Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[06/fev/2003] Carta ao povo brasileiro

Antes das eleições, Lula trouxe a público a "Carta ao povo brasileiro". Uma importante peça na retórica eleitoral, que garantia que o candidato cumpriria os compromissos econômicos assumidos por FHC.

Dizem que Lula gostaria hoje de publicar uma nova carta, mas as responsabilidades de chefe de governo não o permite. Imagino que, num desabafo sincero, o conteúdo seria mais ou menos o seguinte:

"Povo brasileiro,

Estou convencido que os quase 53 milhões de votos que me elegeram para a presidência da república representam as mais profundas esperanças de mudança da sociedade brasileira. Representam o amadurecimento político de cada homem e mulher, que deixaram que a esperança vencesse o medo. Por isto, eu quero garantir a todos vocês, que nos próximos quatro anos, aconteça o que acontecer, eu não me afastarei um milímetro dos ideais que me fizeram, por todos estes anos, lutar por um Brasil mais justo. 

Sei que cometerei erros, mas nunca agirei de má-fé; nunca negarei minhas origens; nunca negarei meu sonho de ver cada homem, cada mulher e cada criança comendo três vezes ao dia. Defenderei o desenvolvimento nacional, a geração de empregos, a reforma agrária, a nossa indústria e a nossa agricultura. 

Lutarei com firmeza contra o protecionismo dos países desenvolvidos, para que o Brasil tenha a possibilidade de se desenvolver. Lutarei, o sonho de toda a esquerda latino-americana, de ver uma verdadeira e fraternal união dos países de nosso continente.

Mas nada disto é novidade. E se tenho repetido à exaustão estas palavras é para que ninguém duvide da integridade de minha pessoa, da honestidade de minhas intenções. 

Muitos, mesmo dentre os que depositam em mim suas esperanças, me têm cobrado um projeto pelo qual este ideal de nação próspera e soberana será alcançado. Sinto que mesmo fora do Brasil, políticos e intelectuais da Europa, da Ásia e da América Latina esperam de mim um projeto de salvação dos ideais de esquerda; uma terceira via, como se convencionou chamar.

E a todos estes, eu agora respondo: Não há projeto. 

Nem eu, nem o PT temos um projeto. É óbvio que não sou um intelectual, tal como meu ilustre antecessor. Por isso converso muito, com muita gente inteligente e preparada. Com Antônio Cândido, com Frei Betto, com Maria da Conceição, com Emir Sader, e com quantos mais? E de todos eu tenho a mesma impressão: não têm a menor idéia do que seria hoje um projeto nacional. A principal cabeça de nosso partido, meu companheiro Tarso Genro, até pensa que tem um projeto para o país, mas não tem também não.

Temos todos um monte de honestas intenções. Mas não temos a menor idéia de como vamos realizá-las. 

Aprendemos já coisas importantes. Aprendemos, por exemplo, que, em se tratando da sociedade, ninguém detém a verdade total e absoluta. Por isso temos que dialogar e debater o tempo todo. Pelo menos, até que uma decisão precise ser tomada, e nesse momento a palavra última será minha.

Acreditamos na democracia como guia. No humanismo como fim. Mas não temos projeto. Vamos, por enquanto, mais ou menos ao sabor do vento. Deixando que verdades do tecnicismo econômico nos guiem um pouco. Seguindo a bússola da política cotidiana, da negociação com o Congresso; do Decreto Lei enviesado; do mercado de cargos públicos.

Deixamos que os ventos nos guiem, para ver se encontramos uma nova corrente, que nos leve aos portos desejados. Ora, sejamos sinceros. O PT em toda a sua trajetória sempre teve mais envolvido com a crítica aos projeto conservadores, do que realmente com a proposição de seu próprio projeto. Os críticos antigos estavam certos: éramos o partido do contra. Hoje sentimos o peso desta opção. 

Notem que nunca defendemos um modelo de sociedade comunista ou socialista, apesar da retórica de alguns documentos e de alguns companheiros. Sempre flertamos com a social democracia, mas nunca discutimos seriamente sobre como poderíamos (e se seria possível) criar um estado de bem estar social no Brasil. Hoje até desconfiamos de que, para alcançar este objetivo, o caminho é o do desenvolvimento do sistema capitalista brasileiro.

Não que tenha sido irresponsabilidade nossa, chegar ao poder sem um projeto de país. É que a demanda era maior que nossa competência. Compreender e teorizar sobre o mundo e o Brasil contemporâneos; propor alternativas; e ainda atuar na política do dia-a-dia. 

Para Fernando Henrique fora tudo mais fácil. Ele acreditava que tinha só que seguir os preceitos do Consenso de Washington - inflação baixa, austeridade fiscal e orçamentária, privatização, livre comércio - e os mercados se encarregariam de promover o desenvolvimento.

Mas nós nunca aceitamos estes preceitos. Agora nos cabe o ônus da prova. 

Por isso eu peço paciência. Mesmo quando nossos passos forem tortos, saibam que não estaremos abandonando o povo sofrido deste país. Estaremos apenas procurando os caminhos que nos levem ao nosso sonho de uma sociedade mais justa."

(texto de Mario Barbatti)

 


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