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[18/mar/2003]
Divagações sobre revoluções e seus tempos
Ler
Kafka foi uma das minhas grandes experiências com a literatura. Por
anos, foi quase que o único autor a merecer minha atenção. Não
que sua prosa me empolgasse por ela própria - aí prefiro Machado
de Assis, Proust ou até Gilberto Freire - mas me deliciava nas
atmosferas criadas pelas suas narrativas; no absurdo do mundo em
que viviam seus personagens. A
eterna ignorância dos narradores kafkianos, tão ignorantes
quanto os próprios personagens, serviu para mim como metáfora do
nosso próprio mundo, no qual o não saber para onde se caminha é
a regra. Assim, seja K. atônito diante da sua detenção, seja o
agrimensor cada vez mais emaranhado na estrutura burocrática do
castelo, o operário tecendo suas considerações políticas sobre
a China e suas muralhas, o homem diante da porta da Lei tentado
corromper o guarda, todos
são retratos de nós mesmos, perdidos num mundo incrivelmente
complexo e intricado, ao mesmo tempo criando interpretações tão
precisas quanto falsas para sanar nosso essencial estranhamento diante do mundo.
Alienação e reificação, no bom e velho vocabulário marxista. E
assim eu lia Kafka: um autor moderno; forma e conteúdo que só o
vigésimo século poderia produzir. Mas então veio Foucault, em
"Vigiar e Punir" - obra que conheço pouco, só de folhear - e
conta em alguma parte que uma característica básica do sistema
penal europeu, anterior ao que conhecemos desde o início do XIX, era a de manter o acusado em permanente
ignorância, às vezes até mesmo sobre a acusação que lhe era
imputada. Foucault também discute a natureza das penas, o que era
espetáculo, público e punitivo, transforma-se, na modernidade,
em processo administrativo e corretivo. Não
posso avaliar a validade destas análises, mas desde que as li,
há vários anos, deixou uma daquelas pulguinhas incômodas no meu
pensamento. E se Kafka, para além da modernidade de seu estilo
estivesse buscando seu conteúdo mais num passado, e não no absurdo
do mundo que a Europa imperialista estava parindo? Pelos menos em
dois casos as afirmações de Foucalt pareciam corroborar esta
hipótese; pois não era o processo em sigilo o caso de K.? E
não era espetáculo público e punitivo a máquina de tortura da
colônia penal, com suas agulhas talhando no corpo do sentenciado,
da pele aos ossos, o crime que lhe fora imputado? Estes
dois casos não têm nada a ver com o autoritarismo burocrático
moderno, seja ele capitalista ou comunista. Nem têm nada a
ver com Freud e a submissão de Kafka ao seu pai judeu e
autoritário, ou com a angústia existencial de Heidegger, ou com a crítica cultural de
Adorno. Divagações...
Divagações para as quais, reconheço, me falta a competência
para aprofundar. Mas
acho que sobra algo que já encontrei em outras ocasiões: uma
convergência de épocas, que tendemos a ver como rupturas, mas
que numa segunda visada, encontramos continuidade. Já
faz bastante tempo, me dediquei, com um certo grau de seriedade, a
estudar a história da filosofia natural do século XVII, em
particular as questões ligadas a Isaac Newton [1]. Li alguns
manuscritos e livros originais, um monte de fontes secundárias, e a
principal conclusão a que cheguei era que Newton era um homem
típico de seu próprio tempo! Conclusão
tão óbvia, quanto embaçada pelo mito de sua genialidade, que nos
faz o ver como alguém extemporâneo, promovendo uma profunda
revolução nos conhecimentos de sua época. Fenômeno típico que
ocorre aos grandes nomes como os de Bach, Darwin ou Einstein. A
longo prazo, digamos duzentos anos, não tenho dúvida que Newton
representou uma revolução cultural. Que suas geniais teorias
sobre mecânica e óptica tiveram um impressionante impacto sobre
a cultura européia. Mas este é o longo prazo, que às vezes cega
o historiador para a coisa pequena do cotidiano. Olhando
Newton no seu dia a dia. Acompanhando seus manuscritos, cartas e
livros da
juventude e da maturidade. Comparando o que ele escrevia, com o
que escreviam seus contemporâneos e predecessores, eu não
consegui encontrar a tal Revolução: toda sua solidez histórica se
desmanchara sob a leveza da rotina de Cambridge. Nesta
outra escala de tempo, encontrei um homem com inteligência
realmente atípica, no lugar certo, conversando com as pessoas
certas (o que teria sido Newton no Brasil colonial?). Fortemente incomodado com o "ateísmo" de Descartes e influenciado
por nomes hoje obscuros como o de Pierre Gassendi, Henry More ou o
do jesuíta Francesco Patrizi.
Um homem ainda medieval tentando construir uma filosofia natural a
partir de uma teogonia: em que deixaria a desejar com relação a
Agostinho? E
este é o problemas das escalas de tempo. O que é revolução
numa, é continuidade em outra. O novo nasce lento, o tempo o vai
parindo devagar, preguiçoso, e é só o historiador afoito que
quer, num golpe de caneta, transformar tudo em espetaculares
cesarianas e mudanças de paradigmas. Renascimento Italiano,
Revolução Industrial, Teoria Quântica, qualquer evento que
marque uma transição de alguma espécie no fazer humano conterá
em si o velho e o novo, sutilmente misturados no tempo do
cotidiano. Por isto não me deixo mais surpreender pelas armadilhas do tempo
narrado pelo historiador. Newton é revolucionário e medieval. Kafka é moderno
contando antiguidades. Eles estão, como nós mesmos, no fluxo de seu
tempo; no Espírito
do seu tempo. Aquela coisa que guarda o peso do passado e faz
Boltzmann e Nietzsche inventarem o Eterno Retorno, paralela e
independentemente um do outro; ou que faz da América ícone da
democracia e, ao mesmo tempo, exemplo de estado autoritário e
burocrático. Mas estas são outras histórias, que deixo para
outros tempos.
(texto de Mario Barbatti)
[1]
M. Barbatti, A
Filosofia Natural à Época de Newton, Revista
Brasileira de Ensino de Física, 21, 153 (1999). M.
Barbatti, Conceitos Físicos e Metafísicos no Jovem
Newton: Uma Leitura do de Gravitatione, Revista
da Sociedade Brasileira de História da Ciência, n.17, 59 (1997).
Ambos os artigos podem ser obtidos na seção História
da Ciência.
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