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[01/nov/2002]
Pensando sobre ciência
"A
publicação científica atual não serve
praticamente para nada"
(J.-M. Levi-Leblond, físico, Univ. de Nice.
Le Nouvel Observateur, 17, 23/out/1991.)
1.
Ciência e Economia
A
ciência pode ser pensada, numa primeira análise, como um sistema
de trocas, de circulação de mercadorias simbólicas e, eventualmente, de
acumulação de capital simbólico. Trocas e acumulação regidas por uma determinada
economia simbólica, entendida como o conjunto de regras de reguladoras deste
"mercado". Esta leitura sociológica da ciência tem sido
constantemente rejeitada pelo pensamento epistemológico
tradicional, como portadora de um excesso de relativismo, que negaria
todo o conteúdo da ciência.
A análise sociológica seria um formalismo extremado e cego à
capacidade da ciência de enunciar verdades.
Apesar
deste extremo relativista ter sido atingido por certas correntes
pós-modernas, que vêem a ciência como uma espécie de narração
mítica historicamente limitada, não há uma necessidade nesta análise. Reconhecer uma
economia que regulamenta os processos de troca não implica
necessariamente em negar o conteúdo da mercadoria simbólica
produzida. Numa analogia
ingênua, reconhecer regras econômicas conduzindo a produção
agrícola não implica numa perda do conteúdo do produto: o milho, o arroz, ou a soja não perdem seu conteúdo biológico
por estarem sujeitos a regras de mercado! O mesmo vale para a ciência: ela não perde
sua episteme pela ação do sociólogo, pelo menos não
necessariamente.
O
que uma economia de trocas simbólicas implica, em maior ou menor
grau, é numa perda de autonomia do campo epistêmico. Explico: a
Idéia não se conduz autonomamente, balizada apenas pelo diálogo teoria/empiria.
A História das Idéias, centrada em si mesma, morre. Isto incomoda o
epistemólogo tradicional e o próprio cientista refletindo a sua
atividade (Sokal, por exemplo). Ele tem agora obrigatoriamente que
dividir seu território com o sociólogo, com o psicólogo, com o
antropólogo, etc.
Fatores
do nível das regras da economia simbólica podem atuar sobre o
nível da produção das verdades científicas,
assim como uma certa demanda no mercado agrícola pode provocar uma
antecipação do plantio e alterar a qualidade do produto colhido.
Também o plano psicológico, ou o antropológico podem interatuar
na definição do produto final. O que é bastante difícil de
determinar é a intensidade destas influências. Muito
possivelmente não existirão regras gerais, e haverá classes
diferentes de fenômenos epistemológicos. Em alguns momentos, o
predomínio de um campo de análise pode ser evidente, noutras não.
É evidente, por exemplo, que numa dedução
matemática direta em física, a lógica matemática e regras
algébricas ditarão o caminho do desenvolvimento teórico. Mas
mesmo em um caso tão óbvio é legítimo se considerar a
influências de fatores externos, como expectativas estéticas e
outras pressões da tradição escolar do cientista.
A
História das Idéias estaria num terreno muito cômodo se se
pudesse avaliar a ciência por Leis do Pensamento. Mas, nada indica
que possamos: a ciência não se dá na idéia. Depende das
condições materiais para sua produção.
2.
Condições materiais?
Levi-Leblond é
radical quando afirma que o que se publica hoje não serve para quase nada. Má ciência?
Mentiras científicas? Não, talvez na maior parte das vezes, apenas
verdades irrelevantes produzidas por exigência de um determinado
sistema de produção simbólica. Exigências sobre produtividade
para arrecadação de financiamentos e reconhecimento dos pares.
Mas
que sistema é este que implica que o que se tem publicado não
serve para nada? E, antes, como poderíamos verificar, para além da
retórica, a validade desta afirmação?
Em
vários exemplos de campos intelectuais distintos, é possível
perceber que o discurso construído para a auto-legitimação
trabalha por sua autonomia em relação às determinações sociais
(Bourdieu). Assim, o pintor moderno não se preocupa em orientar sua
produção em função do gosto do público. Afinal de contas, a
criação estética, o produto intelectual, não deve ser submisso.
Deve ser resultado das forças criativas do autor, não de forças
de controle sociais (pressões econômicas, de prestígio, etc.).
Este discurso busca uma autonomia do campo para o julgamento de sua
produção. Apenas os que compartilham os mesmos saberes esotéricos
são legítimos para "criticar", julgar, interpretar o
produto. Temos então formadas "sociedades de admiração
mútua" (Schuking). Grupos restritos compartilhando saberes,
práticas, julgamentos e linguagem.
O
cientista vive experiência análoga a do pintor. Seu discurso de
autonomia se constrói em torno da produção de verdades. Uma
verdade esotérica bastante para que apenas uns poucos sejam capazes
de julgá-la. Este cenário torna-se agudo, em especial, nesta
segunda metade do século, com a hiper-especialização das
ciências. Uma área de estudo, como por exemplo, em física, a
fragmentação de íons moleculares, pode contar com cerca de apenas
três dezenas de praticantes em todo o mundo. O julgamento torna-se
restrito e a legitimidade do julgador dependente do objeto em análise: uma
banca de tese pode ser flexível e aceitar pesquisadores de outras
áreas, de física atômica ou nuclear (um físico relativista
talvez já não fosse aceito como julgador legítimo!). O julgamento de um artigo é
mais restritivo e realmente terá que ser feito por alguém entre as
três dezenas (revistas específicas da área, como a prestigiada Physical Review A, pedirão
aos autores que indiquem potenciais revisores).
De
acordo com o nível de pressão econômica, o discurso de autonomia
se altera. Elementos como a noção de utilidade, respostas às
demandas sociais, inovações tecnológicas, etc. podem ser
incorporados, com mais ou menos intensidade, relativizando a
autonomia do campo científico. Nos EUA, esta "pressão
externa" levou ao desenvolvimento de estruturas que produzem
discursos legitimadores junto aos órgãos de fomento e à opinião
pública. São áreas como a Divulgação Científica ou a História
da Ciência. Curiosamente, indicando uma forte determinação
histórica sobre as práticas intelectuais, estas áreas também
seguiram seus processos de especialização e autonomização.
No
Brasil, onde a produção científica se desenvolveu sob o
centralismo governamental (principalmente em termos econômicos), a
produção de legitimação externa desenvolveu-se apenas
timidamente, mais como um reflexo de práticas estrangeiras e
demandas espontâneas de discursos humanistas sobre a ciência.
Atualmente observamos que vários setores sociais, da indústria e
mesmo da academia, têm adotado discursos relativizadores para a
produção científica. Quase que hegemonicamente, falam sobre a
necessidade do "produto" científico ter uma relação
íntima com a produção de patentes e agregação de valor aos
produtos e serviços. Não é de se admirar que raramente vejamos
uma nota de jornal ou um programa político em que a palavra
"ciência" apareça sem a palavra
"tecnologia".
Um
determinado tipo de organização do trabalho científico, pode de
alguma forma, influenciar na qualidade do conteúdo do produto. Mas
dificilmente o oposto ocorre: o conteúdo, ou mesmo a mudança de
conteúdos científicos, não implica numa alteração das práticas
sociais estabelecidas. No máximo, implicam num rearranjo dos
agentes produtivos, mas mantendo a mesma organização funcional. É
este esquema de funcionamento que permite falarmos de uma sociologia
da ciência. É o reconhecimento desta permanência de práticas, em
relação à efemeridade dos conteúdos, que permite a Kuhn ou a
Bourdieu pensarem estruturas.
A
ciência, vista sob esta óptica estruturalista, ganha uma
surpreendente e incômoda dimensão abstrata. E, claro, a própria
análise deste processo deve ser, de alguma forma, sujeita a si
mesma (Bloor). Curiosamente, neste momento, qualquer teoria da
ciência torna-se objeto de si própria.
(m.b.)
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