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[10/mar/2003]
Dúvidas de um cidadão intrigado
Como
cidadão mais ou menos decente, que honra a maior parte dos
impostos que deve, fico intrigado com uma série de questões que
nem a mídia, nem os doutos, nem as autoridades costumam tratar
com mais detalhes. Em
particular, relacionadas aos recentes episódios de violência carioca, me
quase tiram o sono, as seguintes questões:
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Por
que os traficantes fizeram aquela baderna? A óbvia repressão
que viria nos dias seguintes não seria prejudicial para os
negócios deles? Ou eles são muito burros para entender isto?
Ou eles são mais espertos que a gente, e sabem que a
repressão não mexe onde tem que mexer?
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Por
que um homem inteligente, com uma imensa capacidade de
empreendimento, liderança e organização, em nível nacional
e internacional, bandeia-se para tráfico de drogas e torna-se
um odioso assassino e narcotraficante? Genético ou Cultural? E se este mesmo
homem, com todo este potencial, tivesse escolhido uma vida
laboriosa e honesta? Em que posto de gasolina ou linha de
ônibus estaria trabalhando agora? Até quando o país vai se
dar ao luxo de jogar gente talentosa no lixo?
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O
que você sentiria se morasse numa favela, e fosse um rapaz
com uns quinze ou vinte anos, e toda vez que voltasse do
trabalho, dois policiais pesadamente armados imprensassem
você contra uma parede, para revistar sua sacola do
supermercado? E se de manhã, ao descer o morro para ir
trabalhar, ao chegar na rua, visse tanques e metralhadoras
apontadas para a sua casa, para a casa de seus pais, para a
casa de seus
vizinhos, para a sua igreja? Sentiria ódio ou revolta? Se
perguntaria por que vale a pena ser honesto, se você sempre
vai ser tratado como bandido?
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Por
que no uníssono "bandido bom é bandido morto", que
ouvimos na ladainha das autoridades de todos os níveis, não
ouvimos também medidas para punir os responsáveis pela
entrada de uma centena de celulares e um computador em Bangu?
Por que junto com a promessa de colocar dezenas de milhares de
policiais nas ruas, não ouvimos anunciar nenhuma medida de
controle efetivo das penitenciárias e dos arsenais militares? Aliás, por que
celulares em Bangu, se há bloqueadores por lá?
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Por
que com milhares de policiais militares, civis, federais,
municipais e homens do exército patrulhando as ruas cariocas,
fazendo incursões nas favelas, fiscalizando rodovias, os
índices de criminalidade permanecem os mesmos que os de antes
da ação policial ostensiva?
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Será
que o professor Frederico Branco de Faria se sentia mais
seguro por saber que um monte de soldados sem treinamento para
trabalho policial, compulsoriamente arriscando suas vidas,
estavam na blitz que o mataria?
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Sem
saída: o exército permanece patrulhando as ruas do Rio,
usando as sua mais avançadas tecnologias.
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Até quando o Sr. Josias Quintal, secretário de segurança de Garotinho e agora de Rosinha Garotinho
permanecerá no poder? Por que o Rio de Janeiro tem que se sujeitar
a absurda incompetência deste
senhor que manipulava a divulgação das estatísticas sobre a
violência no governo de Garotinho, enquanto assistia os
números dispararem?
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Por que tão rapidamente nos esquecemos que o coronel
Quintal pertencera aos quadros do DOI-CODI/RJ durante a ditadura militar? Será que este passado sombrio do Sr. Quintal explica por que
há duas semanas atrás, no dia 24 de fevereiro de 2003, o presidente do Sindicato Estadual
de Professores, Gualberto Tinoco, foi preso durante uma greve, com base em mandado de prisão expedido em 1976?
Explica a ansiedade nostálgica que o sr. Quintal aparenta
quando defende a permanência do exército nas ruas por tempo
indeterminado?
Mas
todas estas questões devem ser banais, oriundas de minha
ignorância nas matérias de segurança pública. De outro modo,
elas já teriam sido respondidas ou, pelo menos, formuladas.
(texto de Mario Barbatti)
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