"Povo
brasileiro,
Estou
convencido que os quase 53 milhões de votos que me elegeram para
a presidência da república representam as mais profundas
esperanças de mudança da sociedade brasileira. Representam o
amadurecimento político de cada homem e mulher, que deixaram que
a esperança vencesse o medo. Por isto, eu quero garantir a todos vocês, que nos próximos quatro anos,
aconteça o que acontecer, eu não me afastarei um milímetro dos
ideais que me fizeram, por todos estes anos, lutar por um Brasil mais
justo.
Sei
que cometerei erros, mas nunca agirei de má-fé; nunca negarei
minhas origens; nunca negarei meu sonho de ver cada homem, cada
mulher e cada criança comendo três vezes ao dia. Defenderei o
desenvolvimento nacional, a geração de empregos, a reforma
agrária, a nossa indústria e a nossa agricultura.
Lutarei
com firmeza contra o protecionismo dos países desenvolvidos,
para que o Brasil tenha a possibilidade de se desenvolver.
Lutarei, o sonho de toda a esquerda latino-americana, de ver uma
verdadeira e fraternal união dos países de nosso continente.
Mas
nada disto é novidade. E se tenho repetido à exaustão estas
palavras é para que ninguém duvide da integridade de minha
pessoa, da honestidade de minhas intenções.
Muitos,
mesmo dentre os que depositam em mim suas esperanças,
me têm cobrado um projeto pelo qual este ideal de nação
próspera e soberana será alcançado. Sinto que mesmo fora do
Brasil, políticos e intelectuais da Europa, da Ásia
e da América Latina esperam de mim um projeto de salvação dos
ideais de esquerda; uma terceira via, como se convencionou
chamar.
E
a todos estes, eu agora respondo: Não há projeto.
Nem
eu, nem o PT temos um projeto. É óbvio que não sou um intelectual,
tal como meu ilustre antecessor. Por isso
converso muito, com muita gente inteligente e preparada. Com
Antônio Cândido, com Frei Betto, com Maria da Conceição, com Emir
Sader, e com quantos mais? E de todos eu tenho a mesma impressão:
não têm a menor idéia do que seria hoje um projeto nacional. A
principal cabeça de nosso partido, meu companheiro Tarso Genro, até pensa que tem um
projeto para o país, mas não tem também não.
Temos
todos um monte de honestas intenções. Mas não temos a menor
idéia de como vamos realizá-las.
Aprendemos
já coisas importantes. Aprendemos, por exemplo, que, em se
tratando da sociedade, ninguém detém a verdade total e
absoluta. Por isso temos que dialogar e debater o tempo todo.
Pelo menos, até que uma decisão precise ser tomada, e nesse
momento a palavra última será minha.
Acreditamos
na democracia como guia. No humanismo como fim. Mas não temos
projeto. Vamos, por enquanto, mais ou menos ao sabor do vento.
Deixando que verdades do tecnicismo econômico nos guiem um
pouco. Seguindo a bússola da política cotidiana, da
negociação com o Congresso; do Decreto Lei enviesado; do
mercado de cargos públicos.
Deixamos
que os ventos nos guiem, para ver se encontramos uma nova
corrente, que nos leve aos portos desejados. Ora, sejamos
sinceros. O PT em toda a sua trajetória sempre teve mais
envolvido com a crítica aos projeto conservadores, do que
realmente com a proposição de seu próprio projeto. Os
críticos antigos estavam certos: éramos o partido do contra.
Hoje sentimos o peso desta opção.
Notem
que nunca defendemos um modelo de sociedade comunista ou
socialista, apesar da retórica de alguns documentos e de alguns
companheiros. Sempre flertamos com a social democracia, mas
nunca discutimos seriamente sobre como poderíamos (e se seria
possível) criar um estado de bem estar social no Brasil. Hoje
até desconfiamos de que, para alcançar este objetivo, o caminho
é o do desenvolvimento do sistema capitalista brasileiro.
Não
que tenha sido irresponsabilidade nossa, chegar ao poder sem um
projeto de país. É que a demanda era
maior que nossa competência. Compreender e teorizar sobre o mundo
e o Brasil contemporâneos; propor alternativas; e ainda atuar na política
do dia-a-dia.
Para
Fernando Henrique fora tudo mais fácil. Ele acreditava que tinha só
que seguir os preceitos do Consenso de Washington - inflação
baixa, austeridade fiscal e orçamentária, privatização, livre comércio - e
os mercados se encarregariam de promover o desenvolvimento.
Mas
nós nunca aceitamos estes preceitos. Agora nos cabe o ônus da
prova.
Por
isso eu peço paciência. Mesmo quando nossos passos forem
tortos, saibam que não estaremos abandonando o povo sofrido
deste país. Estaremos apenas procurando os caminhos que nos
levem ao nosso sonho de uma sociedade mais justa."