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[16/jan/2003]
Algo errado na base da pirâmide
Uma
das facetas menos conhecidas pelo público leigo, a respeito do
processo de produção científica, é que ele é sustentado por
uma grande base de jovens profissionais em posições temporárias
nas universidades e instituições de pesquisas. No Brasil, são
milhares de jovens cientistas distribuídos por programas de
pós-graduação: são mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos.
Visite qualquer laboratório do país e descobrirá que é esta
gente graduada há menos de dez anos, que mantém a rotina básica
da pesquisa científica. Mas apesar de sua importância para o
sistema, a situação do jovem cientista é absolutamente
precária.
Seu
recrutamento é feito por meio de contratos unilaterais firmados
com as agências nacionais de financiamento. Sob os termos
definidos pelas agências, o jovem cientista está sujeito ao
rompimento unilateral do pagamento das bolsas e benefícios, sem
qualquer indenização ou aviso prévio. A estes jovens
pesquisadores também é exigida dedicação exclusiva à
instituição de pesquisa. A contrapartida: não há
contrapartida. O jovem cientista não possui seguridade social,
plano de saúde, comprovante de renda, seguro em caso de acidente
de trabalho, férias, licença-maternidade, prêmio de
produtividade, adicional por insalubridade ou periculosidade.
Considere-se aí que muitos deles trabalham com materiais
radioativos, biológicos ou químicos, potencialmente perigosos.
Um
exemplo conjuntural deste sistema de exploração do trabalho do
jovem cientista é o fato das bolsas de pós-graduação não
terem sido reajustadas nem uma única vez ao longo dos últimos
oito anos! Em 1995, um mestrando do CNPq recebia mais de dez
salários mínimos, auxílio-saúde, verba de bancada para
aquisição de insumos e uma premiação de um mês adicional de
bolsa, se terminasse o trabalho no prazo de dois anos. Hoje, em
2003, um mestrando recebe pouco mais que três salários mínimos, e só. A
situação "salarial" é tão insana, que foi mencionada
até no discurso de posse do novo ministro da Ciência e Tecnologia,
Roberto Amaral.
Vez
ou outra se ouve por aí que o pós-graduando não tem do que
reclamar, já que está ganhando para estudar. Lamentável engano: o
pós-graduando é um profissional em formação. Tal como qualquer
jovem profissional qualificado, ele faz cursos e se especializa.
Ao final de seu trabalho ele recebe um título, de mestre ou
doutor, ou qualifica seu currículo, no caso dos pós-doutorandos.
Mas a obtenção deste "capital simbólico" não pode
esconder o fato de que o jovem pesquisador, de fato, trabalha e
presta contas, atua nos laboratórios, participa do
desenvolvimento das pesquisas e nas publicações.
A
esta altura é necessário fazer uma distinção sutil: nem todo
pós-graduando pode ser enquadrado nesta discussão. Parte do
sistema de pós-graduação brasileiro é dedicado à
qualificação de profissionais já alocados no mercado de
trabalho. Este não é o caso do jovem cientista. Para este, a
pós-graduação não é uma opção. É uma condição
obrigatória para seguir a carreira científica, já que as instituições
de pesquisa só contratam profissionais com
doutorado.
Apesar
das dificuldades envolvidas em se fazer burocraticamente a
distinção entre estas duas categorias de pós-graduandos, seria
fundamental que o jovem cientista fosse reconhecido
profissionalmente, com uma definição mais clara das suas
atribuições e de seus direitos. E isto é importante para que o
próprio sistema científico nacional se mantenha saudável. A
precariedade das condições de trabalho dos jovens cientistas é
um banho frio no jovem recém graduado, e faz com que os centros
de pesquisa percam talentos, para outros setores do mercado de
trabalho.
Há
alguns anos, a Associação Nacional de Pós-graduandos redigiu um
projeto de lei que regulamentava o trabalho de pós-graduação. O
projeto, em seu corporativismo ingênuo, estava fadado ao
fracasso, mas trazia uma idéia básica que vale a pena retomar: a
necessidade de regulação do trabalho do jovem cientista. Como
qualquer trabalhador, ele deve receber pelo seu
trabalho, de forma compatível com sua qualificação, sob um
sistema de seguridade e com possibilidade negociação coletiva do
contrato de trabalho.
Infelizmente,
estamos muito distantes de alcançar estes objetivos. A própria
comunidade acadêmica não se mostra sensível ao problema. A
condição essencialmente transitória do jovem cientista é vista
como uma espécie de ritual de passagem, comum em todo o mundo.
Bom, este "ritual de passagem" consome uma década
da vida de homens e mulheres, chefes de família com filhos,
cachorro, crediário e aluguel, como qualquer brasileiro.
(texto de Mario Barbatti)
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