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[20/Ago/2007] Sobre
o aborto (II):
Uma hipótese sobre a psicologia do julgamento moral
Minha hipótese
aqui é que as pessoas normalmente não fazem julgamentos morais
baseados em princípios filosóficos abstratos como "o feto
tem direito à vida", mas baseados em percepções muito mais
básicas e intuitivas de responsabilidade, intencionalidade e
risco associadas ao ato de abortar. A repulsa emocional (ou a
ausência dela) é desenvolvida num segundo estágio do julgamento
moral e pode eventualmente ser legitimada com princípios
filosóficos abstratos.
Antes, porém, de
desenvolver esta idéia, faço apenas a ressalva de que não estou
dizendo que este é realmente o mecanismo psicológico por trás
do julgamento moral. Apenas que é uma hipótese razoável que
poderia ser testada por psicólogos comportamentais e então
rejeitada ou melhorada.
Considere, para
começar, o seguinte hipotético exemplo:
Uma mulher vai
a uma clínica ginecológica apenas para exames de rotina. Lá,
porém, por erro médico, ela é anestesiada e tem um embrião,
de pais desconhecidos, implantado em seu útero. Quando recobra
a consciência, ela é informada que está grávida.
Qual a sua
opinião (sem considerar os aspectos jurídicos): seria errado que
ela abortasse ou seria o aborto permitido?
Sou capaz de
apostar que a maioria das pessoas diria, como eu, que não seria
errado abortar: aplaudiriam sua generosidade se a mulher decidisse
manter a gravidez, mas não a condenariam se decidisse pelo
pragmatismo do aborto.
Isto significa
que o que está realmente em julgamento moral não é se o feto é
ou não um ser humano com direitos legais assegurados, ou seja, se
é ou não uma criança. Mas sim a responsabilidade da mulher.
Se a gravidez é
indesejada, mas a mulher é responsável pela gravidez (por não
ter tomado as medidas contraceptivas adequadas, por exemplo)
tende-se a julgar moralmente o aborto como errado e se ver o feto
como um inocente a ser defendido. Se por outro lado, se a mulher
não foi responsável pela gravidez, como em casos de estupro ou
no improvável exemplo do erro médico acima, então se tende a
julgar moralmente o aborto como permitido e o feto não desperta
emoções.
Se o feto fosse
constantemente percebido como uma criança, o julgamento moral
seria pelo errado em qualquer circunstância. Mas parece existir
um deslocamento psicológico na percepção que as pessoas têm do
feto, vendo-o como criança ou não dependendo da responsabilidade
da mulher. Apesar de já não ser tão claro, este deslocamento
psicológico deve acontecer também no julgamento do aborto em
caso de risco de vida para a mulher.
Agora considere
os dois cenários a seguir:
1. Uma mulher,
grávida de poucas semanas, está descendo as escadas de sua
casa, quando acidentalmente tropeça e cai. Ela não se machuca
seriamente, mas o feto é abortado devido à queda.
2. Uma mulher,
levando seu filho recém-nascido no colo, está descendo as
escadas de suas casa, quando acidentalmente tropeça e cai. Ela
não se machuca seriamente, mas a criança morre devido à
queda.
Os dois cenários
são trágicos e despertam compaixão. Mas tenho certeza que o
segundo, com a morte do recém-nascido, desperta emoções muito
mais fortes. (Perceba em si próprio como você sentiu mais
intensamente o segundo que o primeiro caso.) Os dois cenários
contém os mesmos sujeitos (mãe e filho), com os mesmos fatos
(queda acidental), e mesmas conseqüências (morte do filho), mas
mesmo assim são percebidos de forma diferente. O segundo cenário
é percebido como terrível, não importando a idade da criança,
dois meses ou dois anos. Isto significa que existe uma diferença
qualitativa na percepção emocional que as pessoas têm do feto e
da criança.
Estes dois
cenários não implicaram em julgamento moral, porque o fato
determinante (queda) foi acidental. Se eles fossem modificados de
forma que no lugar de "quando acidentalmente tropeça e
cai" para "quando propositalmente se joga escada
abaixo", imediatamente começaríamos a julgá-lo moralmente.
Neste caso, provavelmente a maioria das pessoas elevaria o status
do feto para algo próximo do da criança.
Cerca da metade
dos óvulos fecundados são abortados espontaneamente nas
primeiras semanas da gravidez. Se o feto fosse constantemente
percebido como uma criança, seria natural que todos estes casos
que hoje ou passam despercebidos ou são motivo de um modesto
pesar, tivessem o peso da morte de uma criança real, com choro,
luto, funeral, missa de sétimo dia e registro policial. Mas nem
os mais enfáticos pró-vida chegam a tal ponto.
O fato de ser
espontâneo livra a mulher da acusação de intenção, tal como
na distinção entre culpa e dolo. Mas toda a ritualização que
segue à terrível situação da morte de uma criança deveria ser
seguida, independentemente da intenção da mãe. Se o feto é uma
criança, ele mereceria isto. Por que não se adotam tais
práticas?
Porque, de novo,
nestes casos o que está realmente em julgamento moral não é se
o feto é ou não um ser com direito a vida. O que está sendo
julgado é a intencionalidade do ato de abortar. Novamente deve
existir um deslocamento psicológico na percepção que as pessoas
têm do feto, mas agora dependendo da intencionalidade do ato do
aborto. Se o aborto é intencional, o feto pode ser percebido como
criança. Num aborto espontâneo, provavelmente não.
Volte um pouco no
tempo e preste atenção aos seus sentimentos quando você julgou
o exemplo do erro médico acima: provavelmente sua resposta
imediata foi a favor do aborto. Não foi propriamente um
raciocínio, você "sentiu" isto. Porém, se sua
resposta final foi que o aborto seria errado, este julgamento veio
mais demorado, raciocinando sobre as questões filosóficas
envolvidas. Psicólogos comportamentais possuem técnicas para
medir este "tempo de reação" e a neurologia pode
mostrar que áreas do cérebro estão associadas com cada estágio
do julgamento. (Para saber mais sobre este fascinante campo do
saber, vale a leitura do livro "Moral Minds" de Mark D.
Hauser.)
Mas o fato de um
julgamento acontecer "neurologicamente" antes ou depois
de outro, ou de ser "intuitivo" ou "raciocinado", não implica que ele
seja melhor ou pior. Não é este meu ponto
aqui. O principal aspecto que espero ter chamado a atenção neste
texto é que julgamentos morais se dão numa base muito diferente
das clássicas discusssões da filosofia moral, que tratam o
julgamento moral como abstrato, racional e imaterial. Julgamentos
morais são sempre realizados por seres humanos em contextos
culturais específicos e condicionados por uma longa história
evolutiva.
(Texto
de Mario Barbatti)
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