Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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[03/jan/2003] Ciência por quê?

1. Razões para a ciência

Consigo distinguir três razões para se semear e cultivar com cuidado a ciência nas sociedades contemporâneas, e especialmente entre nós, de um país subdesenvolvido: a ciência é a teoria do real, a ciência é o potencial da técnica e a ciência é consumo qualificado.

"Ciência é a teoria do real", definição que furto de Heidegger que a escrevia como provocação reflexiva. As instituições científicas constroem o discurso pelo qual a sociedade laica interpreta o mundo. E, de fato, é a Ciência, como ideal, e são as ciências, como expressões particulares, que fornecem matrizes pelas quais o cidadão culto espera descrever o que se dá à sua volta.

É a Ciência que faz o leigo culto descartar o criacionismo e aceitar que as espécies evoluem por processos de seleção autônomos e naturais. É a ciência que dá ao cidadão comum o sentimento de que a história social tem razões seculares, baseadas naquilo que os homens e suas instituições fazem.

Mas Ciência também se liga à qualificação das práticas sociais. Várias especialidades científicas convivem muito de perto com os setores produtivos. Criam os potenciais teóricos e experimentais para o que se tornarão as práticas industriais, agrícolas, financeiras, médicas, sociais: técnicas, enfim.

Se a Ciência enquanto potencial da técnica é imediatamente reconhecida como fundamental para os processos de desenvolvimento econômico, a Ciência enquanto teoria do real sempre aparece como supérfluo meditativo, reflexão peripatética indigna dos fundos públicos de um país de famintos. 

Afinal, se a ciência se faz técnica, pode gerar produtos, oxalá, empregos. Aqui os discursos, dos especialistas convergem para um irritante uníssono: a ciência deve ser alvo de políticas indutoras, que norteiem a sua produção para as necessidades técnicas da nação, fazendo com que agregue valor aos produtos brasileiros.

É uma pena, no entanto, que a ciência como discurso da verdade seja pragmaticamente relegada ao plano do inconveniente. Realmente, o físico teórico estudando gravitação quântica não gerará absolutamente nenhum produto, nem emprego, nem valor, nem patente. Mas ele gerará discursos sobre a realidade, que alimentarão a sociedade de conceitos laicos sobre como funciona o mundo. 

Bem menos considerada, no entanto, é a terceira razão para o cultivo da ciência entre nós, a ciência enquanto consumo qualificado. A produção científica, em cada um dos seus aspectos - a formação da mão de obra qualificada, a montagem e manutenção dos laboratórios, a organização de congressos, a publicação de livros e revistas especializadas, o registro de patentes, a divulgação jornalística - é um empreendimento que envolve uma considerável massa de trabalhadores qualificados. Além dos cientistas, participam desta empreitada técnicos, administradores, secretários, jornalistas, empresários, hoteleiros e toda a fauna produtiva da sociedade. Cada centavo investido em ciência retorna quase que imediatamente sob a forma do consumo que alimenta as práticas científicas. Boa notícia para os pragmáticos: investir em ciência, mesmo a mais pura e abstrata, gera empregos!

2. Armadilhas do subdesenvolvimento

Claro que nem tudo são flores. Permeiam as práticas científicas no Brasil, uma série de mecanismos perversos que alimentam o subdesenvolvimento do país. Em todas as três razões para ciência há vícios e armadilhas a serem desarmados, para que a ciência se torne um instrumento efetivo no processo de desenvolvimento brasileiro. 

A ciência é a teoria do real. Mas as instituições científicas brasileiras têm historicamente se mostrado inaptas para convencerem disto a população, que sistematicamente baseia o seu olhar sobre o mundo a partir de perspectivas preconceituosas, religiosas e místicas. 

A ciência se comunica com a sociedade via a educação formal e via a divulgação científica generalizada. A primeira, em todos os níveis de ensino, agoniza sob uma crise de qualidade e metodologia. Nos cursos superiores, vemos sintomaticamente as disciplinas científicas tendo suas cargas reduzidas - quando não, extintas - das grades de cursos como informática, arquitetura e farmácia.

A divulgação científica, por outro lado, tem ganhado algum espaço. Conta hoje com várias revistas populares, alguns programas de TV e uma maior atenção à formação do profissional de divulgação. Mas também não está alheia à crise: a divulgação científica é de acesso restrito à pequenas parcelas da população e seu objeto, na maior parte das vezes, são pesquisas internacionais, pouco condizentes com as realidades locais. Os jornais, que contam todos com cadernos de esporte, economia, informática, automóveis, etc., dedicam em geral 3/4 de página para a "Ciência & Vida", onde se contentam divulgar notas sobre pesquisa médicas norte-americanas. 

Mas a ciência enquanto potencial para a técnica também guarda seus problemas intrínsecos ao subdesenvolvimento. Como tem sido apontado por vários analistas, a ciência brasileira tem dificuldades estruturais para se ligar aos setores produtivos. Isto por razões diversas: políticas de orientação mal elaboradas, a falta de tradição empreendedora do cientista, o reduzido nível de investimento em pesquisa por parte da iniciativa privada.

A conseqüência funesta é que a ciência brasileira tende a se tornar um mecanismo de transferência de renda para os países desenvolvidos. O cientista brasileiro exporta sua pesquisa qualificada, publicando nas revistas especializadas européias e norte-americanas, recebendo em troca apenas o capital simbólico do reconhecimento entre pares. Em seguida, a sociedade importa produtos, cujo o alto valor tecnológico foi obtido utilizando-se inclusive da pesquisa exportada pelo cientista brasileiro. O processo é análogo ao de exportar laranja e comprar suco, com uma curiosa adição: é explicitamente incentivado pelas agências governamentais de financiamento e considerado absolutamente normal por boa parte da comunidade científica nacional.

Não está em melhores condições, nossa terceira razão para a ciência. Enquanto consumo qualificado, acaba também na armadilha da transferência de renda para o mundo desenvolvido. Como a maior parte dos equipamentos, insumos, livros e revistas utilizados pelos cientistas são importados, a ciência brasileira gera empregos, mas fora do Brasil. 

3. Catequese científica

Muitos dos obstáculos ao desenvolvimento científico brasileiro são conseqüência da desfavorável conjuntura econômica atual. Não é razoável, por exemplo, esperar dos setores empresariais investimentos em pesquisa, quando eles convivem com taxas de juros anormalmente altas. É até surpreendente que cerca de 40% do investimento em pesquisa e desenvolvimento seja feito pelo setor empresarial (MCT, 2000).

Também se torna irreal esperar a implantação de um sistema de "substituição de importações" na área de consumo científico, quando os financiamentos das pesquisas sofrem profundas oscilações ao longo do tempo, ao sabor das várias crises econômicas. 

O investimento empresarial, afinal, precisa de um mínimo de segurança sobre a continuidade da capacidade de compra de seu público alvo, restrito por natureza.

Investimentos Federais em C&T
(Fonte: MCT, 2002.)

Outros obstáculos provém de políticas científicas confusas, mal orientadas, que privilegiam o financiamento de programas especiais, em detrimento da manutenção dos programas básicos; da administração ineficiente e amadora das instituições científicas. 

Mas há também fenômenos de ordem cultural, que trabalham contrariamente ao desenvolvimento científico nacional. Mesmo resolvidos os impasses econômicos, estaria o empresariado disposto a investir em pesquisas científicas, sem contar com a bengala da renúncia fiscal? E quanto o cientista estaria disposto a se comunicar com a sociedade que o financia? É sintomático que raramente as instituições científicas brasileiras contem com assessores de imprensa. 

A sociedade brasileira precisa muito de ciência. Precisa, claro, para valorizar seu produtos no mercado externo e também para gerar empregos qualificados para seus cidadãos. Mas precisa ainda mais de ciência, para para a formação de um espírito humanista, laico, crítico e tolerante. E neste ponto, o cientista tem que se compreender como que numa missão catequética e civilizatória, de arrebatar a gente brasileira dos braços dos misticismos e seitas. 

(texto de Mario Barbatti)

 


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