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[06/mai/2003] Quanto
o diabo pagou pela alma deles?
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Epaminondas
Palmério anda irritado com o governo Lula. Acha que o presidente e sua
equipe são um bando de vendidos para o FMI. Cada vez que ele lê no
jornal que a dona Anne Krueger elogiou o governo brasileiro,
sente um frio na espinha. Sabe que quando o diabo
aprova, o cristão está longe de deus.
Epaminondas
já não agüenta mais ver o Zé Genoíno no Jornal Nacional dizendo que o partido é democrático e está aberto a debates.
"Mas
que debate é este, Seu Genoíno?", questiona Palmério de
frente para TV, "Que debate é este onde ou a sua posição
ganha, ou a dos outros perde?" Epaminondas
se sente vendo uma reedição do rolo compressor de FHC, mas com
uns reclames mais bem bolados no intervalo da novela. |
"E
aquele rapaz, o Mercadante? Que história é essa de manter
câmbio em alta?" Epaminondas não entende como Mercadante
pode ter esquecido tão rapidamente que dólar caro significa pão
francês caro e trabalhador mais pobre. "Só se fala de
exportação, exportação e exportação. Daqui a pouco podem trocar de PT para PE, partido
dos exportadores."
Nas
últimas semanas, a única notícia que divertiu Epaminondas foi
ver Lindberg Farias se borrando nas calças. Tava o moço todo prosa,
posando de linha dura. Mandando que ia entrar na justiça contra a
publicidade do governo. Mas aí, quando levou um puxão de orelha
e foi ameaçado de perder seu cargo de vice-líder e até de ser
expulso do partido, faltou só dizer que estava na reunião com
Brizola e Helena tentando demovê-los da idéia de partir para a
lei. Lindberg devia aprender alguma coisa com Helena.
Aquilo sim é cabra-macho. Tacanha como uma porta. Mas é a única
dentro do PT que mantém a coerência.
Epaminondas
não está muito preocupado com este negócio de reforma da
previdência, não. Para ele a previdência já quebrou há muito.
Se aposentou ganhando dez salários, hoje o seu benefício nem chega a quatro
mínimos. Ele também sabe que cobrança dos
inativos é só um nome menos antipático para redução de
pensão. Afinal, se o governo paga 100 e recebe 10 de volta,
então só pagou 90.
Mas
o que incomoda mesmo a ele é a lógica enviesada; o discurso
torto, que finge que vai para um lado, mas salta para o outro.
Isto o deixa puto dentro das calças. O governo acha que ele é
bobo: num discurso Pallocci diz que a reforma tributária não vai
aumentar os impostos, aí manda um projeto que mantém a CPMF em
alta, quando a expectativa era de que ela baixasse.
"E
o Nelson Pellegrino? Ele acha que sou idiota?" Outro dia
Epaminondas viu o líder do PT explicando na TV o porquê de se reformar a
previdência. Ele explicava que tem um monte de gente ganhando
dez, vinte mil de pensão. Tem uma viúva não-sei-onde ganhando
mais de cinqüenta mil! Revoltante! Por isto que se tem que cobrar
dos inativos.
Até
aí Epaminondas acompanhou e até bateu palmas. Mas ele se sentiu
ofendido quando o deputado torceu este argumento para concluir que tinha que se cobrar dos inativos ganhando mil
reais.
Epaminondas
também assistiu Dr. Pallocci na TV Senado mostrando um monte de
gráficos bonitos, que explicavam a necessidade de aumentar o
superávit primário. Num deles, o ministro mostrava uma
simulação segundo a qual a relação dívida-PIB teria caído
uns 2%, e não subido 26%, se FHC tivesse
feito superávits desde 1994, e não só a partir de 1999.
Epaminondas se irritou: "Bolas! Se eles não conseguem fazer
previsões para o final deste ano, como é que vão fazer para
oito anos?"
Epaminondas
nem sabe o quanto estava certo. A simulação que Pallocci mostrara
fora uma
feita por Goldfajn, por sugestão de ninguém menos
que Armínio Fraga e com recomendações de Pedro Malan, os
ex-guardiões do submundo! [1]
Curiosamente, o Ministro esquecera de contar para os senadores que o resultado fora
obtido com a hipótese de uma taxa de câmbio fixa desde 1994. É
possível que a notícia não tenha chegado aos diários de
Ribeirão Preto, mas o Real sofreu uma grande desvalorização em
1998 e portanto, a simulação não tinha nenhuma relevância como
cenário realista.
É
por coisas como estas que Epaminondas está irritado e frustrado. Já
começa até a achar que a única diferença entre o governo de Lula e o de Serra
é que agora, houvesse o tucano ganhado, o PT estaria tentando
barrar a cobrança dos inativos e pedindo a correção da tabela
do imposto de renda.
(m.b.)
Leia
também no Defenestrando Idéias:
O ano em que perdemos a
oportunidade de ouro
Carta ao povo brasileiro
Lógica de Mercado e o Titanic
Futuros possíveis:
setembro de 2010
[1]
I. Goldfajn, Notas
Técnicas do Banco Central n. 25, jul. 2002.
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