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[09/Mar/2008] O moinho de Quixote, o humanista
Recentemente,
pesquisadores da PUC e da Federal gaúchas se propuseram a mapear
a atividade neural do cérebro de jovens infratores. Pesquisa
séria, levando em consideração fatores sócio-culturais, com
protocolos éticos bem definidos. Logo que a intenção dos
cientistas se tornou pública, uma gritaria histérica de
sociólogos, psicólogos, antropólogos, educadores e advogados veio
à tona na forma de um abaixo assinado com críticas grosseiras à
pesquisa e aos pesquisadores.[1]
Não que tivessem
criticando, por exemplo, o protocolo ético proposto. Isto seria
legítimo. Estavam negando a própria possibilidade de que a
pesquisa viesse a ser realizada, enxergando nela eugenia e
determinismo biológico.
A crítica
humanística da ciência sempre representou um importante
contra-ponto aos excessos e tolices nos quais cientistas âs vezes
se embrenhavam. Pensadores como Bachelard, Kuhn, Bourdieu e
Lakatos foram essenciais para trazer à tona a rede de interesses
sociais sob a qual a ciência se desenvolvia e desvelar os mitos
da neutralidade científica e da racionalidade absoluta cultivados
pelos próprios cientistas.
Mas este tempo de
cientistas ingênuos passou e os humanistas ainda não sabem.
Cientistas hoje são muito mais sutis. Compreendem que são
sujeitos em processos sociais. Têm consciência das implicações
éticas de suas pesquisa. Conhecem a histórias de suas
disciplinas, incluindo as tragédias éticas.
Uma boa parte dos
humanistas, contudo, parece não ter percebido isto. Ainda
escolasticamente fechados em suas fontes, literatura e teorias, ao
que tudo indica, sem luz externa, não entendem que os cientistas
e a prática da ciência mudaram. Teimam em enxergar (e acusar) no
cientista o velho mito do pesquisador eticamente alienado e
filosoficamente tolo, capaz de repetir os mesmos erros de seus
colegas do passado.[2]
Será que a
nenhum destes humanistas que assinaram o documento passou, por um
segundo que fosse, o pensamento de que não seria razoável que
após toda a tragédia que o movimento eugênico do início do
século vinte causara, alguém em sã consciência estivesse
propondo algo levemente similar de novo?
Determinismo
biológico é uma tolice. Óbvia e ululante. Será que quando o
humanista vai enfaticamente acusar o cientista de acreditar nesta
heresia epistêmica, não lhe passa pela cabeça de que não é
provável que um pesquisador com boa formação acadêmica
realmente esteja propondo algo assim? Este seria o momento da
humildade, onde deveria se perguntar: "o que os
cientistas estão realmente dizendo?"
Humanistas como
os que assinaram o documento estão assombrados por fantasmas que
só existem em suas próprias mentes. Criticam duramente as
patologias de uma ciência que também já não existe no mundo
real! Se isto ficasse restrito aos seus delírios solipsistas, eu
nem gastaria meu tempo escrevendo este texto. Mas infelizmente,
seu pensamento mítico acaba se refletindo em acusações
gratuitas a pessoas responsáveis. E atraso acadêmico: sob o
risco de vir acusado a ser acusado de racista, quantos bons
cientistas não tem dirigido suas pesquisas para temas eticamente
neutros e evitam áreas sensíveis como psicologia comportamental?
Por causa disto, quanto deixamos de saber sobre as origens da
violência e possíveis meios de controlá-la?
A crítica
humanista à ciência ainda pode ter um papel relevante. Existe
uma multitude de temas relacionados a como cientistas trabalham e
como as ciências interagem com a sociedade que necessitam a
visão sociológica ou antropológica para serem propriamente
compreendidos. Existe outra multitude de dilemas éticos reais
criados pelas ciências que lucrariam com a contibuição
humanista.
Mas para isto,
para se qualificarem como relevantes para estes debates, os
humanistas precisam atualizar e reavaliar suas fontes. Podem
começar repensando o que realmente querem dizer com os seus
principais chavões conceituais, as acusações de
"positivista", "determinista" e
"reducionista". Façam o seguinte exercício
intelectual: no próximo texto que escreverem, simplesmente não
usem estes três palavrões. Em seu lugar, escrevam por extenso o
que têm em mente.
Antropólogos e
sociólogos precisam voltar à ação. Precisam voltar estudar os
cientistas e as ciências. Humanistas em geral precisam abrir as
estantes e o pensamento. Deixar nomes como Monod, Prigogine,
Wilson, Gould, Dawkins, Pinker, Boyd tirar-lhe o mofo. Não
concordarão com tudo que eles propõem. Mas entenderão que a
ciência hoje é um mundo muito diferente, provavelmente, mais
complexo que aquele dos tempos de Popper.
Humanistas
intelectualmente honestos, precisam ainda levar em consideração
um ponto muito delicado. Kuhn compreendeu que um dos principais
fatores impedindo o desenvolvimento de novos paradigmas (ou "matriz
disciplinar", para os entendidos) era o conservadorismo dos
cientistas, que diante da novidade teriam que revisar todos os
seus prévios trabalhos que não incluíam os novos conceitos.
Não estão os humanistas presos exatamente nesta armadilha
conservadora? Com o seu semi-analfabetismo matemático e
científico, quanto de suas críticas à genética ou à
psicologia evolucionária não é senão um reflexo de seu receio
de ter revisar todas as suas crenças e teorias, ainda mais com
conceitos que não lhes são familiares?
Quando todo este
certamente árduo exercício de aprendizagem e autocrítica
estiver feito, a crítica humanística pode voltar a ter
relevância para a ciência e deixar de ser este exercício de
quixotesca futilidade erudita representado pelo abaixo-assinado.
(Texto
de Mario Barbatti)
[1]
Informação mais específica sobre o caso, incluindo o texto do
abaixo assinado pode ser encontrado no Jornal
da Ciência.
[2] Felizmente, ainda existe vida inteligente no
lado humanista. Leia a opiniçao de Hélio
Schwartsman sobre o caso.
Leia
também no Defenestrando Idéias:
Dos guindastes e das tranças do
Barão
Sr.
Spock, Teseu e o porco-espinho
Fraude em ciência: exceção
ou regra?
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