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[29/jan/2003]
Fritjof Capra: Não li e não gostei
Quando
se trata de escolher o que se vai ler, o preconceito é
fundamental. Mesmo estando focado em determinado assunto, estarão
nas prateleiras dezenas de obras diferentes. E diante desta
diversidade, a gente toma consciência de que nossa capacidade de
leitura é extremamente restrita. Se a gente ler uns quinze livros
por ano, cento e cinqüenta ao final de uma década, teremos lido
menos que o número de novas publicações anuais, de uma única
boa editora.
Por
isto importa a qualidade. Não se abre qualquer coisa para ler.
Tem que ser bem recomendado, de preferência por um especialista.
O resenhista do jornal tem que ser muito competente na sua missão
de mostrar que há vida inteligente por trás daquela obra.
Prefácio, orelhas e contracapas ajudam, mas não contam muito:
sempre serão positivos. De qualquer modo, obviamente a decisão
final e soberana é a do leitor, de frente para a estante. Admito
que sou preconceituoso, quando a questão é decidir quem eu vou,
ou não, ler. Um dos autores que esteve na minha lista de
renegados ao esquecimento, por muitos anos, foi Fritjof Capra. Mas,
recentemente, eu estava num local cujo o único livro disponível
era "O Tao da Física", seu primeiro sucesso, da década
de 1970 [1]. Por falta de opção, resolvi dar-lhe uma chance, e saber
o tinha a dizer. No
fundo minha opinião a respeito de Capra antes da leitura não era
muito negativa. Até achava que o desprezo que o mundo intelectual
lhe dedicava, seria talvez motivado pelo preconceito com relação
à linguagem orientalista que este autor adotara, com uma dose de
inveja por seu sucesso editorial. Mas
eu estava enganado! "O Tao da Física" é uma porcaria
realmente. Li, nas primeiras cinqüenta páginas, uma quantidade tão
absurda de bobagens, enganos, má interpretações, que desisti
por ali mesmo. Capra, desde aquele momento, voltou para minha a
lista negra dos autores que não serão lidos. História
ruim Logo
no início de "O Tao da Física", Capra traça as linhas
gerais de uma história do pensamento do ocidente, que ele
pretende criticar. Parece um texto tirado de um manual de
filosofia pra imbecis. Um pouquinho de Pré-socráticos, pula
Platão e passa serelepe para Aristóteles:
"O
conhecimento científico da Antiguidade foi sistematizado e
organizado por Aristóteles, que criou o esquema que viria a se
tornar a base da visão ocidental do universo durante dois mil
anos. (...) A razão que permitiu a imutabilidade do modelo
aristotélico do universo por tanto tempo tem a ver exatamente
com esta ausência de interesse pelo mundo material, lado a lado
com o severo predomínio da Igreja Cristã, que apoiou as
doutrinas aristotélicas durante toda a idade média."
(p.24)
Capra
só se esquecera de um detalhe: Aristóteles só se tornou
conhecido na Europa ocidental, a partir do século 13. Como pode
ter predominado por dois mil anos? De certa forma, este engano é
compreensível, pois uma boa quantidade de divulgadores da
história da filosofia e da ciência o cometem. Capra só repetiu suas fontes. Repetiu
seus preconceitos também. Desprezou a profunda influência de
Platão sobre o pensamento do ocidente. E mostrou total incompreensão a respeito da
idade média: "o desenvolvimento posterior da ciência teve
que aguardar o Renascimento" (p.25). Mesmo
autores muito mais competentes cometem deslizes deste
tipo. Carl Sagan considerava a idade média como "uma longa
hibernação mística" ("Cosmos", p.187). E Marcelo
Gleiser faz coro com Capra:
"Por mais de 2 mil anos, do século IV a.C. até o século XVII, o pensamento de Aristóteles exerceu profunda influência no mundo ocidental.
De fato, podemos até dizer que a história da ciência durante esse
período se resume, grosseiramente, em duas partes. Na primeira, encontramos uma
série de tentativas semidesesperadas de fazer com que a Natureza e a teologia cristã
se adaptassem ao legado aristotélico. Na segunda, que ocupou os últimos cem anos
desse longo período, presenciamos o nascimento da ciência moderna, que por fim
levou ao total abandono das idéias aristotélicas."
(A dança do universo, p.72)
É
urgente que Koyré se torne leitura obrigatória nas faculdades! Capra
continua com sua história ocidental para imbecis. Dedica um
espaço maior para Descartes, e após resenhar didaticamente a
separação cartesiana entre matéria e espírito conclui:
"Esta
visão mecanicista de mundo foi sustentada por Isaac Newton, que
elaborou sua Mecânica a partir de tais fundamentos, tornado-a alicerce
da física Clássica." (p.25)
Calma
ai! Newton construiu a sua mecânica justamente para contrapô-la
ao mecanicismo de Descartes!
Newton era um místico que acreditava que qualquer filosofia da
natureza que não incluísse Deus, como agente ativo na dinâmica
do Universo, deveria ser combatida. E foi justamente por não se
conformar ao estrito mecanicismo cartesiano, que Newton foi capaz
de formular a lei da Gravidade, que propunha ação à distância
entre corpos. Mas
nada disto importa para Capra, afinal o que ele quer é apenas
concluir que todos os males da cultura do ocidente são devidos a nós mesmos
nos vermos como "egos isolados
existindo dentro de seus corpos" (p.25, grifos do
autor). Segundo Capra esta divisão cartesiana se estendeu ao
nível político, e explicam o racismo e as desigualdades! Sou
absolutamente leigo no que diz respeito às sofisticações do
pensamento oriental. Mas diante de um autor tão tosco no trato da
filosofia e história do ocidente, como eu poderia confiar nele
para guiar meus primeiros passos nas antigas tradições místicas
do oriente? Como poderia confiar em suas soluções para os
"males da civilização ocidental", se seu diagnóstico
demonstra tanta incompetência? Filosofia
ruim Capra
dá valor de conhecimento aos estados mentais típicos de
experiências místicas. Enquanto o "conhecimento
racional" é relativizado como "um sistema de símbolos
e conceitos abstratos, caracterizados pela estrutura seqüencial e
linear" (p.29), o conhecimento adquirido a partir das
experiências místicas ganha um status de absoluto. Sem nenhuma
justificativa, o saber apreendido pela experiência mística é
identificado com o "ser-em-si":
"O
misticismo oriental baseia-se na percepção direta da natureza
da realidade." (p.39)
O
aceso à realidade absoluta por meio da experiência mística é
um postulado de base para o pensamento de Capra, tal como ele o expressa em "O
Tao da Física". Tudo depende de você
aceitá-lo ou não. Não haverá nenhuma justificativa ou
discussão mais sofisticada. E
o conceito de experiência mística envolve um amplo leque
fenômenos mentais: intuição, insight, deja-vu,
iluminação, nirvana, estado meditativo, lembrar de repente de
uma palavra esquecida, entender uma piada. Capra põe tudo isto no
mesmo baú holístico-oriental e despreza completamente os diversos
processos cerebrais, que geram cada uma destas experiências. Mas,
segundo o autor, nem tudo está perdido para os coitados dos
ocidentais. O pensamento moderno, principalmente aquele oriundo da
física contemporânea, começa aos poucos a vislumbrar, o que
há muito os místicos já sabem:
"A
Física atômica forneceu aos cientistas os primeiros lampejos
da natureza essencial das coisas. (...) A partir de então, os
modelos e imagens da Física moderna tornaram-se semelhantes aos
da filosofia oriental." (p.46)
Mas
é claro que os processos dos físicos e dos místicos são
diferentes. E esta constatação leva a uma pérola que merece ser
transcrita na íntegra:
"Os
físicos efetuam experimentos que envolvem um complexo trabalho
de equipe e uma tecnologia altamente sofisticada; por sua vez os
místicos obtém seu conhecimento puramente através da
introspecção, sem a intervenção de qualquer máquina, no
silêncio da meditação. Os experimentos científicos, além
disso, parecem ser passíveis de repetição em qualquer época
por qualquer individuo; por seu turno, as experiências
místicas parecem reservadas a alguns poucos seres humanos em
ocasiões especiais. Uma análise mais cuidadosa demonstra,
contudo, que as diferenças entre os dois tipos de observação
residem unicamente em sua abordagem e não em sua confiabilidade
ou complexidade." (p.36)
Ou
seja, os processo são diferentes em sua natureza e metodologia,
mas têm os mesmo grau de "confiabilidade e
complexidade". (Isto talvez explique por que recentemente a companhia
de celulares Tim contratou um Pajé para impedir que chovesse no
dia de um show promocional, no Rio de Janeiro, ao invés de
consultar um meteorologista para saber se choveria ou não.) Foram
cinqüenta páginas penosas. Confesso que me foi impossível
continuar a leitura. Mas já se passaram quase trinta anos desde a
publicação de "O Tao da Física". Com certeza muito do
pensamento de Capra deve ter mudado. Deve estar mais sofisticado e
cuidadoso. Dizem que atualmente está mais procupado com questões
relativas à globalização e os problemas éticos da
biotecnologia. Realmente
não sei o que ele tem a dizer hoje, mas confesso que diante do
desastre intelectual que é a sua primeira obra, prefiro manter
uma distância segura. A partir de agora, quando me perguntarem o
que achei de seu novo livro, responderei - cínico como Graciliano
Ramos - não li e não gostei.
(texto
de Mario Barbatti)
[1]
O
Tao da Física, F. Capra, Cultirx, 2000.
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