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[22/jan/2003]
Lógica de Mercado e o Titanic
Qualquer
um que espere uma alteração do alinhamento do governo brasileiro
com as diretrizes do Consenso de Washington, mantido há mais de
uma década, deve estar apreensivo com os primeiros passos da nova
equipe econômica. Não que qualquer pessoa razoável esperasse
uma ruptura radical, ou uma brusca guinada no transatlântico
Brasil, para usar a metáfora preferida pelo novo primeiro
escalão federal. Os passos
cautelosos, a reafirmação dos contratos e da austeridade fiscal
são realmente necessários para a manutenção da estabilidade
institucional. O
problema está na acomodação. Lula e sua equipe aprenderam
rápido a dizer tudo o que o mercado de especulação deve e quer ouvir,
para reagir "com otimismo".
Esta lua-de-mel é uma situação confortável,
porém perigosa. O mercado está sendo tratado como uma criança
mimada a quem se evita dizer não, sempre bem alimentado com uma
papinha de informações neo-conservadoras. Neste processo, o
governo corre o risco de tornar-se refém de seu próprio discurso
água-com-açúcar. Qualquer declaração de Lula ou ato
ministerial "inconveniente", que quebrem as expectativas
criadas pelo próprio governo, em sua ânsia de agradar os
investidores, vai resultar em elevação da taxa de câmbio, queda
da bolsa e aumento dos índices de risco. Aparentemente,
o governo compreende a lógica que rege estes índices voláteis e sabe
jogar com a informação para mantê-los nos níveis adequados. E
parte do "bom humor do mercado" para com o
governo está na percepção de que a nova equipe de econômica está
disposta a
jogar o jogo da informação especulativa. Mesmo antes da posse,
Lula e seus assessores mantiveram reuniões a portas fechadas com
banqueiros, o que foi um primeiro "mimo" para se criar
atual lua-de-mel. O que foi dito nestas reuniões só será
conhecido quando os relatórios privados para os clientes vierem a publico daqui a alguns meses. Neste tempo, estes grupos
privilegiados de investidores poderão atuar com informações de
primeira mão, o que é garantia de lucro certo. O
governo sabe que o que importa para o mercado especulativo não é a
"informação verdadeira" e sim a "informação
efêmera". A primeira seria a informação com força de
verdade sobre o que se pretende realizar, ou como se vai
agir. A outra seria a informação destinada a ser esquecida no dia
seguinte, servindo apenas para gerar as expectativas, que alimentam a
dinâmica da especulação econômica. De
fato, o investidor especulativo se baseia na expectativa de
atuação imediata de seus pares. A partir de uma dada conjuntura
de informações, o que se que saber não é se uma letra será ou
não paga em seis meses. O que se quer saber é o que será
comprado e vendido hoje e amanhã, pelos demais investidores. Assim, a informação que
garantirá o investimento mais acertado e lucrativo, não é a que
será verdadeira em seis meses, e sim a que o mercado possui
instantaneamente, e sobre a qual faz a sua análise. É comum o
noticiário econômico "explicar" o porquê do
comportamento dos índices econômico diários, com base na
expectativa dos investidores sobre os eventos futuros. Por
exemplo, na época
pré-eleitoral, um crescimento de Lula nas pesquisas de intenção
de voto, resultava no aumento da taxa de câmbio. Explicação
típica que se ouvia ao fim do dia:"o mercado reagiu mal à possibilidade de uma
vitória da esquerda, que pode não honrar os contratos
futuros". Outro
exemplo. Hoje o ministro da Fazenda faz um discurso duro
contra a renegociação da dívida dos estados e a favor da
austeridade fiscal. A conseqüência ao fim do dia é a
valorização cambial e subida da bolsa. Explicação típica:
"o mercado reagiu bem à indicação de uma política
austera, que garantirá a solvência estatal futura". Estes
dois exemplos são rotineiros e curiosamente as
"explicações típicas" são falsas. Para começar, se
as oscilações cambiais são devidas a movimentos especulativos,
que por definição atuam no curto-prazo, por que estariam
interessados, os investidores, em questões de médio prazo, como
pagamento de contratos futuros? Portanto,
na época pré-eleitoral, quando Lula subia nas pesquisas, o Real
desvalorizava não devido aos riscos associados à possível
vitória. O Real desvalorizava porque cada investidor criava uma expectativa
sobre a atuação dos outros investidores. Cada um achava que com base
na notícia eleitoral, os outros venderiam títulos públicos cotados
em moeda corrente, para comprar dólares. Assim cada investidor se
"antecipava" na venda, para se garantir contra a
fragilização do Real. Um típico movimento
coletivo auto-organizado. (Se bem que não se possa descartar
ações de grandes bancos de investimento, no explosivo aumento
dos índices desfavoráveis, para tentar minar a
candidatura de esquerda.) Seguindo
o mesmo diagnóstico, quando o ministro Palocci faz o discurso da
austeridade, o Real valoriza porque cada investidor espera que os
outro vendam dólares, e por antecipação ele também os vende
para realizar os lucros do período. Novamente, a ação autônoma
e individual cria um movimento coletivo organizado, que
interpretamos abstrata e alienadamente como "o Mercado", e erroneamente como
otimismo dos investidores em relação ao futuro. Em
ambos os casos, não importa a verdade da informação. Importa apenas como os outro
investidores reagirão às notícias divulgadas. O
que é um tanto surpreendente é que estes fenômenos são por
demais óbvios, para justificar a insistência do jornalismo
econômico em se ancorar em explicações a partir de expectativas
futuras. Por outro lado, o
novo governo tem jogado desde o início com tais mecanismos.
O fez, por exemplo, na crise do governo do estado do Rio de
Janeiro, na qual uma pantomima foi montada entre afirmações de
austeridades e liberações de dinheiro retido. O primeiro criava
a informação efêmera para o jogo especulativo, o segundo
agradava a base de sustentação política. Mas
se o jogo de informações funcionou desta vez, isto não é
garantia que funcionará sempre. Acreditar que se pode ser
vencedor neste jogo é uma aposta extremamente arriscada,
principalmente porque o mercado, em sua coletividade, tem uma
dinâmica extremamente complexa, o que obviamente limita a
capacidade de previsão das reações. Economistas do porte de Joseph
Stiglitz têm advertido sobre o quanto é
complexo os movimentos dos mercados, sob conjuntos incompletos de
informação. A
questão agora é: o governo Lula vai se manter refém de um
mercado manhoso? Ou em algum momento vai saber dizer não e
enfrentar a choradeira? Vai, como FHC nortear a política
macroeconômica nas bases da "recessão estimulada",
exigida pelo FMI? Ou vai reativar a economia produtiva, como
prometido em campanha? Infelizmente,
os sinais dados até este momento indicam que existe um grande
risco do governo se acomodar na posição confortável do
neo-conservador maduro, responsável, de barba aparada. Que vai se
desculpando pela inação; culpando a dificuldade de promover
"as reformas". Mantendo uma inflação moderada, ao custo de
13% de
juros anuais reais; mantendo superávit primário de 4% do PIB -
10%
da arrecadação pública -, ao custo de 37% de tributação.
Conforto efêmero, que é a receita certa para o desastre.
Só
para brincar com a metáfora do transatlântico, é bom lembrar
que o Titanic afundou porque não mudou de rumo.
(texto de Mario Barbatti)
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