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[18/nov/2002]
Oito anos desde Sokal
Já
faz oito anos desde a época em que Sokal fizera a sua famosa
brincadeira com a revista Social Text. Desde então a polêmica
causada naturalmente arrefeceu, a não ser nos meses subseqüentes
ao lançamento de seu livro "Imposturas Intelectuais", em
co-autoria com Bricmont, em 1998.[1]
Apesar de ter lido vários artigos nos
jornais, e mesmo assistido a uma palestra com Sokal, acho que em
1998, nunca tive realmente uma opinião formada sobre o significado
daquele ocorrido. Em particular, Sokal me passou uma impressão
bastante ruim pessoalmente: seus argumentos epistemológicos e políticos
expressos na conferência eram fracos, e havia um bom quê de espetáculo
circense. Me lembro, por exemplo, que ele perguntava para a platéia
composta quase que exclusivamente por físicos:
"Quem
aqui é físico ou matemático?" (Todos levantavam a mão.)
"Quantos aqui já utilizaram o conceito de conjunto infinito (infinite
set) em seus trabalhos?" (Ninguém levanta a mão.)
"Ora, mas a lingüista francesa Julia Kristeva usou!" (E o
público caia na gargalhada...)
Em
sua conferência, duas ou três vezes se desculpou antecipadamente
por eventuais impropriedades que viesse cometer ao falar de história
ou filosofia. De fato, me surpreende que mesmo a sua paródia seja tão
formalmente fraca. O texto não contém a elegância exotérica
dos autores que ele pretende criticar, nem mesmo reflexões filosóficas
sofisticadas.
Hoje,
retomando a leitura de artigos daquela época, percebo que havia
muito calor e pouca luz naquelas discussões. Havia fragrantes
besteiras como as de Olavo de Carvalho (para variar...) tentando
estabelecer correlações entre o vazio do discurso pós-moderno e a
impossibilidade de haver pessoas sérias à esquerda de Roberto
Campos (Folha, 21/out/1996). Havia Bento Prado Jr. ferindo o mais básico
princípio de um debate civilizado: o de não desqualificar o
interlocutor. Logo no primeiro parágrafo, o professor resenhava
sarcasticamente a obra de Sokal-Bricmont:
"Deixemo-nos
levar, portanto, pelo verdor da verve juvenil e alegre (...), que
torna tão fácil a leitura deste pequeno livro, mesmo para aqueles
que ainda não abandonaram os bancos escolares."
(Folha, 09/mai/1998).
Finalmente
resolvi enfrentar a leitura do "Imposturas Intelectuais"
(e como Prado Jr. advertira, é realmente uma leitura leve), e estou
tentando construir uma opinião mais sólida a respeito do caso. Mas
admito que cumprir este objetivo me tem sido particularmente difícil.
Difícil por uma questão de base
em toda a discussão: qual a distinção entre um texto
profundo em conteúdo e um texto complicado em forma?
Sokal
e Bricmont avisavam a respeito dos textos de Lacan: "Garantimos
ao leitor que, se as passagens parecerem incompreensíveis, é
porque no original francês também o são". Nos exemplos
considerados, sou obrigado a concordar: eram finas besteiras em
linguagem pomposa.
"Se vocês me permitirem usar uma destas fórmulas
que me acorrem quando escrevo minhas anotações, a vida humana
poderia ser definida como um cálculo no qual o zero seria
irracional. Esta fórmula é apenas uma imagem, uma metáfora
matemática. Quando digo irracional, não estou me referindo a um
estado emocional insondável, mas exatamente àquilo que é
chamado número imaginário. A raiz quadrada de menos um não
corresponde a nada que seja sujeito à nossa intuição, nada de
real no sentido matemático do termo -, e no entanto precisa
ser mantida, juntamente com suas funções completas."
(Lacan, citado por Sokal & Bricmont, pg. 37.) [2]
De
fato é muito difícil para alguém com um conhecimento básico da
matemática não rir de textos como este.
Por
outro lado, quando Sokal e Bricmont analisavam Bruno Latour, me
parecia que se eles não o entenderam, foi não tanto pela linguagem
pouco rigorosa do sociólogo da ciência, mas também porque não
tinham competência para ler os textos. De fato, eu também não me
sinto competente para interpretar o estudo de Latour sobre
Relatividade Especial, ou mesmo para defendê-lo das investidas de
Sokal e Bricmont. Mas de qualquer modo, consigo perceber a
possibilidade de sentido na análise do sociólogo, onde eles viram
apenas bobagens.
Então,
onde Sokal e Bricmont vêem bobagens, eu vejo possibilidades. Onde
eles vêm um texto sem sentido, ou "evidentemente falso",
ou banal escondido em uma linguagem empolada, o que outros podem
legitimamente ler?
"(...)
Derrida aborda a questão bem a seu estilo. Mais uma vez, seguimos
os tortuosos caminhos de seu pensamento, que a cada volta
surpreende e encanta o leitor com sua complexa sutileza, mas só
se ele (o leitor) estiver atento. Caso contrário, logo ficará
perdido no labirinto das longas frases, cheias de parágrafos
digressivos, parênteses pretensamente esclarecedores,
comentários, adiamentos, adiantamentos e ilustrações."
(Sérgio Telles, Folha, 17/nov/2002)
Telles
descobre na floresta sutileza e se encanta, o que nos leva a uma
dimensão que Sokal e Bricmont sistematicamente desprezam, o
caráter do texto como obra aberta, polissêmica, ou como diria Eco,
com "uma pluralidade de significados em um só significante"
(Umberto Eco, "Obra Aberta").
Simples
ou simplista?
"Imposturas
Intelectuais" é uma obra de fácil leitura. Rápida e direta.
Frases curtas e objetivas. Deliciosa quando mostra o monte de
besteira escrito por autores conceituados como Deleuze, Guattari e
Baudrillard. Fundamental quando denuncia excessos que beiram o
mau-caratismo intelectual. Mas quando se envereda pelas análises epistemológicas,
é uma obra de idéias simplistas: para os autores a produção do
conhecimento científico é similar à produção do conhecimento
cotidiano, mas com mais rigor nas avaliações.
"Para
nós, o método científico não é radicalmente diferente da
atitude racional na vida do dia-a-dia ou em outros domínios do
conhecimento humano. Historiadores, detetives e encanadores - na
verdade todos os seres humanos - utilizam os mesmos métodos básicos
de indução, dedução e avaliação dos dados que físicos ou
bioquímicos." (Sokal
& Bricmont, p.65)
Desconsideram
o papel das comunidades de especialistas, as influências históricas,
os processos de construção e legitimação dos objetos e das
metodologias. Entendo suas críticas aos discursos vazios pós-modernos.
Mas tentar construir uma epistemologia dialogando apenas com Hume e
Popper, como eles fazem, ou é ingênuo; ou significa declarar que
Kant, Hegel, Heidegger, Bachelard, Canguilhem, Koyré, Kuhn, Eco e todos os
pensadores que vêm,
ao longo da história, se dedicando a entender a natureza do
conhecimento, não tiveram nenhuma contribuição relevante!
O
que distingue "Imposturas Intelectuais", de "A
Estrutura das Revoluções Científicas" de Thomas Kuhn, ou de
"A Formação do Espírito Científico" de Bachelard?
Estas últimas também são obras cuja leitura é fácil e direta.
Frases curtas e objetivas. Talvez uma virtude (ou vício?) de
pensadores com formação de físicos como Sokal, Bricmont,
Bachelard e Kuhn. Mas quem há de acusar Kuhn ou Bachelard de
simplismo? É possível que hoje, após mais de trinta anos, e com o conceito
de "paradigma" rolando na boca do povo, Kuhn nos pareça
simples. Mas contextualizada, estas obras trazem idéias complexas,
que ainda alimentam debates acadêmicos.
Portanto,
aqui se encontram as minhas dificuldades: se não entendo é por que
é sem sentido ou por que não tenho competência para entender? E
se entendo? É por que as idéias eram simplistas, ou por que o
autor se expressava bem?
Sokal
e Bricmont nos querem convencer que é relativamente simples
realizar estes julgamentos. Em seu manual, ensinam a buscar a coerência
entre partes do texto; procurar por conceitos não explicados ou
utilizados de formas ambíguas; desconfiar sempre que um conceito da
física ou da matemática é enunciado num texto de psicologia ou
sociologia. Tudo muito razoável, mas ainda me fica a impressão de
que se seguimos seus conselhos ao pé da letra, estaremos jogando
fora algo mais do que a água da bacia.
Se
seguíssemos os conselhos de Sokal e Bricmont, que autores ainda leríamos?
Nietzsche, por exemplo, quando explica o Eterno Retorno, o faz a
partir da suposição de que "a medida da força (Kraft)
total é determinada" em um "tempo infinito"
(Fragmentos, Outono de 1881, 11 [202]). Pelos padrões da física,
força é um conceito bem amarrado pela mecânica newtoniana, e a
explicação de Nietzsche não faria sentido algum. Mas se pedirmos
licença a Sir Isaac, e tentarmos compreender as palavras do filósofo,
chegaremos não só a uma idéia profundamente instigante, mas também
a uma idéia que estava contemporaneamente sendo parida pela própria
física! Afinal, não era de Eterno Retorno que Boltzmann falava
quando especulava sobre a possibilidade de microconfigurações de
um sistema virem a se repetir, passado um tempo muito longo? Não
era de Eterno Retorno que estava falando Poincaré, quando mostrava
que o tempo para a repetição de um estado do sistema seria maior
que o tempo de vida para o universo? Sokal e Bricmont talvez
tivessem zombado de Nietzsche, quando Zaratustra se indigna com o
"Espírito da Gravidade" ("Assim falou
Zaratustra", Da visão e enigma).
Duas
culturas
Sokal
e Bricmont acusam alguns autores de usarem a linguagem rebuscada e
esotérica com a intenção de causar "estados de espírito".
Não discordo: isto claramente ocorre. Ma se o rigor científico
deve condenar este artifício com veemência, a vontade de saber
deve saudá-lo e acolhê-lo com carinho, pois sabe que nem tudo que
se compreende pode ainda ser enunciado.
O
cientista em mim percebe perfeitamente o ridículo dos textos de
Luce Irigary sobre o sexismo da física dos fluídos ou na
relatividade especial. Mas o amante do conhecimento em mim percebe a
possibilidade de haver influências sexistas na construção dos
conceitos. Seria tolo se o cientista apenas se satisfizesse em
satirizar, e não em levar para o laboratório esta possibilidade, a
ser investigada no campo da neurolinguística e da psicologia. Seria
também tolo se o sociólogo se limitasse aos panfletos políticos
feministas e não desse um passo a mais para tornar rigoroso, o que
fora enunciado primariamente para causar um "estado de espírito".
Claro
que tudo é sempre mais complicado do que parece. Posso citar opiniões
razoáveis de todos os lados. Sokal e Bricmont selecionaram ótimas
citações de Hobsbawn e Chomsky para avalizar suas posições.
Poderiam ainda ter citado as perspicazes palavras do físico Murray
Gell-Mann:
"Unfortunately, there are people in the
arts and humanities - conceivably, even some in the social
sciences - who are proud of knowing very little about science and
technology, or about mathematics. The opposite phenomenon is very
rare. You may occasionally find a scientist who is ignorant of
Shakespeare, but you will never find a scientist who is proud of
being ignorant of Shakespeare." (www.edge.org/discourse/on3c.html)
Mas
se, por outro lado, quisermos ser simpático às causas
multicuturalistas, o auxílio não será menos sólido:
"Justamente,
sob o ponto de vista das ciências, nenhum domínio possui hegemonia
sobre o outro, nem a natureza sobre a história, nem esta sobre
aquela. Nenhum modo de tratamento supera os outros. Conhecimentos
matemáticos não são mais rigorosos que os filológico-históricos.
A matemática possui apenas o caráter de 'exatidão' e este não
coincide com rigor." (Heidegger, "Que é metafísica?")
E
haverá como discordar de Heidegger?
Se
acreditarmos que há algo mais na bacia que a radicalidade de
"Imposturas intelectuais" permite perceber, nos pomos a caminhar
sobre o fio da navalha, entre a defesa de um pensamento amplo, que
se permite fertilizar por formas heterodoxas de argumentações, que
não se deixa intimidar pelas limitações da linguagem formal, e
admite a multiplicidade de sentidos; e o pensamento obscurantista
que se esconde atrás de discursos sem conteúdo, que se mantém por
pressões de prestígio, e se reproduzem na ignorância dos
intelocutores sobre o que o outro está falando.
Já
Sokal, Bricmont e possivelmente boa parte da comunidade científica
preferem não se arriscar, e tentam se estabelecer confortáveis
sobre o solo seguro do bom senso, da lógica, do rigor experimental,
e de uma epistemologia caseira e bem comportada.
Curiosamente
talvez eles não tenham percebido ainda, que mesmo nestas terras
mais hospitaleiras, há sombras que se avizinham assustadoras. Pois
vejam o caso dos físicos Grichka e Igor Bogdanoff: defenderam
recentemente suas teses de doutorado na Universidade de Bourgogne,
publicaram artigos com títulos "sérios" como "Spacetime
metric and the KMS condition at the Planck scale" (Ann.
Phys. 296, 90 (2002)), e apesar das arbitragens não existe
absolutamente nenhum consenso sobre se o trabalho deles é aceitável
pelos padrões da física, ou se é um engodo ao estilo do embuste
de Sokal (Nature 420, 5 (2002)).
Em
outro exemplo recente, de setembro passado, uma investigação
interna dos Laboratórios Bell concluíra que pelo menos um
cientista de casa, Hendrick Schon, vinha sistematicamente fraudando
resultados em 25 artigos que publicara, em revistas conceituadas
como a Science, nos últimos quatro anos.
E
o que são estes casos? Exceções em meio a uma comunidade
honestamente laboriosa? Ou sintomas de um sistema de produção
científica, seus critérios de aferição de produtividade, e sua
profunda (e, paradoxalmente, necessária) superespecialização, que
limita a poucos indivíduos a capacidade de julgamento de um
trabalho profissional?
Meu
objetivo, como disse no início deste texto, era o de formar uma idéia
mais sólida a respeito do Caso Sokal e o debate entre as "duas
culturas". Mas sinto que tenho andado em círculos. Conforme
novas questões se desvelam, que me resta senão me postar atônito
diante da complexidade da produção de conhecimento no mundo
contemporâneo?
[1]
A. Sokal e J. Bricmont, Imposturas
intelectuais, Ed. Record, 1999.
[2]
Não tem muito a ver com o
assunto, mas esta tolice de Lacan, me faz recordar quando a revista
de divulgação científica Superinteressante publicou a seguinte pérola:
"Primeiro
os números eram reais (inteiros, as frações e mesmo os decimais não
exatos nem periódicos). Depois surgiram os imaginários: as raízes
de negativos, às quais é difícil agregar um conteúdo, mas
funcionam. O i (raiz quadrada de -1) é um deles. Ele está na fórmula
que calcula a corrente elétrica (P=iU, onde P é a potência e U o
campo elétrico)." (Superinteressante, 121, out/1997, p.65.)
(texto
de Mario Barbatti)
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