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[07/jan/2003]
Ciência, Tecnologia e... Rosinha
Tanto
Roberto Amaral, ministro da Ciência e Tecnologia do Governo
Federal, quanto Fernando Peregrino, secretário de Ciência, Tecnologia
e Inovação do Governo do Estado do Rio de Janeiro, ambos do PSB,
possuem discursos coerentes e afinados em defesa do
desenvolvimento científico do país. A
princípio, poder-se esperar uma atenção cuidadosa e qualificada
do tema Ciência e Tecnologia, tanto no nível federal quanto no estadual simultaneamente, é uma grata surpresa, que cria a
expectativa de dias melhores para os cientistas brasileiros.
Como
o secretário executivo do MCT e ex-secretário estadual da área
no Governo Garotinho Wanderley de Souza vem salientado
publicamente, foi o "efeito Garotinho", ou seja, uma
política sistemática de retomada de investimento estadual em
C&T promovida na Gestão de Garotinho, que fez com que o PSB e
seus quadros recebessem reconhecimento nacional de competência na
área, ao serem escolhidos por Lula para chefiar o MCT. Ao
longo do Governo Garotinho, a Fundação Carlos Chagas Filho de
Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (FAPERJ), de uma pocilga
burocrática e ineficiente, foi transformada num órgão
competente e dinâmico, que tornou-se símbolo de excelência no
plano nacional, ao lado da já consagrada FAPESP.
(A
bem da memória, que parece não ser o forte dos arautos da
dinastia Garotinho, a recuperação da FAPERJ foi imensa no
Governo do PSB, mas de fato, se iniciou no Governo de Marcelo
Alencar.)
Roberto
Amaral em seu discurso de posse e nas diversas entrevistas vem falando
com propriedade a respeito de problemas concretos que a C&T
enfrentam no Brasil, assim como tem demonstrado sensibilidade ao
reconhecer que a espantosa desvalorização das bolsas de
pós-graduação é um dos problemas urgentes a serem enfrentados.
Como um exemplo da visão lúcida das necessidades políticas da
área, o ministro anunciou que os editais nacionais serão
lançados em conjunto com as FAPs estaduais e agências
municipais: excelente medida para alavancar o investimento
regional em C&T, principalmente em estados onde as FAPs são
tratadas com um profundo desprezo. Não é demais lembrar como no
Maranhão de Roseana Sarney, Jorge Murad foi empossado às pressas
como "secretário extraordinário" de Ciência e
Tecnologia, apenas para tentar obter foro privilegiado na justiça.
Enquanto
Amaral vem nacionalmente fazendo análises mais gerais, Peregrino,
em seu discurso de posse, preferiu ater-se à questão da
inovação, que, a partir de agora, torna-se parte do nome e da
agenda da secretaria estadual de C&T. Mas no geral, também
deixa compreender que o investimento em ciência não está em
dicotomia com o combate às injustiças sociais: "não temos
dúvidas que é falso o dilema: acabar com a miséria primeiro,
para depois dar conta do avanço cientifico". Ótimo! Palavras
que afastam o nefasto fantasma da demagogia, que nos assombrou,
por exemplo, no Governo Brizola, em que o orçamento da FAPERJ era
desviado para a construção de CIEPS.
Mas
se na praia as águas estão calmas e o céu azul, descortinam-se
escuras nuvens no horizonte. As relações políticas entre o PSB
e o PT no Rio de Janeiro estão em frangalhos. Peregrino em seu
discurso de posse, enquanto abertamente elogiava Lula e o "o
primeiro governo federal eleito de esquerda da história de nosso
Pais (...) comprometido em desconstruir o modelo neoliberal que se
instalou no país nos últimos anos", não citou uma única
vez seu antecessor na secretaria, José Seixas Lourenço, durante
o Governo de Benedita da Silva. Discursou como se os nove meses
anteriores não tivessem existido: sinais da crise. Mas pelo menos
Peregrino parece ter sensibilidade para desvincular política
federal da estadual. Já a
governadora Rosinha não parece ter a mesma sensibilidade política.
Desde sua posse, no mesmo domingo em que todo o país comungava da
festa da posse de Lula, ela não perdia tempo, e já ameaçava passar
para a oposição, caso uma refinaria não fosse construída no
Norte-Fluminense, ou se a renegociação da dívida estadual não
lhe fosse favorável.
Alcunhada
de "governadora Raivosinha" pelos cínicos, a
governadora é uma bomba-relógio armada para destruir o delicado
equilíbrio de poder que Lula vem tentando compor. Sua atitude
beligerante, num momento de trégua nacional e lua-de-mel do povo
com o presidente, demonstra o quanto suas relações com o PT
fluminense foram desgastantes, mas demonstra ainda mais o que pode
ser a ruína de seu governo: sua personalidade visceral e a conseqüente
falta de tato político. Para sorte (ou azar?) de Garotinho, que
não deve ver a hora de passar honrosamente para a oposição e
fazer vingar suas pretensões nacionais, se
Rosinha não adquirir rapidamente as virtudes da moderação e da
paciência, as conseqüências podem ser muito ruins para o estado
do Rio, que sofrerá diante de uma relação tumultuada entre as
esferas estadual e federal.
Infelizmente,
no caso de uma ruptura entre o PSB e o PT, a política de Ciência
e Tecnologia será imediatamente afetada. Neste momento, na bolsa de apostas sobre qual o primeiro ministro de
Lula que será demitido, Rosinha Garotinho está fazendo tudo para
tornar Roberto Amaral uma verdadeira barbada.
(texto de Mario Barbatti)
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