a defesa da “santidade
da vida”, mas que é ter sob controle o comportamento sexual
das pessoas, como mostra sua agenda neuroticamente fixada em o que
duas ou mais pessoas, de um ou mais sexos, fazem entre quatro ou
menos paredes. Ela aposta na velha correlação
sexo-culpa-castigo, tentando evitar o desenvolvimento de técnicas
ou comportamentos que desacople a tríade. Por exemplo, sexo pode
ter como castigo doenças e a culpa por uma gravidez. O uso de
preservativos pode evitar tanto doenças como gravidez. Portanto,
a Igreja se opõe ao uso de preservativos. Num nível maior, a
Igreja em seu profundo anti-humanismo quer voltar a ter controle
da moral, teocraticamente determinando os certos e errados da
sociedade, retirando do indivíduo a liberdade de decidir por si só.
Para isto, ela tenta impor Verdades morais absolutas e indiscutíveis,
para serem seguidas pelas hordas de zumbis que esperam os pastos
do Éden.)
Para
ganhar alguma legitimidade fora dos círculos cristãos, os “pró-vida”
começam a tentar dar um caráter “científico-legalista” ao
seu argumento. É um irritante sofisma que funciona assim:
“A
ciência prova que o óvulo fecundado é vivo e contém toda a
informação genética necessária para formar um ser humano.
A
Constituição determina que o ser humano tem direito à vida.
Portanto,
óvulos fecundados (e conseqüentemente fetos) têm direito à
vida.”
Este
silogismo é um sofisma porque tenta induzir que o ser biológico
da primeira premissa é o mesmo ser social da segunda. Se este
argumento se sustentasse por si, o orçamento público para a área
de saúde teria que ser em grande parte destinado para proteger a
“vida humana” dos fetos que são espontaneamente abortados
(eles são cerca da metade dos óvulos fecundados). Curiosamente,
nunca vi um único pró-vida que defendesse tal política de saúde.
Confundir
o ser social com o ser biológico tem outras conseqüências. Por
exemplo, se um feto é mal formado e tem um número “errado”
de cromossomos, como na síndrome de Down, a lógica científico-legalista
deve concluir imediatamente que este ser, como não tem a carga
genética humana, pode ser abortado. Difícil acreditar que o pró-vida
que o usa o argumento científico-legalista para condenar o
aborto, ficaria feliz com esta conseqüência direta de seu
sofisma.
(Este
ponto merece mais um parêntese. Usar a ciência para “provar”
princípios morais é uma brincadeira perigosa. A ciência pode
certamente ser uma importante ferramenta para auxiliar o
julgamento moral, principalmente por ajudar a entender as conseqüências
do julgamento. Em outro nível, a ciência desvela como os
julgamentos morais são formulados. Mas não consigo imaginar
nenhuma situação na qual uma verdade cientifica realmente implique
em um julgamento moral.)
Enquanto
os “pró-vida” se fixam na defesa do feto, os “pró-aborto”
se baseiam ou no argumento de que as mulheres têm o direito de
decidir sobre o próprio corpo, ou em argumentos baseados em questões
de saúde pública. Como estes pontos a favor e contra são
ortogonais entre si, tratando de aspectos morais diferentes, a
discussão está longe de ser algo sinceramente filosófico. É
mais como uma tomada de posição numa guerra tribal onde nenhum
lado está realmente interessado em escutar o outro. Por isto, os
ocasionais debates entre “pró-vida” e “pró-aborto” são
fúteis diálogos de surdos.
Talvez
o ponto mais incômodo para os pró-aborto seja o fato de que a
maioria dos brasileiros são a favor do aborto nos casos já
previstos na legislação, mas são contra torná-lo optativo.
Se se quer chegar uma legislação mais razoável sobre o
aborto, o trabalho a ser feito é o de mudar a percepção pública
sobre quando é razoável abortar. A partir daí, mudar a legislação
não seria um passo tão difícil como o seria hoje. (Os radicais
religiosos reconhecem a vantagem neste campo e o perigo que correm
com a emergência do debate, por isto trabalham para evitar que a
questão venha a público.)
Um
primeiro passo para mudar a percepção pública sobre o aborto é
entender a psicologia do julgamento moral. Isto pode dar
importantes subsídios para elaborar estratégias de comunicação
mais eficientes. Como se dá a psicologia do julgamento moral é o
ponto que vou discutir em detalhes no próximo texto.
(Texto
de Mario Barbatti)
Leia
também no Defenestrando Idéias:
Sobre
o aborto (II): Uma hipótese sobre a psicologia do julgamento moral
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