Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[06/abr/2003] Coisas que os bancos não querem que você saiba

Em fevereiro, ao anunciar o seu primeiro pacote de maldades macroeconômicas, aquele que envolvia 14 bi de "contingenciamento", Lula tentou aliviar o amargo do remédio com um monte de simpáticas e esparsas políticas ministeriais.

Uma delas era a ampliação do programa Tesouro Direto, do Ministério da Fazenda, que fora criado por FHC, em seu último ano de mandato. O Tesouro Direto permitiu que o poupador comum tivesse acesso às altas taxas de juros pagas pelos títulos públicos do tesouro, e às quais somente grandes investidores normalmente têm acesso. 

Boas as intenções de FHC e de Lula, eles só não contavam com uma variável inesperada, a usura dos bancos (quem diria?).

Na versão cardosiana, o Tesouro Direto permitia a compra de títulos públicos pré e pós-fixados diretamente pela internet. O investidor, com no mínimo 200 reais, entrava na homepage, se cadastrava junto a um agente de custódia (um banco de investimentos) e em cinco minutos estava apto a obter ganhos de 19% a 38% ao ano.

Num exemplo típico, o poupador podia comprar uma Letra pré-fixada do Tesouro Nacional (LTN), com vencimento para um ano. Ele pagava uns 820 reais por uma LTN com valor de face de 1000 reais, já embutido os impostos e a taxa de administração. Depois, sentava quieto e recebia os 1000 reais um ano depois.

Mas apesar da simplicidade e dos altos ganhos, o Tesouro Direto fez seu primeiro aniversário, em janeiro, movimentando apenas 77 milhões de reais de 5600 investidores. Isto num país cujo o saldo da caderneta de poupança é de 140 bi.

O Tesouro Direto passou completamente despercebido pelo seu primeiro ano. Alguns meses após ser lançado, eu próprio tentei obter informações com gerentes de agências do Banco do Brasil, do Banerj e do Unibanco. Nenhum dos três sequer haviam ouvido falar do programa! Um deles, inclusive, demonstrou uma educada incredulidade para com a minha sandice: "poupador comum ganhando 20% ao ano?"

Na versão de Lula, o Tesouro Direto poderia ser acessado não só via internet, como também ao vivo, nos bancos. Segundo o porta-voz da presidência, a medida visava ampliar o universo de poupadores neste tipo de investimento, tão timidamente implementado pelo presidente anterior.

Bom, passaram-se  dois meses desde o anúncio de Lula, e cadê o Tesouro Direto? Circulei algumas poucas agências e nenhum folder. Homepages bancárias? Apenas no Banco do Brasil há um link, bem tímido, e mais nada. Cadastrados como agentes de custódia, estão apenas os bancos federais e alguns poucos privados, como o HSBC. Os grandes, Bradesco e Itaú, nem menção.

Só posso inferir que os bancos realmente querem distância da praga do Tesouro Direto. Para eles é obviamente mais vantajoso captarem o dinheiro dos clientes para os fundos tradicionais. Ganham nos títulos mais rentáveis e pagam os 10% da poupança. Quanta sutileza...

Claro que o Tesouro Direto envolve risco. Não é um investimento segurado e nem deve ser a única opção para ninguém. Mas cá entre nós: qual a probabilidade de uma equipe econômica neoliberal, com as contas em dia, dar calote? O Banco Central matará cada nordestino de fome, antes de deixar o investidor sem o seu adorado dinheirinho.

Ano passado, em plena crise eleitoral, apostei no Tesouro Direto. Comprei alguns títulos e me tornei credor do governo federal. No vencimento, agora em abril, os títulos me foram pagos normalmente. 

Os bancos não querem que você saiba, mas o Defenestrando Idéias revela como você também pode mamar nas gordas tetas do superávit primário: http://www.tesouro.fazenda.gov.br/tesouro_direto/ 

(texto de Mario Barbatti)


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