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[24/mar/2003]
Cenários da Guerra
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Para
me unir à monotonia do noticiário, resolvi escrever sobre
a guerra.
Também me incomodam o desrespeito às leis
internacionais, a arrogância do governo americano e blá, blá, blá.
Mas dado que a guerra é fato, podemos tentar entender o que
mais interessa agora: o que será do mundo no pós-guerra.
Acho que é possível distinguir alguns cenários diferentes,
alguns bons, outros ruins, para o desfecho óbvio, a queda do regime de Saddam Hussein.
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A tomada de Bagdá num
assalto americano é transmitida ao vivo pela TV.
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1.
Superotimista Após
a queda de Saddam, os americanos tomam conta do petróleo
iraquiano, por meio de um regime fantoche em Bagdá. Mas o custo
da guerra foi alto: milhares de soldados americanos morreram ou
massacraram grandes populações civis no Iraque. O peso sobre
Bush é muito grande e a volátil opinião pública de seu país
lhe impõe uma humilhante derrota eleitoral. Um democrata sobe ao
poder e, com a vantagem do petróleo para se contrapor ao cartel da
OPEP, os EUA vivem uma nova era de crescimento econômico. O
crescimento americano impulsiona a economia mundial, incluindo a
nossa, é claro. Mas
cenários superotimistas quase violam a segunda lei da
termodinâmica, e são muito difíceis de ocorrer. Neste caso, em
particular, teríamos que ver erros estratégicos grosseiros por
parte dos militares americanos ou ações surpreendentemente
eficientes por parte dos iraquianos. De qualquer forma, a incógnita
desta equação é como Bagdá será tomada. Por rendimento
rápido das tropas iraquianas? Por uma eficiente entrada massiva
de forças americanas? Por uma longa guerra de guerrilhas? Estas
duas últimas opções poderiam ser o gatilho para derrocada de Bush. 2.
Otimista Após
a queda de Saddam e sua corja, os americanos nadam no petróleo
iraquiano. Montam um conselho tribal confiável e simpático aos
interesses do Tio Sam. O custo da guerra foi relativamente baixo, e o idiota
texano posa como grande líder protetor da América e da
Liberdade, reelegendo-se facilmente. Mas no novo governo, ele passa
a ouvir vozes mais preocupadas com questões econômicas, como o
controle do rombo orçamentário. Donos de fato (não de direito)
do petróleo iraquiano e com os ânimos belicistas mais
arrefecidos, os EUA voltam a crescer significativamente, e como no
primeiro cenário, levam consigo o resto do
mundo. Teríamos,
é claro, que suportar a tacanheza e arbitrariedade de Bush Jr.
por mais tempo. Seria um bom tempo para aqueles que gostam de jogar fumaça no ar. 3.
Pessimista Caiu
Saddam, o petróleo é americano e o custo da guerra foi
razoável. Bush ganha as eleições, mas permanece o espírito
beligerante. Agora será a vez de quem? Coréia do Norte? Líbano?
Síria? Irã? Todos juntos? A
segurança americana é a palavra de ordem, mesmo sem nenhuma
ameaça considerável. CIA, NSA e FBI trabalham com competência
para manter os americanos em um constante estado de medo,
divulgando alertas e deixando acontecer (ou, quem sabe?,
promovendo) pequenos atentados, que justifiquem a Cruzada de Bush. O
mundo permanece em tensão de guerra e a economia, estagnada. O
mundo islâmico está em polvorosa e a Europa, politicamente
rachada, não consegue propor alternativas ao belicismo gratuito
americano. É
um cenário muito ruim e assustadoramente plausível. 4.
Superpessimista A
partir do cenário anterior, sem uma instituição supra-nacional
sólida e com ondas crescentes de anti-americanismo, os casos de
terrorismo se multiplicam pelo mundo. Tais eventos legitimam
ações de "segurança" de outras nações: controles
rígidos de imigração; controle de informação; e - para o bem dos
cidadãos - restrições sobre manifestações públicas e
suspensão de alguns direitos civis podem ser aplicadas. Israel,
que nunca levou muito a sério a instituição que assinou a sua
certidão de nascimento, aproveita para expandir os assentamentos
e segregar os palestinos. China encontra espaço para reivindicar
seus direitos sobre Taiwan. Coréia do Norte olha cobiçosa para o
sul.
A unilateralidade americana é um golpe de morte sobre o
tratado de não proliferação nuclear. O Conselho de segurança
da ONU, impotente, assiste ao crescimento das tensões entre
Índia e Paquistão. Movimentos nacionalistas
de grupos e etnias são duramente reprimidos na Rússia, na
Indonésia e na Malásia, ao mesmo tempo que o metrô se torna uma
opção cada vez menos segura para se ir ao trabalho, em qualquer
lugar do mundo.
Colômbia, Cuba, Irlanda,
Espanha, Costa do Marfim, Sudão: todos terão algo a acrescentar à história de como um
idiota texano conseguiu levar o mundo a uma nova era de trevas.
(texto de Mario Barbatti)
Leia
também: Cenário Ideal
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