Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[06/mai/2003] Quanto o diabo pagou pela alma deles?

Epaminondas Palmério anda irritado com o governo Lula. Acha que o presidente e sua equipe são um bando de vendidos para o FMI. Cada vez que ele lê no jornal que a dona Anne Krueger elogiou o governo brasileiro, sente um frio na espinha. Sabe que quando o diabo aprova, o cristão está longe de deus.

Epaminondas já não agüenta mais ver o Zé Genoíno no Jornal Nacional dizendo que o partido é democrático e está aberto a debates. "Mas que debate é este, Seu Genoíno?", questiona Palmério de frente para TV, "Que debate é este onde ou a sua posição ganha, ou a dos outros perde?" Epaminondas se sente vendo uma reedição do rolo compressor de FHC, mas com uns reclames mais bem bolados no intervalo da novela.

"E aquele rapaz, o Mercadante? Que história é essa de manter câmbio em alta?" Epaminondas não entende como Mercadante pode ter esquecido tão rapidamente que dólar caro significa pão francês caro e trabalhador mais pobre. "Só se fala de exportação, exportação e exportação. Daqui a pouco podem trocar de PT para PE, partido dos exportadores." 

Nas últimas semanas, a única notícia que divertiu Epaminondas foi ver Lindberg Farias se borrando nas calças. Tava o moço todo prosa, posando de linha dura. Mandando que ia entrar na justiça contra a publicidade do governo. Mas aí, quando levou um puxão de orelha e foi ameaçado de perder seu cargo de vice-líder e até de ser expulso do partido, faltou só dizer que estava na reunião com Brizola e Helena tentando demovê-los da idéia de partir para a lei. Lindberg devia aprender alguma coisa com Helena. Aquilo sim é cabra-macho. Tacanha como uma porta. Mas é a única dentro do PT que mantém a coerência.

Epaminondas não está muito preocupado com este negócio de reforma da previdência, não. Para ele a previdência já quebrou há muito. Se aposentou ganhando dez salários, hoje o seu benefício nem chega a quatro mínimos. Ele também sabe que cobrança dos inativos é só um nome menos antipático para redução de pensão. Afinal, se o governo paga 100 e recebe 10 de volta, então só pagou 90.

Mas o que incomoda mesmo a ele é a lógica enviesada; o discurso torto, que finge que vai para um lado, mas salta para o outro. Isto o deixa puto dentro das calças. O governo acha que ele é bobo: num discurso Pallocci diz que a reforma tributária não vai aumentar os impostos, aí manda um projeto que mantém a CPMF em alta, quando a expectativa era de que ela baixasse.

"E o Nelson Pellegrino? Ele acha que sou idiota?" Outro dia Epaminondas viu o líder do PT explicando na TV o porquê de se reformar a previdência. Ele explicava que tem um monte de gente ganhando dez, vinte mil de pensão. Tem uma viúva não-sei-onde ganhando mais de cinqüenta mil! Revoltante! Por isto que se tem que cobrar dos inativos.

Até aí Epaminondas acompanhou e até bateu palmas. Mas ele se sentiu ofendido quando o deputado torceu este argumento para concluir que tinha que se cobrar dos inativos ganhando mil reais. 

Epaminondas também assistiu Dr. Pallocci na TV Senado mostrando um monte de gráficos bonitos, que explicavam a necessidade de aumentar o superávit primário. Num deles, o ministro mostrava uma simulação segundo a qual a relação dívida-PIB teria caído uns 2%, e não subido 26%, se FHC tivesse feito superávits desde 1994, e não só a partir de 1999. Epaminondas se irritou: "Bolas! Se eles não conseguem fazer previsões para o final deste ano, como é que vão fazer para oito anos?" 

Epaminondas nem sabe o quanto estava certo. A simulação que Pallocci mostrara fora uma feita por Goldfajn, por sugestão de ninguém menos que Armínio Fraga e com recomendações de Pedro Malan, os ex-guardiões do submundo! [1] Curiosamente, o Ministro esquecera de contar para os senadores que o resultado fora obtido com a hipótese de uma taxa de câmbio fixa desde 1994. É possível que a notícia não tenha chegado aos diários de Ribeirão Preto, mas o Real sofreu uma grande desvalorização em 1998 e portanto, a simulação não tinha nenhuma relevância como cenário realista. 

É por coisas como estas que Epaminondas está irritado e frustrado. Já começa até a achar que a única diferença entre o governo de Lula e o de Serra é que agora, houvesse o tucano ganhado, o PT estaria tentando barrar a cobrança dos inativos e pedindo a correção da tabela do imposto de renda. 

(m.b.) 


Leia também no Defenestrando Idéias:
O ano em que perdemos a oportunidade de ouro
Carta ao povo brasileiro
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[1] I. Goldfajn, Notas Técnicas do Banco Central n. 25, jul. 2002.


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