defenestrando idéias
Mario Barbatti


  Início
  Índice de textos
  Gotas de Sabedoria

  

  Seus comentários
 Avise quando atualizado

  

  Física molecular
  Você conhece o Mario?
   
Defenestrando idéias
   
O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[09/Mar/2008] O moinho de Quixote, o humanista

Recentemente, pesquisadores da PUC e da Federal gaúchas se propuseram a mapear a atividade neural do cérebro de jovens infratores. Pesquisa séria, levando em consideração fatores sócio-culturais, com protocolos éticos bem definidos. Logo que a intenção dos cientistas se tornou pública, uma gritaria histérica de sociólogos, psicólogos, antropólogos, educadores e advogados veio à tona na forma de um abaixo assinado com críticas grosseiras à pesquisa e aos pesquisadores.[1]

Não que tivessem criticando, por exemplo, o protocolo ético proposto. Isto seria legítimo. Estavam negando a própria possibilidade de que a pesquisa viesse a ser realizada, enxergando nela eugenia e determinismo biológico.

A crítica humanística da ciência sempre representou um importante contra-ponto aos excessos e tolices nos quais cientistas âs vezes se embrenhavam. Pensadores como Bachelard, Kuhn, Bourdieu e Lakatos foram essenciais para trazer à tona a rede de interesses sociais sob a qual a ciência se desenvolvia e desvelar os mitos da neutralidade científica e da racionalidade absoluta cultivados pelos próprios cientistas.

Mas este tempo de cientistas ingênuos passou e os humanistas ainda não sabem. Cientistas hoje são muito mais sutis. Compreendem que são sujeitos em processos sociais. Têm consciência das implicações éticas de suas pesquisa. Conhecem a histórias de suas disciplinas, incluindo as tragédias éticas.

Uma boa parte dos humanistas, contudo, parece não ter percebido isto. Ainda escolasticamente fechados em suas fontes, literatura e teorias, ao que tudo indica, sem luz externa, não entendem que os cientistas e a prática da ciência mudaram. Teimam em enxergar (e acusar) no cientista o velho mito do pesquisador eticamente alienado e filosoficamente tolo, capaz de repetir os mesmos erros de seus colegas do passado.[2]

Será que a nenhum destes humanistas que assinaram o documento passou, por um segundo que fosse, o pensamento de que não seria razoável que após toda a tragédia que o movimento eugênico do início do século vinte causara, alguém em sã consciência estivesse propondo algo levemente similar de novo?

Determinismo biológico é uma tolice. Óbvia e ululante. Será que quando o humanista vai enfaticamente acusar o cientista de acreditar nesta heresia epistêmica, não lhe passa pela cabeça de que não é provável que um pesquisador com boa formação acadêmica realmente esteja propondo algo assim? Este seria o momento da humildade, onde deveria se perguntar: "o que os cientistas estão realmente dizendo?"

Humanistas como os que assinaram o documento estão assombrados por fantasmas que só existem em suas próprias mentes. Criticam duramente as patologias de uma ciência que também já não existe no mundo real! Se isto ficasse restrito aos seus delírios solipsistas, eu nem gastaria meu tempo escrevendo este texto. Mas infelizmente, seu pensamento mítico acaba se refletindo em acusações gratuitas a pessoas responsáveis. E atraso acadêmico: sob o risco de vir acusado a ser acusado de racista, quantos bons cientistas não tem dirigido suas pesquisas para temas eticamente neutros e evitam áreas sensíveis como psicologia comportamental? Por causa disto, quanto deixamos de saber sobre as origens da violência e possíveis meios de controlá-la?

A crítica humanista à ciência ainda pode ter um papel relevante. Existe uma multitude de temas relacionados a como cientistas trabalham e como as ciências interagem com a sociedade que necessitam a visão sociológica ou antropológica para serem propriamente compreendidos. Existe outra multitude de dilemas éticos reais criados pelas ciências que lucrariam com a contibuição humanista. 

Mas para isto, para se qualificarem como relevantes para estes debates, os humanistas precisam atualizar e reavaliar suas fontes. Podem começar repensando o que realmente querem dizer com os seus principais chavões conceituais, as acusações de "positivista", "determinista" e "reducionista". Façam o seguinte exercício intelectual: no próximo texto que escreverem, simplesmente não usem estes três palavrões. Em seu lugar, escrevam por extenso o que têm em mente.

Antropólogos e sociólogos precisam voltar à ação. Precisam voltar estudar os cientistas e as ciências. Humanistas em geral precisam abrir as estantes e o pensamento. Deixar nomes como Monod, Prigogine, Wilson, Gould, Dawkins, Pinker, Boyd tirar-lhe o mofo. Não concordarão com tudo que eles propõem. Mas entenderão que a ciência hoje é um mundo muito diferente, provavelmente, mais complexo que aquele dos tempos de Popper.

Humanistas intelectualmente honestos, precisam ainda levar em consideração um ponto muito delicado. Kuhn compreendeu que um dos principais fatores impedindo o desenvolvimento de novos paradigmas (ou "matriz disciplinar", para os entendidos) era o conservadorismo dos cientistas, que diante da novidade teriam que revisar todos os seus prévios trabalhos que não incluíam os novos conceitos. Não estão os humanistas presos exatamente nesta armadilha conservadora? Com o seu semi-analfabetismo matemático e científico, quanto de suas críticas à genética ou à psicologia evolucionária não é senão um reflexo de seu receio de ter revisar todas as suas crenças e teorias, ainda mais com conceitos que não lhes são familiares?

Quando todo este certamente árduo exercício de aprendizagem e autocrítica estiver feito, a crítica humanística pode voltar a ter relevância para a ciência e deixar de ser este exercício de quixotesca futilidade erudita representado pelo abaixo-assinado.

(Texto de Mario Barbatti) 


[1] Informação mais específica sobre o caso, incluindo o texto do abaixo assinado pode ser encontrado no Jornal da Ciência
[2] Felizmente, ainda existe vida inteligente no lado humanista. Leia a opiniçao de Hélio Schwartsman sobre o caso.


Leia também no Defenestrando Idéias:
Dos guindastes e das tranças do Barão
Sr. Spock, Teseu e o porco-espinho
Fraude em ciência: exceção ou regra?
 


gun.gif (5899 bytes)

Gotas de Sabedoria