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[21/Jan/2008] Sobre aquilo que não é dito
É
uma terrível conclusão para se chegar, mas acho que sou uma
pessoa má. Pois, por exemplo,
fico me imaginando como presidente de um grande banco brasileiro.
Destes que anualmente quebram recordes em seus bilionários
lucros. Nesta situação, faria o que estivesse ao meu alcance
para influenciar na política econômica do país. Comprar
análises, presentear membros do governo, encomendar estudos acadêmicos,
desestabilizar o mercado quando medidas contrárias ao meu
interesse fossem tomadas, desacreditar críticos, enfim, tudo que
corroborasse minha tese de que o melhor para o país é, por
exemplo, manter a
taxa de juros básicos nos níveis que me garantem o sorriso no Natal.
Por
isto a conclusão da maldade anunciada. Afinal, os verdadeiros
grandes executivos do setor bancário nunca tomariam tais
atitudes. Pelo menos é o que se depreende das discussões econômicas,
sempre travadas no impessoal terreno das teorias econômicas.
Desenvolvimentistas falastrões, neoliberais sisudos, palpiteiros
de meio-termo, todos concordam em sua discordância que o que está
em jogo é a discussão do modelo econômico. Me surpreende que o conceito de interesse dos
agentes envolvidos seja posto de lado de forma tão radical, como
se fosse uma impossibilidade prática que houvesse atores jogando
foras das regras estabelecidas pelas teorias econômicas.
E
não preciso ficar no exemplo do grande executivo. Posso baixar a
bola para a gente menor. Vamos dizer, por exemplo, um diretor do
Banco Central, um destes que votam a redução ou a manutenção
da taxa Selic. Eu me pergunto, se eu tivesse que tomar uma decisão
que implicaria na redução do meu patrimônio, como meu
auto-interesse influenciaria a minha análise? Se o caro leitor
acredita que o grau de objetividade nas teorias econômicas é uma garantia contra
o conflito de interesses, só posso respeitosamente rir da vossa
cara. Mesmo ciências exatas, como a física (Fraude em ciência: exceção
ou regra?), não possuem tal
grau de objetividade, o que dizer da economia?
Não
estou dizendo que um diretor do BC haja de forma desonesta para
enriquecer. Estou dizendo que existem fatores subjetivos que
influenciam suas análises e podem condicionar os resultados de
acordo com os interesses pessoais.
Pense
num economista de mercado. Destes que recheiam as páginas dos
jornais com suas belas análises prevendo o futuro, mas raramente
explicam porque suas as previsões anteriores deram errado. Eles
estão num meio social sob as mais diversas fontes de pressões
subjetivas. O seu próprio interesse financeiro, a vontade de
agradar o chefe, a preocupação com a reputação junto aos
colegas, tudo isto deve influenciar na forma com que ele manipula
as ferramentas econômicas, escolhe as variáveis a serem
estudadas, forma as suas conclusões.

Há
uma ilustração de Robert Markoff que resume perfeitamente o que
quero dizer. Ele mostra uma reunião de executivos, na qual um
deles faz a seguinte observação:
"Por
um lado, eliminar os intermediários resultaria em redução de
custos, aumento de vendas e maior satisfação do cliente; por
outro lado, nós somos os intermediários." (The New Yorker,
21/Jul/1997)
A
Folha publicou (10/out/2007) um belo exemplo destes estranhos
interesses vindo à tona. Foi quando o ex-ministro de FCH e
deputado Paulo Renato de Souza submeteu um artigo para ser publicado
naquele jornal no fim de 2007. No texto (que acabou não sendo
publicado), ele criticaria a passagem do BESC (o banco estadual de
SC) ao controle do Banco do Brasil. Mas por azar do deputado (e sorte nossa),
ele esquecera de limpar os textos velhos do corpo do e-mail
mandado para o jornal. Lá, um jornalista sem ter o que fazer
encontrou a seguinte mensagem:
"Em
anexo, vai o artigo revisto. Procurei colocá-lo dentro dos
limites do espaço da Folha. Por favor, veja se está correto e se
você concorda, ou tem alguma observação. Muito obrigado, Paulo
Renato Souza." (Citado na Folha, 10/out/2007.)
A
pessoa a quem Paulo Renato pede a benção é o presidente do
Bradesco, Márcio Cypriano. E é fato público que o Bradesco está
lutando (Itaú e Unibanco também) para comprar o BESC. Não fosse
o pequeno descuido, o artigo teria certamente sido publicado como
uma séria e impessoal análise de conjuntura econômica. E ai de
quem se atrevesse a aventar que haveria outros interesses em jogo
por traz da pura objetividade econômica!
Mas
o ponto mais importante não é propriamente o fato descrito
acima, que deve ser a norma do ocorre nos bastidores, não a exceção.
O que é importante é notar o quanto nossas análises econômicas
são castelos nas nuvens quando tentam eliminar a dimensão sociológica
da economia, tratando o mercado como entidade impessoal e autônoma.
A gente ficaria um pouco mais próximo do chão se começasse a
incluir o conceito de "interesse" nestas análises.
Em
se tratando de opiniões econômicas, uma boa regra seria que
sempre que a gente se deparasse com um paper acadêmico, um relatório institucional, ou uma análise de
jornal, mantivesse pairando sobre a leitura a seguinte questão: quanto os
autores perderiam se tivessem publicado a opinião oposta?
(Texto
de Mario Barbatti)
Leia
também no Defenestrando Idéias:
A seção que falta aos jornais
Dos guindastes e das tranças do Barão
Fraude em ciência: exceção
ou regra?
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