Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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[15/out/2002] O Duelista e o Pedreiro

Cada vez que levo um tiro e sangro até a morte, minha tendência imediata é levar minha arma junto à cabeça, e apontando-a para cima, enquanto ainda permaneço de pé, atirar. Isto me dá uma grande sensação de alívio. O problema, óbvio, é que as balas sempre caem e, apesar de por vezes acertarem meus executores, outras acertam inocentes.

Já pensei em atirar para baixo. Mas não teria o mesmo efeito. Primeiro, o ato perderia toda a dramaticidade. Pareceria mesmo que o disparo fora casual, e não conseqüência de meu arbítrio; em segundo lugar, atirar para cima empurra meu corpo contra o solo, o que, devo confessar, agrada-me muito.

Deitar no chão e ali permanecer esvaindo-me em sangue até a morte, desde que desacompanhado de dor ou convulsões, é talvez a mais fantástica experiência (a qual, sem modéstia, já vivi várias e várias vezes nestes meus longos anos de duelismo). Quem não se delicia com o pequeno pedaço de eternidade que se experimenta ao deitar sob a sombra de uma árvore, numa tarde morna da primavera? Eis situação semelhante à minha, porém de sensações muito menos intensas. Percebe que o ocioso não vive minha profunda ligação com a terra, quando meu sangue a alimenta. Seguindo o meu sangue, minha carne volta aos elementos. Perde o que me caracteriza, e eu me perco.

Outro dia, conversava com um velho pedreiro. Ele me contava que desde cedo, ainda muito jovem, trabalhava virando concreto, carregando areia, moldando tijolos, dando forma àquelas causas primárias, se bem que destinado a desconhecer, na maior parte das vezes, as finais. O trabalho, tão pesado por natureza, não fora realmente escolha sua. Confessou-me, o velho, que apesar de nunca ter verdadeiramente se acostumado com a dureza de seu dia, e, em particular, com as freqüentes dores nas costas, aos poucos descobrira a Razão de sua profissão. Razão única e pessoal, a todos desconhecida. Razão além de casas, pontes, muros, cemitérios, lucros, homens, progresso.

Todo dia, no canteiro das obras, tirava ele um pouco da massa e cobria a si mesmo da cabeça aos pés. Ato às escondidas, claro, para que o mestre não reclamasse o material desperdiçado, e nem os companheiros - ignorantes - o declarassem insano. Dia após dia, há anos, sua pele recebia uma nova fina camada de concreto. Seu tom acinzentado, pensavam todos ser poeira das obras. Quanto aos seus movimentos cada vez mais enrijecidos, culpavam a idade que, no seu avançar, começa o ataque sempre pelas juntas. E assim, ludibriando a todos, prosseguia seu projeto.

Quando o conheci, nesta ocasião em que ouvi seu relato, já não havia mais homem. Era quase que somente pedra. Os movimentos eram lentos, quase que imperceptíveis. As formas do corpo se escondiam sob as grossas e grotescas camadas do concreto. As mãos, por exemplo, não eram mais do que pás, que lentamente continuavam seu trabalho. Por fim, um dia, elas tornar-se-iam imóveis. E o velho apenas mais uma parte mineral da obra: somente a rigidez semi-eterna de uma parede. Sem dores nas costas, sem unhas encravadas. Sem costas e sem unhas.

Não tive dificuldade em compreender a Razão daquele homem em seu projeto. Buscava, tal como eu mesmo, a sensação da eternidade. Da eternidade como negação do tempo. Como o lugar no qual o indivíduo se perde, seja regando o solo com seu sangue, seja tornando-se uma parede.

(m.b.)


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