Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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Defenestrando idéias
   
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[28/abr/2003] Evolução: dos criacionistas às amebas

1. O Homem de Dawson

Em 1912, o advogado inglês Charles Dawson e o professor Arthur Smith Woodward apresentaram ao mundo acadêmico o estranho Homem de Piltdown. O fóssil, que teria sido descoberto em camadas geológicas de meio milhão de anos, possuía mandíbula semelhante a de um macaco, porém um crânio semelhante a de um homem moderno.  

Aquele estranho híbrido não se encaixava de modo algum às teorias evolucionárias da época e, por quatro décadas, o incômodo enigma esteve exposto no Museu Britânico. Claro que não faltavam ingênuos que vissem na peça o elo-perdido entre o homem e o macaco, pelos menos até que nas décadas de 1940 e 1950, o desenvolvimento de testes químicos de datação por flúor e nitrogênio tornaram possível mostrar que o fóssil era uma muito bem montada fraude.

Nas investigações posteriores, inocentou-se Woodward. O homem de Piltdown teria sido forjado por Dawson, não se sabe por qual motivo, a partir de um crânio humano e de uma arcada recente de chipanzé. Uma providencial camada de bicromato de potássio, para "conservar" o fóssil, tornara o engodo indecifrável por décadas.

"Piltdown de Sussex torna-se o mais antigo ancestral do homem"
Capa da Science News-Letter de 4 de Janeiro de 1930

De qualquer forma, a descoberta e a comprovação da farsa foram um alívio para a comunidade científica. O Homem de Piltdown tornou-se indiretamente uma evidência a favor da teoria evolucionária, afinal a teoria de que o homem e o macaco possuíam um ancestral em comum fora forte o suficiente para descartar um fóssil, que não se enquadrava nela.

2. Má-fé ou ignorância?

Mas me chegaram há algumas semanas, por e-mail, dois textos em defesa do criacionismo e contra o evolucionismo: "10 perguntas aos evolucionistas", do criacionista americano Teno Groppi e "Criação versus Evolução - O conflito dos séculos!", de José Pedro Monteiro de Almeida, da Igreja Batista Regular XXXX, de Brasília (ver textos). Ambos se constituem de um assustador amontoado de bobagens, ignorância e má-fé. 

Curiosamente, um dos argumentos anti-evolucionistas do segundo texto é justamente a fraude do Homem de Piltdown! A história é recriada da seguinte forma:

"Estas evidências foram aclamadas por peritos como provas dum homem-macaco que existira cerca de 500 mil anos atrás. Foram necessários 41 anos para que a fraude viesse a tona. Em 1953 John Winer e Samuel Oakley, depois de longo e minucioso exame, descobriram que o crânio era de um homem moderno (idade de 650 anos), o maxilar de um macaco de nossos dias e que os dentes foram fraudados com bicromato de potássio e sal de ferro para dar-lhes a aparência de objetos fossilizados. A facilidade com que as maiores autoridades neste assunto foram ludibriadas, demonstra claramente o poder da influencia de idéias mentirosas e fraudulentas entre os evolucionistas."

E por que os cientistas se deixaram enganar? Esta aí a resposta:

Porque havia muita gente que QUERIA acreditar que existiu um  homem-macaco, eis o porque! E quando você QUER acreditar em algo, mesmo que seja mentira, você vai interpretar as evidencias para se encaixar no que você quer, não importando o que as evidencias clamem ao contrario!! [Grifos do autor]

Agora eu me pergunto: má-fé ou ignorância? Eis o meu constante dilema a respeito das opiniões evangélicas. Nunca sei realmente de que lado da fronteira elas estão. Afinal, o criacionista acredita de fato que a Teoria da Evolução Natural afirma que "o homem veio do macaco", ou ele apenas quer chocar um discípulo mal-informado?

E no caso do Homem de Piltdown? Almeida desconhecia a história real, ou preferiu reformulá-la para adequar às suas hipóteses? Em que momento ele decidiu que uma evidência favorável aos evolucionistas era, na verdade, um argumento para os criacionistas?

3. Má-fé e ignorância

As "10 Perguntas aos Evolucionistas" de Groppi são, em sua maior parte, questões extremamente tolas, tais como: 

"5. Para que a ameba sequer se incomodaria de evoluir para criaturas 'mais avançadas' tais como o dodô e os dinossauros, uma vez que estas vieram a ser extintas, enquanto que a ameba ainda está por ai?"

"8. Por qual motivo algo se reproduziria naturalmente, uma vez que, com isto, apenas criaria disputa por comida, por espaço ambiental e por recursos, e uma necessidade de prover e trabalhar em benefício deles [os seus descendentes]?"

Ora, o mínimo que se esperaria de alguém que quer "provar" que a Teoria da Evolução é falha, é que ele a conhecesse minimamente. Que soubesse que o sucesso da teoria está justamente no fato de que ela não é teleológica, e elimina completamente a necessidade de "intenções" ou "objetivos" na natureza.

Groppi parece ser ignorante não só sobre a teoria contra a qual se opõe ferozmente, como também sobre os rudimentos da biologia. Afinal, qualquer estudante de nível médio sabe que células se reproduzem por auto-divisão. Decoram para o vestibular que esta divisão se dá ou por meiose (dividindo os cromossomos entre as células-filhas), ou por mitose (mantendo o número de cromossomos nas células-filhas). Mas o estudioso da "origem da vida" tem a cara-de-pau de perguntar:

"7. Com quem cruzou a primeira célula capaz de se reproduzir?"

Com isto, a hipótese da ignorância ganha um grande reforço!

4. Matemática ruim, ciência pior ainda

Mas a má-fé está rondando... Almeida tenta revestir de ares matemáticos os seus argumentos:

"A probabilidade de se formar uma molécula de proteína com 124 aminoácidos diferentes, o que seria uma simples proteína é...
                                    20124
este número é tão incompreensível que seria equivalente a se encher todo o universo  conhecido  com elétrons e  colocar  seu  nome em um deles e pedir que você vá acha-lo !" [os tropeços ortográficos são do autor]

Obviamente ninguém é obrigado a saber matemática em níveis mais avançados, mas se se pretende usá-la em seus argumentos, que pelo menos o faça com cuidado. Para começar, probabilidade não pode ser maior que 1 e o número acima é estupidamente maior que a unidade. Possivelmente, a fonte na qual o autor copiou o dado deve ter escrito o expoente como -124. Neste caso, realmente o número seria muito pequeno. 

Mas a analogia usada para explicar o número também não faz o menor sentido! O que significa "encher todo universo conhecido com elétrons"? Com que densidade ou distância entre eles? 

Pelo contexto, parece que Almeida quer simplesmente dizer que "a probabilidade é zero", mas quando ele começa a usar termos oriundos das ciências exatas, como "elétrons" ou "universo conhecido", a intenção é claramente a de fornecer um caráter técnico ao argumento, algo que ele obviamente não tem competência para fazer. Isto é má-fé. (Cuidado, criacionistas! Má-fé não dá cadeia, mas pode condenar ao inferno!)

Por enquanto, estamos ainda discutindo o texto apenas em sua forma. E quanto ao seu conteúdo, aquela coisa toda sobre proteínas e aminoácidos? Não há simplesmente nada a comentar, porque realmente não há conteúdo algum! O autor não escreveu coisa alguma com um mínimo de sentido compreensível. (Quem tiver paciência para ler o texto, veja ele fazendo isto novamente nos parágrafos 2.1 e 2.4.2.)

Não satisfeito, Almeida ataca de geógrafo e mostra um modelo matemático que prova que a população humana atual é consistente com uma idade planetária de 4000 anos, tal como previsto no Gênesis. 

Desta vez a matemática está correta. Falho é o modelo: ele simplesmente propõe como função de crescimento populacional uma função exponencial. Erro primário de modelagem, o mesmo cometido por Thomas Malthus, só que há mais de duzentos anos.

Estas tentativas patéticas de dar ar científico aos argumentos criacionistas se acumulam usando jargões técnicos e lógicas enviesadas. Por exemplo, eles gostam muito de um tal de "argumento termodinâmico". Almeida, em seu texto, o menciona por alto, mas não o desenvolve, possivelmente porque não o entendeu.

Mas Groppi, em outro de seus muitos textos espalhados pela rede, apresenta o argumento termodinâmico, que afirma que a evolução natural é impossível pois violaria a Segunda Lei da Termodinâmica. E não adianta explicar a ele que Segunda Lei só garante que entropia aumenta num sistema isolado fora do equilíbrio. Ele sabe disto! Contudo, falseia o argumento e responde:

"Thermodynamic laws have operated on every system ever observed, open or closed." 

Esta afirmação trivial é de conhecimento de qualquer estudante de segundo ano de física ou engenharia. Mas ele quer sofisticamente induzir o leitor a acreditar que como as Leis da Termodinâmicas são sempre válidas, a entropia sempre aumenta. E isto é mentira. Se fosse verdade, a geladeira da cozinha de Groppi não funcionaria. Mas é uma mentira repetida à exaustão pelos criacionistas fingindo que estão falando coisas sérias (veja o site das "Respostas Cristãs", por exemplo). 

Mesmo para aqueles sem treinamento formal em ciências, bastaria a leitura de um texto básico sobre o tema, como "O que é a vida?", de E. Schroedinger, para evitar repetir estas bobagens por aí.  

5. Um monte de pequenos milagres

Estes textos que recebi estão recheados de besteiras que realmente não mereceriam qualquer atenção. Não chega nem perto da sofisticação intelectual de um "neocriacionista" como o bioquímico Michael Behe, da Universidade de Lehigh (Pensilvania, USA). 

De fato, não me importo nem um pouco que Groppi ou Almeida chafurdem na sua própria burrice fundamentalista. E como o próprio Almeida admite: "Todo crente precisa ser fundamentalista!" Um dos cuidados que temos que ter é o de manter os criacionistas isolados - manter sua idiotia em quarentena - e para isto o silêncio pode ser uma boa arma. Não cabe admitir a existência de uma espécie de debate "criacionismo x evolucionismo", pois não são categorias hierarquicamente equivalentes. A inferioridade intelectual dos argumento dos criacionistas chega a ser deprimente.

Mas infelizmente, vivemos num mundo no qual a educação científica é limitada, e discursos um pouco mais elaborados, se fantasiando de filosofia ou ciência, podem ser tomados como argumentos sérios e dignos de atenção. Às vezes, torna-se um dever moral e até político para o cientista denunciá-los. Mostrar que sua suposta seriedade apenas mascara a incompetência, a ignorância e a vontade de enganar. 

De qualquer modo, a partir do desenvolvimento da biologia molecular em meados do século 20, a evolução das espécies a partir da seleção natural tornou-se mais que uma teoria eficiente para explicar os seres vivos em nosso planeta. A evolução das espécies tornou-se uma necessidade, de tal modo que se ela não ocorresse, seria obrigatório explicar o porquê. 

A cada geração as combinações de genes que ajudam a aumentar a fertilidade dos indivíduos aumentam sua freqüência na população, enquanto outras podem até desaparecer. Eventualmente, novidades são introduzidas pontualmente pelas mutações. Estes mecanismos levam às transformações dos genomas ao longo do tempo e às conseqüentes transformações das espécies. Acreditar que as espécies são eternas exige acreditar que a freqüência com que os genes aparecem nas populações permanece inalterada e que cada indivíduo nasce, das amebas aos criacionistas, isento de mutações. 

Como? Pergunte a um dos descendentes de Adão. Eles costumam ter respostas para tudo.  

(texto de Mario Barbatti) 


Leia também no Defenestrando Idéias:
Uma sombra sobre o Rio
Frijof Capra: Não li e não gostei
Ciência por quê?
Oito anos desde Sokal
A Sociedade Mágica

Para saber mais:
Desvendando o Arco-Iris, R. Dawkins, Companhia das Letras.
O que é a vida?
, E. Schroedinger, Ed. UNESP.
O acaso e a necessidade, J. Monod, Ed. Europa-América.
A nova aliança, I. Stengers e I. Prigogine, Ed. UNB.

 


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