Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[22/jan/2003] Lógica de Mercado e o Titanic

Qualquer um que espere uma alteração do alinhamento do governo brasileiro com as diretrizes do Consenso de Washington, mantido há mais de uma década, deve estar apreensivo com os primeiros passos da nova equipe econômica. Não que qualquer pessoa razoável esperasse uma ruptura radical, ou uma brusca guinada no transatlântico Brasil, para usar a metáfora preferida pelo novo primeiro escalão federal. Os passos cautelosos, a reafirmação dos contratos e da austeridade fiscal são realmente necessários para a manutenção da estabilidade institucional.

O problema está na acomodação. Lula e sua equipe aprenderam rápido a dizer tudo o que o mercado de especulação deve e quer ouvir, para reagir "com otimismo". Esta lua-de-mel é uma situação confortável, porém perigosa. O mercado está sendo tratado como uma criança mimada a quem se evita dizer não, sempre bem alimentado com uma papinha de informações neo-conservadoras. Neste processo, o governo corre o risco de tornar-se refém de seu próprio discurso água-com-açúcar. Qualquer declaração de Lula ou ato ministerial "inconveniente", que quebrem as expectativas criadas pelo próprio governo, em sua ânsia de agradar os investidores, vai resultar em elevação da taxa de câmbio, queda da bolsa e aumento dos índices de risco.  

Aparentemente, o governo compreende a lógica que rege estes índices voláteis e sabe jogar com a informação para mantê-los nos níveis adequados. E parte do "bom humor do mercado" para com o governo está na percepção de que a nova equipe de econômica está disposta a jogar o jogo da informação especulativa. Mesmo antes da posse, Lula e seus assessores mantiveram reuniões a portas fechadas com banqueiros, o que foi um primeiro "mimo" para se criar atual lua-de-mel. O que foi dito nestas reuniões só será conhecido quando os relatórios privados para os clientes vierem a publico daqui a alguns meses. Neste tempo, estes grupos privilegiados de investidores poderão atuar com informações de primeira mão, o que é garantia de lucro certo. 

O governo sabe que o que importa para o mercado especulativo não é a "informação verdadeira" e sim a "informação efêmera". A primeira seria a informação com força de verdade sobre o que se pretende realizar, ou como se vai agir. A outra seria a informação destinada a ser esquecida no dia seguinte, servindo apenas para gerar as expectativas, que alimentam a dinâmica da especulação econômica. 

De fato, o investidor especulativo se baseia na expectativa de atuação imediata de seus pares. A partir de uma dada conjuntura de informações, o que se que saber não é se uma letra será ou não paga em seis meses. O que se quer saber é o que será comprado e vendido hoje e amanhã, pelos demais investidores. Assim, a informação que garantirá o investimento mais acertado e lucrativo, não é a que será verdadeira em seis meses, e sim a que o mercado possui instantaneamente, e sobre a qual faz a sua análise.

É comum o noticiário econômico "explicar" o porquê do comportamento dos índices econômico diários, com base na expectativa dos investidores sobre os eventos futuros. Por exemplo, na época pré-eleitoral, um crescimento de Lula nas pesquisas de intenção de voto, resultava no aumento da taxa de câmbio. Explicação típica que se ouvia ao fim do dia:"o mercado reagiu mal à possibilidade de uma vitória da esquerda, que pode não honrar os contratos futuros". 

Outro exemplo. Hoje o ministro da Fazenda faz um discurso duro contra a renegociação da dívida dos estados e a favor da austeridade fiscal. A conseqüência ao fim do dia é a valorização cambial e subida da bolsa. Explicação típica: "o mercado reagiu bem à indicação de uma política austera, que garantirá a solvência estatal futura".

Estes dois exemplos são rotineiros e curiosamente as "explicações típicas" são falsas. Para começar, se as oscilações cambiais são devidas a movimentos especulativos, que por definição atuam no curto-prazo, por que estariam interessados, os investidores, em questões de médio prazo, como pagamento de contratos futuros?

Portanto, na época pré-eleitoral, quando Lula subia nas pesquisas, o Real desvalorizava não devido aos riscos associados à possível vitória. O Real desvalorizava porque cada investidor criava uma expectativa sobre a atuação dos outros investidores. Cada um achava que com base na notícia eleitoral, os outros venderiam títulos públicos cotados em moeda corrente, para comprar dólares. Assim cada investidor se "antecipava" na venda, para se garantir contra a fragilização do Real. Um típico movimento coletivo auto-organizado. (Se bem que não se possa descartar ações de grandes bancos de investimento, no explosivo aumento dos índices desfavoráveis, para tentar minar a candidatura de esquerda.) 

Seguindo o mesmo diagnóstico, quando o ministro Palocci faz o discurso da austeridade, o Real valoriza porque cada investidor espera que os outro vendam dólares, e por antecipação ele também os vende para realizar os lucros do período. Novamente, a ação autônoma e individual cria um movimento coletivo organizado, que interpretamos abstrata e alienadamente como "o Mercado", e erroneamente como otimismo dos investidores em relação ao futuro.

Em ambos os casos, não importa a verdade da informação. Importa apenas como os outro investidores reagirão às notícias divulgadas.

O que é um tanto surpreendente é que estes fenômenos são por demais óbvios, para justificar a insistência do jornalismo econômico em se ancorar em explicações a partir de expectativas futuras. 

Por outro lado, o novo governo tem jogado desde o início com tais mecanismos. O fez, por exemplo, na crise do governo do estado do Rio de Janeiro, na qual uma pantomima foi montada entre afirmações de austeridades e liberações de dinheiro retido. O primeiro criava a informação efêmera para o jogo especulativo, o segundo agradava a base de sustentação política. 

Mas se o jogo de informações funcionou desta vez, isto não é garantia que funcionará sempre. Acreditar que se pode ser vencedor neste jogo é uma aposta extremamente arriscada, principalmente porque o mercado, em sua coletividade, tem uma dinâmica extremamente complexa, o que obviamente limita a capacidade de previsão das reações. Economistas do porte de Joseph Stiglitz têm advertido sobre o quanto é complexo os movimentos dos mercados, sob conjuntos incompletos de informação. 

A questão agora é: o governo Lula vai se manter refém de um mercado manhoso? Ou em algum momento vai saber dizer não e enfrentar a choradeira? Vai, como FHC nortear a política macroeconômica nas bases da "recessão estimulada", exigida pelo FMI? Ou vai reativar a economia produtiva, como prometido em campanha?

Infelizmente, os sinais dados até este momento indicam que existe um grande risco do governo se acomodar na posição confortável do neo-conservador maduro, responsável, de barba aparada. Que vai se desculpando pela inação; culpando a dificuldade de promover "as reformas". Mantendo uma inflação moderada, ao custo de 13% de juros anuais reais; mantendo superávit primário de 4% do PIB - 10% da arrecadação pública -, ao custo de 37% de tributação. Conforto efêmero, que é a receita certa para o desastre. 

Só para brincar com a metáfora do transatlântico, é bom lembrar que o Titanic afundou porque não mudou de rumo.

(texto de Mario Barbatti)

 


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