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[16/abr/2003]
Quem sonha com ovelhas elétricas?
1.
Fé e Razão De
certa maneira o espírito da física deixou a física. As coisas
maravilhosas das ciências - da compreensão racional do mundo -
estão acontecendo nos institutos de neurociências. São nestes
centros de pesquisas que as perguntas mais instigantes estão
sendo feitas e tendo as respostas esboçadas. O
que é a consciência? O que é a mente? Como funciona o
pensamento? Estas são questões que até duas décadas atrás
ainda estavam escondidas em caixas-pretas dificílimas de serem
abertas. Para
muitos, elas são questões limites, que não seriam da
competência da ciência. Guardariam uma aura de mistério
insondável, cujo terreno de reflexão seria a fé religiosa. Mas
os cientistas, é claro, se negaram a aceitar a hipótese da
caixa-preta. E suas pesquisas sobre o funcionamento do cérebro
começam a lançar luz sobre os processos físicos-químicos que
compõem nossa consciência. Estamos
ainda distantes de um belo e estruturado corpo teórico, tal como a Mecânica
ou a Evolução Darwiniana, mas as pesquisas de cientistas como
Antônio Damásio, da Universidade de Iowa, mostra-nos claramente
que a caixa está sendo aberta.
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Imagino
que em dez, talvez vinte anos, o "mistério da
consciência" já não seja tão insondável. Nossa
compreensão dos processos materiais que geram o Eu certamente
será muito superior a atual. Viveremos, então, uma intensa revolução
cultural, pois pense quanta reflexão filosófica,
teológica, religiosa terá que ser revista. Terão os religiosos
que conciliar os conceitos de alma e de espírito à realidade
material que sairá arrebatadora dos periódicos de
neurociências. |

Cientistas usam as mais
modernas tecnologias para reponder a questão "o que é a
mente?"
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As
fronteiras entre fé e razão, que sempre são reajustadas quando
a compreensão natural do mundo se expande, terão que ser
completamente revistas. 2.
Descartes está morto Com
desculpas antecipadas pelas ingenuidades típicas de um não
especialista, vou me permitir especular um pouco sobre a questão
da mente. Num
exercício de futurologia, adianto que qualquer que seja a teoria
da mente que emergirá nos próximos anos, a sua pedra fundamental
será que todo o fenômeno que geram a mente, o pensamento, a
consciência e o Eu tem base material e são conseqüências de
complexos processos físico-químicos, que têm lugar em nossos
corpos. Assim,
não esperemos encontrar "substâncias" dissociadas em
nossas mentes, tais como matéria e espírito. O Eu é parte
indissociável do corpo. Existe e acontece nele. A
própria sensação de dissociação tão comum a todos nós - a
sensação de que "eu habito meu corpo", como se o corpo
fosse um lugar no qual o Eu está e eventualmente pode sair - é
parte dos processos materiais que devem ser explicados por uma
teoria da mente. O
fato do Eu acontecer no corpo tem implicações imensas sobre
várias das crenças comuns de nossa cultura. Qualquer
permanência ou existência do Eu sem o seu corpo não tem
sentido, inclua-se aí, pelo menos numa acepção mais primária,
o conceito de "vida após a morte". Não
acredito na morte da religião, por motivos que discutirei em
outra oportunidade, por ora apenas adianto que uma característica humana tão
natural e universal não
desaparecerá apenas porque alguma arrogante teoria científica
viera a desmascarar seus mitos. Por isto fico extremamente curioso para saber
a que readequações serão necessárias submeter, por exemplo, os dogmas cristãos,
para dar conta da materialidade essencial de nossas mentes. 3.
Hardware ou Software? Podemos
pensar a materialidade de nossas mente de duas formas distintas. Poderíamos
supor que nossa mente surge como uma espécie de algoritmo que é
executado pelo cérebro, tal como um programa é executado pelo
computador. Neste caso, o fenômeno mental seria uma espécie de
epifenômeno e os processos físico-químicos que o gera seriam
acidentais. O software-mente seria transportável entre
máquinas e plataformas físico-químicas diversas e os
temas religiosos e clichês de ficção científica como viagens
astrais, robôs emocionais, reencarnação ou trocas de mentes
entre indivíduos ainda permaneceriam na esfera do possível. Mas
pelo que posso entender do que se conhece até agora sobre os
processos cerebrais que geram nossos pensamentos, seria razoável
apostar que uma teoria do Eu seria mais do tipo
"hardware". Ou seja, nossa mente não é executada pelo
cérebro. Ela acontece em nosso cérebro. A liberação de uma
substância hormonal, ou a transmissão de um impulso elétrico
entre neurônios não estão simplesmente gerando códigos de
informação, estes fenômenos, em seu conjunto e em vários
níveis, são, eles próprios, o pensamento, a mente e o Eu. Assim,
cada cérebro e cada corpo ligado a ele constituem um
sistema único de arquitetura neuronal, cuja a atividade é o que
chamamos de mente. Colocando de outra forma, num exemplo ingênuo,
para transferir a
mente de uma pessoa para outra, seria necessário refazer toda a
arquitetura cerebral da segunda pessoa, bem como transformar
profundamente vários aspectos de seu corpo. Ao final do processo,
a segunda pessoa teria se tornado uma espécie de clone da
primeira, inclusive na aparência física. 4.
E então, andróides sonham com ovelhas elétricas? Se
a mente fosse um fantasma ou um software, ela poderia
eventualmente vir a habitar ou ser executada em outros corpos ou
mesmo numa máquina. Mas
se a mente é um hardware, como acredito que as neurociências
mostrarão, ela precisaria no mínimo de um corpo e um cérebro
clonados da pessoa original, para poder receber a mente
transferida. Isto assustadoramente dá razão aos raelianos.
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Também
seria impossível transferir a mente para uma máquina, como um
supercomputador que "armazenasse" nossas memórias. A
"plataforma" da existência do nosso Eu possui uma
química e fisiologia muito específicas, que teriam que ser
respeitadas.
E
aí cabe colocar uma das questões centrais para o
desenvolvimentos de novas tecnologias: é possível inteligência artificial? A
princípio a resposta seria positiva. Mas não seria possível se
falar de inteligência humana artificial. Uma máquina pode ser
inteligente, incluindo-se todo o sistema emocional essencial à
inteligência. Mas a sua inteligência nunca seria análoga à
nossa. Sua "mente" nunca seria semelhante à nossa. |

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Note
que não nego que a máquina inteligente possa eventualmente vir a
ter emoções,
apenas digo que suas emoções seriam completamente distintas das
emoções humanas, por que se baseiam em outros sistemas físico-químicos
para ganharem existência. 5.
Além de Turing Até
poucas décadas atrás, quando ainda era razoável acreditar que a
mente era uma caixa-preta à qual nunca teríamos acesso, pouco ou
nada nos restava para testar a possibilidade de inteligência de
um ser artificial, além do teste de Turing. No
teste, uma pessoa conversa com um interlocutor desconhecido e
tenta, pelas respostas, determinar se este interlocutor é uma
outra pessoa ou é um computador. A
princípio, se um ser humano não pudesse determinar que o
interlocutor é uma máquina, esta passaria no teste e não se poderia
afirmar que ela não é inteligente, ou em alguma extensão do
teste, passível de emoções. Mas
realmente não é possível ir além desta resposta claramente
incompleta? Se uma máquina, num teste de Turing, me convence que está
triste, eu não posso descartar a possibilidade de que ela realmente
esteja triste. O
teste apenas confirma meu desconhecimento a respeito do seu real
estado emocional, se é que há algum, num problema filosófico antigo.
Afinal, ao lidarmos com
outras pessoas, não podemos nunca ter absoluta certeza de seu
estado emocional. Somos
todos muito parecidos, afinal partilhamos uma mesma bioquímica e
fisiologia, e portanto é muito razoável
supor que nossas faculdades mentais tenham um bom
grau de equivalência. Mas
obviamente não é razoável estender esta suposição a uma
máquina. Isto
não significa que não poderemos saber se um outro ser
não-humano - um animal, uma máquina, um ET - é ou não
inteligente, ou se apenas "simula" a inteligência. Uma
das consequências do desenvolvimento de uma teoria da mente é
que critérios serão
desenvolvidos para olhar dentro da caixa-preta. À declaração
"Estou triste" deverá acompanhar certos padrões
físico-químicos no cérebro-inumano, consistentes com um Eu
sentindo-se triste.
(texto
de Mario Barbatti)
Leia
também no Defenestrando Idéias:
Sobre
o olhar sem ver
Para
saber mais:
O
Mistério da Consciência, Antonio Damásio, Companhia das
Letras.
Como a mente funciona, Steven Pinker, Companhia das Letras.
O
Erro de Descartes, Antonio Damásio, Companhia das Letras.
O
Cérebro Nosso de Cada Dia, Suzana Herculano-Houzel,
Vieira & Lent.
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