defenestrando idéias
Mario Barbatti


  Início
  Índice de textos
  Gotas de Sabedoria

  

  Seus comentários
 Avise quando atualizado

  

  Física molecular
  Você conhece o Mario?
   
Defenestrando idéias
   
O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[26/Nov/2007] A tola discriminação racial entre abóboras e laranjas

1. Elementar, meu caro Watson

Diferenças genéticas entre grupos humanos é um terreno lamacento que, se eu fosse esperto, não pisaria. Mas, fazer o quê? Depois das declarações de James Watson, com certeza o tema vai vir a tona e ficar por um bom tempo.

James Watson foi, junto com Francis Crick, quem descobriu a estrutura em hélice dupla do DNA. Hoje, com cerca de 80 anos, ele costuma dar declarações desconcertantes sobre comportamento humano. Mas, desta vez, em entrevista ao The Sunday Times (gravada, segundo o jornal), ele conseguiu se superar. Vale a pena reproduzir o parágrafo inteiro, no original (a tradução vai abaixo). Afinal, este é exatamente o tipo de questão na qual o contexto pode fazer imensa diferença. A jornalista conta que:

"He says that he is 'inherently gloomy about the prospect of Africa' because 'all our social policies are based on the fact that their intelligence is the same as ours - whereas all the testing says not really', and I know that this 'hot potato' is going to be difficult to address. His hope is that everyone is equal, but he counters that 'people who have to deal with black employees find this not true'. He says that you should not discriminate on the basis of colour, because 'there are many people of colour who are very talented, but don't promote them when they haven't succeeded at the lower level'. He writes that 'there is no firm reason to anticipate that the intellectual capacities of peoples geographically separated in their evolution should prove to have evolved identically. Our wanting to reserve equal powers of reason as some universal heritage of humanity will not be enough to make it so'." (Charlotte Hunt-Grubbe, The Sunday Time, 14/Out/2007)

[Tradução minha: "Ele disse que é: 'inerentemente pessimista a respeito das perpectivas para África' porque 'todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que não' e eu sei que esta 'batata quente' vai ser difícil de aceitar. Sua esperança é que todos sejam iguais, mas ele conta que 'pessoas que já lidaram com empregados negros não acreditam que isso seja verdade'. Ele disse que você não deve discriminar por baseado na cor porque 'há muitas pessoas de cor que são muito talentosas, mas não as promova quando elas não tiverem sucesso no nível mais elementar'. Ele escreve que 'não há nenhuma forte razão para antecipar que a capacidade intelectual de povos geograficamente separados em sua evolução venha a ser provada ter evoluído de forma idêntica. Nosso desejo de atribuir poder de raciocínio igual como se fosse uma heraça universal da humanidade não será suficiente para garantir isto'."]

Apesar de Watson ter vindo a público nos dias seguintes para se desculpar e negar quaisquer conotações racistas, é difícil entender como uma afirmação como "pessoas que já lidaram com empregados negros não acreditam que isso [a inteligência do negros seja igual à dos brancos] seja verdade" não seja menos que odiosamente racista e ofensiva.

Há, porém, uma questão implícita nas declarações de Watson, que não quero discutir neste texto, mas que ajudam a entender o contexto de parte de suas palavras. A correção política na academia americana se tornou um ponto de forte tensão entre mérito e direitos de grupos. Apesar de não conhecer a realidade acadêmica naquelas terras, tenho freqüentemente encontrado cientistas e intelectuais reclamando, por exemplo, dos efeitos colaterais das políticas de ação afirmativa ou de alterações currriculares exdrúxulas feitas para refletir o multiculturalismo. (É bom lembrar que eu tenho defendido ações afirmativas nas universidades brasileiras em vários textos aqui no Defenestrando Idéias.)

Tenho o relato em primeira mão de um colega meu, polonês, que esteve na Universidade de Jackson, Mississipi, por seis anos durante sua pós-graduação. Ele conta que, naquela Universidade, o fato de um indivíduo ser negro, mulher ou deficiente físico é mais importante para a progressão acadêmica que qualquer contribuição de mérito acadêmico. Exagero, provavelmente. Mas exageros não costumam vir sem um fundo de verdade. Provavelmente, é neste contexto que Watson afirma que pessoas devem ser promovidas por apenas por seus méritos. Esta é uma afirmação política com a qual você pode concordar ou discordar, mas não é em si mesma racista. Quando Watson diz que "não há nenhuma forte razão para antecipar que a capacidade intelectual de povos geograficamente separados em sua evolução venha a ser provada ter evoluído de forma idêntica", novamente temos uma afirmação que não é si racista. É uma hipótese sobre o processo evolutivo, que pode estar certa ou errada.

Mas não estou escrevendo para defender (ou criticar) Watson. O que quero é usar suas palavras polêmicas para explorar os terrenos perigosos da relação entre genética e inteligência.

2. Abóboras e laranjas

Vamos trabalhar um pouco sobre um exemplo fictício para desenvolver este ponto. Suponha que haja dois grupos humanos, um com pele cor de laranja e outro com pele cor de abóbora. Eles evoluíram de uma mesma ancestral humana comum há menos de 50 mil anos, desde então viveram em continentes separados e relativamente (mas não totalmente) isolados uns dos outros. Eles ainda pertencem à mesma espécie, já que a filha de um abóbora com uma laranja é um belo e saudável bebê tangerina, que será perfeitamente fértil quando chegar à vida adulta.

A mais notável diferença entre os dois grupos é a cor da pele, que é provavelmente consequência de seleção sexual: em geral, nas culturas abóbora, quanto mais abóbora o rapaz é, mais chance ele tem com as meninas. Esta preferência sexual faz com que os genes para pele abóbora sejam o dominante na população do continente. Na cultura laranja ocorre exatamente o oposto. (A seleção sexual entre humanos é um curioso ponto onde cultura pode ditar o rumo dos genes.)

Mas existem outras diferenças menos notáveis entre os dois grupos. Devido às condições ambientais do seu continente, os laranjas evoluíram nas últimas dezenas de milhares de anos sob uma pressão seletiva para capacidade de ler mentes. Ou seja, estatisticamente, aquelas com maiores poderes telepáticos tinham maior números de netos. Entre os abóboras, contudo, telepatia não era um diferencial. Em seu continente, a pressão ocorreu favorecendo a capacidade de mover objetos à distância. Portanto, estatisticamente, maior poder telecinético, maior número de netos.

Nas sociedades mercantil, industrial e globalizada, estas pressões locais deixaram de ser importantes. O que o ambiente exige desta gente hoje é muito diferente do que ocorria durante as dezenas de milhares de anos de sua pré-história. Contudo, as marcas genéticas ainda estão lá. Em média, os laranjas são melhores telepatas que os abóboras, que, em média, são melhores telecinetas que os laranjas. Mas faz isto diferença?

A distribuição dos poderes telepáticos entre os indivíduos abóboras não é homogênea. Alguns são mais "talentosos" que outros. Se a gente mede esta capacidade em um grande número de indivíduos e faz um gráfico do número de indivíduos com um certo nível de telepatia em função deste nível, a gente obtém algo como a figura baixo.

Entre os abóboras não é diferente. A capacidade telepática deles também se distribui da mesma forma. A única diferença é que a média (o centro da distribuição) é um pouco menor para os abóboras, como mostrado na figura abaixo. Um gráfico similar poderia ser feito para a capacidade telecinética. Mas neste caso a média dos abóboras seria maior que a dos laranjas. Mas fiquemos com a capacidade telepática. Repito a questão importante: dadas estas diferenças entre as populações, faria sentido criar normas e políticas discriminando em favor dos laranjas? A resposta é obviamente não. A duas distribuições são tão superpostas que a diferença pode ser observada apenas estaticamente, analisando um grande número de indivíduos. Seria apenas uma tolice racista, por exemplo, um empregador preferir contratar empregados laranjas esperando que eles sejam melhores telepatas. Não é improvável que a abóbora rejeitada fosse muito melhor que o colega laranja contratado.

A hipótese por trás do meu exemplo - que quaisquer que sejam as diferenças entre grupos, as suas distribuições são superpostas - se baseia nos fatos de que os grupos humanos se separaram há muito pouco tempo na escala evolutiva e nunca estiveram completamente isoladas. Neste ponto, Watson pode estar enganado: há razões para crer que a capacidade intelectual dos grupos humanos deva ser bastante homogênea, neste sentido estatístico. Mas há discordâncias. Afinal, quanto tempo e quanto isolamento são necessários para produzir divergências estatisticamente significantes?

O problema se torna ainda mais complicado em profissões altamente especializadas. Por exemplo, para ser um pesquisador nos modernos centros de pesquisa de telepatia, o indivíduo tem que se especializar durante mais de uma década. Ela precisa de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado em ciências telepáticas. Durante todo este treinamento, ela passa por processos rigorosos de seleção por meio de exames e concursos. Suponha que o "talento natural" seja um diferencial para ter sucesso nesta longa jornada e que, em geral, as posições nestes centros de pesquisa sejam disputadas entre os que possuam as mais altas capacidades telepáticas. Neste caso, estamos falando do extremo da distribuição, como indicado no detalhe da figura abaixo. Diferente da média, no extremo, entre os mais "talentosos", os laranjas são significativamente mais numerosos que os abóboras. A conseqüências disto é que se o processo seletivo é absolutamente objetivo e completamente desprovido de discriminação racial positiva ou negativa, o número de laranjas será sempre maior que o de abóboras.

Isto, de fato, não deve ser realmente relevante em se tratando de raças humanas reais. Afinal nenhuma profissão depende de apenas uma capacidade intelectual específica que pudesse justificar a predominância de algum grupo.

A gente pode até encontrar um monte de literatura mostrando diferenças entre grupos. Ou mesmo diferenças genéticas que poderiam estar ligadas a capacidades intelectuais distintas, como tem mostrado as pesquisas do biólogo Bruce Lahn. O ponto mais importante é que mesmo que hajam diferenças de base genética entre os grupos, as distribuições devem ser não apenas superpostas, mas também extremamente distorcidas por variáveis culturais. Isto torna qualquer tentativa de se usar a genética para discriminação de grupos no mínimo um exercício de perigosa futilidade racista.

Neste cenário, vale a pena distinguir o ponto de vista político do ponto de vista científico e mantê-los separados, bem separados. Do ponto de vista político, trabalhar com a hipótese da universalidade das capacidades intelectuais humanas não é apenas um "desejo", como sugeriu Watson. Ela é a única hipótese razoável para lidar com um conjunto tão complexo de variáveis. Do ponto de vista científico, assumir a universalidade como um fato indiscutível é uma tolice obscurantista.

3. Dos meninos e das meninas

Genética e inteligência certamente estão ligadas. E é uma possibilidade real que grupos humanos que viveram separados nos últimos 10 mil anos possam ter evoluído capacidades intelectuais em diferentes níveis. Mas, provavelmente, nenhum destes grupos é realmente superior aos outros. Como abóboras e laranjas, cada grupo pode levemente se destacar em alguma habilidade. Além disto, há razões para crer que eventuais diferenças na média sejam pequenas e compensadas pela superposição das distribuições.

Há, contudo, situações nas quais a diferença entre grupos pode se manifestar naturalmente e na qual a hipótese de universalidade pode não se sustentar. Isto pode ocorrer quando lidamos com os extremos de alguma capacidade intelectual. Outro caso, onde as diferenças podem ser até mais significativas que as diferenças entre grupos humanos distintos, é na comparação entre mulheres e homens. Obviamente, não porque machos e fêmeas tenham evoluído de forma isolada, mas por causa da extrema assimetria em uma importante variável evolutiva, o investimento parental.

A diferença em investimento parental é uma característica muito antiga em nossa linha evolutiva, presente muito, muito antes do surgimento da nossa espécie e que se baseia no fato de que a fêmea carrega o feto durante a gravidez e o macho não. Isto significa que os interesses reprodutivos dos machos não coincidem totalmente com o das fêmeas. O conflito de interesses entre machos e fêmeas muito provavelmente teve impacto sobre genes que regulam as capacidades intelectuais, levando a diferenças entre os sexos.

No caso de capacidades intelectuais não diretamente ligadas aos interesses reprodutivos, como capacidade de memorização ou capacidade de raciocínios algébricos, estas diferenças devem se manifestar na média, com grande superposição de distribuições. Além disto, variáveis culturais devem profundamente distorcer estas distribuições. Novamente, isto faz que a discriminação sexual baseada em argumentos genéticos seja tão sem sentido quanto a discriminação racial. Por outro lado, no caso de capacidades intelectuais ligadas ao interesse reprodutivo, como o instinto maternal, as diferenças podem ser imensas.

4. O diabo está nos detalhes

Vivemos em sociedades desiguais. Parte destas desigualdades são criadas pelo preconceito e é nosso dever lutar para eliminá-las. Parte, porém, destas desigualdades são criadas pelas diferenças entre as pessoas e estas devemos respeitar. Digo isto porque, curiosamente, a busca da igualdade, sem respeitar as diferenças, pode criar monstros.

Há pouco tempo, na esteira da aprovação da lei ampliando a licença maternidade, a antropóloga Mirian Goldenberg criticava o fato de que os pais não eram contemplados com os mesmos direitos que as mães. Ela se admirava que mesmo as mulheres não aceitavam a luta pela igualdade dos deveres de criação das crianças:

"Não é possível questionar a suposta superioridade feminina no domínio privado sem enfrentar uma forte reação das mulheres, inclusive de muitas que lutam pela completa igualdade entre os gêneros. Mas não seria exatamente nesse terreno, completamente dominado pelas mulheres, que se enraizaria a mais profunda desigualdade entre os sexos?" Folha, 23/Out/2007.

Sim, é a resposta para sua questão retórica. É aí que se enraíza a desigualdade entre os sexos. Mas ao invés de contestar a desigualdade, a antropóloga talvez devesse tentar entender que algumas desigualdades são legítimas. Milhões de anos vêm forjando o instinto maternal e a antropóloga quer que as mulheres abram mão dele, para que sua utopia igualitária se realize.

Este é um exemplo de Humanismo doente, que por não compreender a básica diferença entre as pessoas, quer impor uma igualdade que só pode ter duas consequências, tornar as pessoas infelizes e alimentar suas próprias reclamações.

O Humanismo em todas as suas representações particulares, como o feminismo ou a defesa dos direitos humanos, prega a bandeira da igualdade. Mas talvez o bonde esteja um pouco descarrilado: igualdade deveria ser um meio, não um fim em si. Qual seria, por exemplo, a vantagem de todos compartilharmos iguais direitos e deveres em uma sociedade falida economicamente? O objetivo-fim do humanismo deveria ser criar uma situação onde todas as pessoas - sem exceção - vivam com dignidade, não sofram abusos e, principalmente, sejam felizes. A igualdade é uma boa bandeira no caminho para esta utopia, mas não é necessariamente a condição para a sua concretização.

No caso particular do feminismo, vale a pena citar a escritora americana Camille Paglia:

"Eu tenho dito que, por causa do capitalismo, aparece a mulher moderna emancipada. É por causa da Revolução Industrial e do trabalho fora de casa que as mulheres puderam ser livres do controle do marido, do pai, do irmão.

Mas temos que ser realistas e reconhecer que isso é um produto da cultura capitalista ocidental, de um momento particular. Feministas têm freqüentemente valorizado ou venerado a "mulher de carreira" e a posto num lugar mais alto que a mãe e a esposa. Isso, porém, vai contra a maneira como a maior parte das mulheres no mundo se sente verdadeiramente.

O movimento feminista tende a denegrir ou marginalizar a mulher que quer ficar em casa, amar seu marido e ter filhos, que valoriza dar à luz e criar um filho como missão central na vida. Está mais do que na hora de o feminismo ocidental conseguir lidar com a centralidade da maternidade para a maioria das mulheres no mundo.

Não quero as feministas ocidentais destruindo valores e tradições de culturas locais. Feminismo deveria ser sobre mulheres terem a oportunidade de avançar, não serem abusadas e terem o direito de auto-subsistência econômica para não depender de um parente homem." Camille Paglia, Folha, 21/Out/2007.

O ponto é que, por um lado, a ciência está longe de fornecer dados quantitativos que pudessem indicar qual a distribuição ideal, por exemplo, de professores a professoras no departamento de matemática. Por outro lado, simplesmente impor uma divisão meio-a-meio é a receita de criar um problema em muitos níveis: dificuldade para se ocupar as vagas; possibilidade de queda do padrão acadêmico; pessoas infelizes, sentindo-se pressionadas a seguirem rumos que elas intimamente não gostariam; profissionais sendo injustiçados por critérios que desconsideram sua competência.

Claro que em um país como o Brasil, onde o número de professores negros não representa nem 1% dos quadros acadêmicos ou que de mulheres concorrendo a cargos eletivos não chega a 20%, esta discussão é um tanto esotérica. Estas terras precisam mesmo é de bons programas de ação afirmativa e, com sorte, daqui a cinquenta anos nossos netos possam começar a discutir a legitimidade das diferenças estatísticas. Por enquanto, talvez o caminho mais equilibrado seja o de se criar condições para que todos tenham oportunidades iguais. Mas respeitando as opções individuais, sejam quais elas forem.

(Texto de Mario Barbatti) 


Leia também no Defenestrando Idéias:
Sobre o aborto (I): Não matarás (a não ser que...)

Racismo à brasileira


gun.gif (5899 bytes)

Gotas de Sabedoria