Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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Defenestrando idéias
   
O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[10/mar/2003] Dúvidas de um cidadão intrigado

Como cidadão mais ou menos decente, que honra a maior parte dos impostos que deve, fico intrigado com uma série de questões que nem a mídia, nem os doutos, nem as autoridades costumam tratar com mais detalhes. Em particular, relacionadas aos recentes episódios de violência carioca, me quase tiram o sono, as seguintes questões:

  • Por que os traficantes fizeram aquela baderna? A óbvia repressão que viria nos dias seguintes não seria prejudicial para os negócios deles? Ou eles são muito burros para entender isto? Ou eles são mais espertos que a gente, e sabem que a repressão não mexe onde tem que mexer?

  • Por que um homem inteligente, com uma imensa capacidade de empreendimento, liderança e organização, em nível nacional e internacional, bandeia-se para tráfico de drogas e torna-se um odioso assassino e narcotraficante? Genético ou Cultural? E se este mesmo homem, com todo este potencial, tivesse escolhido uma vida laboriosa e honesta? Em que posto de gasolina ou linha de ônibus estaria trabalhando agora? Até quando o país vai se dar ao luxo de jogar gente talentosa no lixo?  

  • O que você sentiria se morasse numa favela, e fosse um rapaz com  uns quinze ou vinte anos, e toda vez que voltasse do trabalho, dois policiais pesadamente armados imprensassem você contra uma parede, para revistar sua sacola do supermercado? E se de manhã, ao descer o morro para ir trabalhar, ao chegar na rua, visse tanques e metralhadoras apontadas para a sua casa, para a casa de seus pais, para a casa de seus vizinhos, para a sua igreja? Sentiria ódio ou revolta? Se perguntaria por que vale a pena ser honesto, se você sempre vai ser tratado como bandido?

  • Por que no uníssono "bandido bom é bandido morto", que ouvimos na ladainha das autoridades de todos os níveis, não ouvimos também medidas para punir os responsáveis pela entrada de uma centena de celulares e um computador em Bangu? Por que junto com a promessa de colocar dezenas de milhares de policiais nas ruas, não ouvimos anunciar nenhuma medida de controle efetivo das penitenciárias e dos arsenais militares? Aliás, por que celulares em Bangu, se há bloqueadores por lá? 

  • Por que com milhares de policiais militares, civis, federais, municipais e homens do exército patrulhando as ruas cariocas, fazendo incursões nas favelas, fiscalizando rodovias, os índices de criminalidade permanecem os mesmos que os de antes da ação policial ostensiva?

  • Será que o professor Frederico Branco de Faria se sentia mais seguro por saber que um monte de soldados sem treinamento para trabalho policial, compulsoriamente arriscando suas vidas, estavam na blitz que o mataria?

Sem saída: o exército permanece patrulhando as ruas do Rio, usando as sua mais avançadas tecnologias. 

  • Até quando o Sr. Josias Quintal, secretário de segurança de Garotinho e agora de Rosinha Garotinho permanecerá no poder? Por que o Rio de Janeiro tem que se sujeitar a absurda incompetência deste senhor que manipulava a divulgação das estatísticas sobre a violência no governo de Garotinho, enquanto assistia os números dispararem? 

  • Por que tão rapidamente nos esquecemos que o coronel Quintal pertencera aos quadros do DOI-CODI/RJ durante a ditadura militar? Será que este passado sombrio do Sr. Quintal explica por que há duas semanas atrás, no dia 24 de fevereiro de 2003, o presidente do Sindicato Estadual de Professores, Gualberto Tinoco, foi preso durante uma greve, com base em mandado de prisão expedido em 1976? Explica a ansiedade nostálgica que o sr. Quintal aparenta quando defende a permanência do exército nas ruas por tempo indeterminado?

Mas todas estas questões devem ser banais, oriundas de minha ignorância nas matérias de segurança pública. De outro modo, elas já teriam sido respondidas ou, pelo menos, formuladas.

(texto de Mario Barbatti)

 


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