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[03/mar/2003]
O ano em que perdemos a oportunidade de ouro
"A
economia não é como receita de bolo, que se pode mudar
alterando os ingredientes. Se tiverem sugestão de como fazer
melhor, estamos abertos." Antônio Palocci, Ministro da
Fazenda, 30/jan/2003.
1.
A hora da crítica ao Fundo
O
que o
nobel de economia em 2001 Joseph Stiglitz, o ex-presidente de
Portugal e deputado europeu Mario Soares e o mega especulador
George Soros pensam em comum? Todos eles têm declarado que o
Brasil é o teste de fogo para o FMI. Dizem que se o país
fracassar, será a pá de cal sobre as políticas neoliberais
impostas pelo Fundo.
Mas
o Brasil sensato não quer pagar para ver. Ainda mais quando olha
para a longa coleção de fracassos do Fundo, México, Argentina, Rússia,
Coréia do Sul e mesmo Brasil, isto sem contar com o sucesso
econômico daqueles que se negaram a seguir as suas
recomendações, a começar pelos EUA de Clinton, a China, a
Polônia, a Malásia, a Romênia. (Sim, há aqueles que não
baixam a cabeça para o FMI, e nem por isso desaparecem do mapa
global.)
Na
perspectiva do mercado financeiro, o "Brasil fracassar"
significa deixar de honrar seus compromissos com os credores. Mas
cá entre nós, estamos falando de um país que por anos mantém a
taxa de desemprego em dois dígitos, e no qual em duas décadas o
crescimento econômico mal compensou o crescimento vegetativo da
população. Sejamos sinceros: o Brasil já fracassou! Não há
mais o que esperar.
Não
que se deva fechar as portas ao FMI e cancelar o pagamento das
dívidas. Mas há espaço para manobra. Junto com os fracassos do
FMI, as críticas internacionais vem se acumulando, e o Fundo já
não pode mais bancar de Todo-Poderoso. O governo brasileiro e em
especial o presidente Lula, que quer consolidar a liderança
internacional do país, deveriam estar neste momento
respeitosamente batendo no FMI. Deixando claro que o país precisa
deixar a política de recessão estimulada para trás, e seguir
rumo ao crescimento econômico. Os intelectuais do governo
deveriam estar recomendando que o Fundo começasse a abandonar o
Consenso de Washington, e voltasse a se posicionar numa
perspectiva Keynesiana, como fora sua missão original à época
de sua criação [1].
Mas
o que vemos é um governo que aumenta o superávit primário mesmo
sem o FMI recomendar! Um banco central que não conhece outra arma
anti-inflacionária, que o aumento de juros. Ou seja, numa época
em que existe a possibilidade e o clima mundial favorável para a
crítica ao FMI; em que os cidadãos, políticos, intelectuais e
até investidores de todos os continentes compreendem que a
instituição deve ser reestruturada, o governo brasileiro (logo o
governo de Lula!) vem servir de arauto para a política do
fracasso.
2.
Crescimento econômico com política de recessão?
O
governo aposta, e aposta errado, que o crescimento econômico se
dará trabalhando em três frentes: (i) retomada da confiança do
capital externo (reforma da previdência, medidas monetárias e
orçamentárias conservadoras, controle da inflação); (ii)
barateamento do produto de exportação nacional (controle do
câmbio, reforma tributária); e (iii) aumento de crédito para as
pequenas e médias empresas (regulamentação de cooperativas de
crédito).
A
primeira frente tem impacto recessivo. A segunda é limitada pois
esbarra no cenário recessivo mundial. A terceira é tímida no
contexto das políticas macroeconômicas recessivas. Ou seja, este
não é o caminho para o crescimento da economia. O que o governo
espera? Que se chegue a uma situação na qual as reservas de
dólares serão tão altas que seremos imunes aos ataques
especulativos, e poderemos finalmente soltar as amarras da
produção?
Diminuição
do desemprego, aumento da participação dos salários no PIB,
aumento do mercado e do consumo interno, redução da carga
tributária não fazem parte do discurso federal. E são
justamente estes pontos que implicam em aumento da qualidade de
vida da população e em redução da pobreza.
É
realmente necessário jogar às claras e dizer a que senhor se serve.
O presidente do Banco Central afirmou recentemente que a política
econômica é semelhante à do governo anterior, pois isto é o
correto a se fazer. A diferença entre Lula e FHC estaria na
prioridade dos investimentos com o que restar do orçamento.
Sábios de todas as matizes políticas afirmam sem titubear que o
controle da inflação é para proteger o trabalhador:
"lembra da hiperinflação?"
3.
Controle do dragão
Mentira!
Controle da inflação é feito para proteger o capital financeiro
que vê seus ganhos corroídos pelos aumentos de preços. Tanto é
assim, que a principal medida de controle inflacionário tem sido
a indexação da taxa Selic à taxa de inflação, o que provoca
encolhimento da produção, aumento do desemprego, redução dos
salários, mas garantem o rendimento do investidor dos títulos
públicos. Agora, responda rápido: em que medida o controle da
inflação via recessão estimulada protege o salário ou capital
produtivo? E o financeiro?

Taxas de juros nominais e reais
da economia brasileira [2].
Como
a inflação atual é quase toda oriunda de preços de impostos e
tarifas administrados pelo governo, a política anti-inflacionária só tem três vencedores: o próprio governo,
que abocanha parcelas cada vez maiores do PIB através da
tributação; as empresas concessionárias, que foram presenteadas
com aumentos de 200 a 500% (563,1% no caso do gás de cozinha),
enquanto a inflação de janeiro de 1995 a dezembro de 2002
acumulou apenas 100,7%; e, claro, o capital financeiro que não
só teve seus rendimentos assegurados, como os viu carinhosamente
dolarizados ao final do governo FHC.
"Mas
lembra da hiperinflação?" E os economistas do governo
continuam nos chamando de idiotas. Claro que qualquer cenário de
hiperinflação é recessivo e prejudicial aos trabalhadores. Mas
não é isto que estamos vivendo. Não queiramos comparar inflação
de 15% ao ano com inflação de 84% ao mês, do final governo Sarney. Os ilustres economistas argumentam que o patamar
de 15% é perigoso, pois criaria uma auto-alimentação que
levaria à hiperinflação. Mas estes economistas não acreditam
no poder regulatório do livre mercado? Preços não podem subir
indefinidamente se não houver quem pague por eles, e muito menos
em um ambiente de concorrência... O
raciocínio indutivo de que inflação leva à hiperinflação
não é óbvio, nem auto-evidente, nem comprovado. É um ato de
fé, boa ou má.
4.
Oportunidades jogadas fora
O
Fundo Monetário Internacional trata o controle inflacionário
como um objetivo em si mesmo. O governo brasileiro também. Mas
isto é um erro. Os
objetivos das políticas econômicas devem ser apenas dois: 1)
garantir o pleno emprego no curto prazo; e 2) garantir o crescimento
econômico no médio e longo prazos.
As
política econômicas brasileiras desde o Plano Real perderam
estes objetivos de vista. Emprego
e crescimento deixaram de ser metas, e tornaram-se utopias. Algo
que, contra todas as evidências empíricas, estará no fim da
estrada de tijolos dourados do controle inflacionário e da
retomada da confiança do capital externo.
Contra
tudo que os ideólogos defensores do capital financeiro nos
forçam a acreditar, temos que aprender que controle de fluxo
de capitais, renegociação de pagamentos, dívidas e contratos
são técnicas legítimas na administração econômica, e não
instrumentos diabólicos de comunistas ligados a Fidel.
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O
Brasil está jogando oportunidades fora. A de construtivamente
criticar o FMI e se afastar do Consenso de Washington. A de
utilizar o cenário de inflação moderada para deixar a economia
crescer. E se a dívida pública tem que crescer, como o fez
miseravelmente nos últimos anos, que seja porque o Estado
está investindo no desenvolvimento do setor produtivo, e
não porque está chafurdando no pagamento da jogatina
especulativa. |

Dívida pública líquida
(% do PIB)
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O
que mais assusta é não vermos, à direita ou à esquerda,
forças políticas que compreendam esta situação, e digam com
todas as letras: o que queremos é o desenvolvimento do Brasil
como um país capitalista. Com um empresariado competitivo e
trabalhadores de alto-nível. Um país forte em suas
exportações, mas também forte nas importações, pois sabe que
o sistema só pode funcionar, se os fluxos de capital forem em
todos os sentidos. Um governo que não tenha este medo neurótico
de que o povo consuma. Um estado que seja capaz de proporcionar
uma base competente de segurança social para todos.
É
pedir muito?
(texto de Mario Barbatti)
[1]
Para uma discussão competente sobre este ponto ver J. Stiglitz,
"A Globalização e seus Malefícios", Ed. Futura, 2002.
(Voltar) [2]
O Globo, 17/Jan/2003. (voltar)
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