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[15/out/2002]
O Duelista e o Pedreiro
Cada
vez que levo um tiro e sangro até a morte, minha tendência
imediata é levar minha arma junto à cabeça, e apontando-a para
cima, enquanto ainda permaneço de pé, atirar. Isto me dá uma
grande sensação de alívio. O problema, óbvio, é que as balas
sempre caem e, apesar de por vezes acertarem meus executores, outras
acertam inocentes.
Já
pensei em atirar para baixo. Mas não teria o mesmo efeito.
Primeiro, o ato perderia toda a dramaticidade. Pareceria mesmo que o
disparo fora casual, e não conseqüência de meu arbítrio; em
segundo lugar, atirar para cima empurra meu corpo contra o solo, o
que, devo confessar, agrada-me muito.
Deitar
no chão e ali permanecer esvaindo-me em sangue até a morte, desde
que desacompanhado de dor ou convulsões, é talvez a mais fantástica
experiência (a qual, sem modéstia, já vivi várias e várias
vezes nestes meus longos anos de duelismo). Quem não se delicia com
o pequeno pedaço de eternidade que se experimenta ao deitar sob a
sombra de uma árvore, numa tarde morna da primavera? Eis situação
semelhante à minha, porém de sensações muito menos intensas.
Percebe que o ocioso não vive minha profunda ligação com a terra,
quando meu sangue a alimenta. Seguindo o meu sangue, minha carne
volta aos elementos. Perde o que me caracteriza, e eu me perco.
Outro
dia, conversava com um velho pedreiro. Ele me contava que desde
cedo, ainda muito jovem, trabalhava virando concreto, carregando
areia, moldando tijolos, dando forma àquelas causas primárias, se
bem que destinado a desconhecer, na maior parte das vezes, as
finais. O trabalho, tão pesado por natureza, não fora realmente
escolha sua. Confessou-me, o velho, que apesar de nunca ter
verdadeiramente se acostumado com a dureza de seu dia, e, em
particular, com as freqüentes dores nas costas, aos poucos
descobrira a Razão de sua profissão. Razão única e pessoal, a
todos desconhecida. Razão além de casas, pontes, muros, cemitérios,
lucros, homens, progresso.
Todo
dia, no canteiro das obras, tirava ele um pouco da massa e cobria a
si mesmo da cabeça aos pés. Ato às escondidas, claro, para que o
mestre não reclamasse o material desperdiçado, e nem os
companheiros -
ignorantes -
o declarassem insano. Dia após dia, há anos, sua pele recebia uma
nova fina camada de concreto. Seu tom acinzentado, pensavam todos
ser poeira das obras. Quanto aos seus movimentos cada vez mais
enrijecidos, culpavam a idade que, no seu avançar, começa o ataque
sempre pelas juntas. E assim, ludibriando a todos, prosseguia seu
projeto.
Quando
o conheci, nesta ocasião em que ouvi seu relato, já não havia
mais homem. Era quase que somente pedra. Os movimentos eram lentos,
quase que imperceptíveis. As formas do corpo se escondiam sob as
grossas e grotescas camadas do concreto. As mãos, por exemplo, não
eram mais do que pás, que lentamente continuavam seu trabalho. Por
fim, um dia, elas tornar-se-iam imóveis. E o velho apenas mais uma
parte mineral da obra: somente a rigidez semi-eterna de uma parede.
Sem dores nas costas, sem unhas encravadas. Sem costas e sem unhas.
Não
tive dificuldade em compreender a Razão daquele homem em seu
projeto. Buscava, tal como eu mesmo, a sensação da eternidade. Da
eternidade como negação do tempo. Como o lugar no qual o indivíduo
se perde, seja regando o solo com seu sangue, seja tornando-se uma
parede.
(m.b.)
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