Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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[13/mai/2003] Sobre os físicos e sua incompetência corporativa

Em tempos em que mercado de trabalho é um tema essencial para a viabilidade de qualquer profissão, consideremos por um instante o seguinte trecho do edital do mais recente concurso para o tribunal de contas do município do Rio de Janeiro: 

"Cargo de Analista de Informação: Diploma de graduação em Engenharia, Matemática, Economia, Administração, Ciências Contábeis, Estatística, Desenho Industrial ou Informática reconhecido pelo MEC e registro no órgão de classe, quando for o caso." (TCM - Rio de Janeiro, Edital /FJG N.º17/2003)

É notável que nesta ampla fauna de profissionais com as mais diversas formações, simplesmente não conste a possibilidade de um físico se candidatar ao cargo. Afinal, cabe perguntar, por que o engenheiro e o matemático seriam habilitados para atuar como analista de informação, mas o físico não?

A resposta está essencialmente no desconhecimento da sociedade brasileira a respeito dos físicos e de suas potencialidades para atuar nos mais diversos setores da economia. Ou, em outro nível, podemos encontrar a resposta na falta de senso corporativo por parte dos profissionais em física, que não se fazem conhecidos para além de suas atuações-padrão no magistério e na pesquisa acadêmica.

Neste sentido, a Sociedade Brasileira de Física, SBF, como entidade corporativa representante dos físicos brasileiros, tem sido absolutamente incompetente no papel de tornar conhecidos os potenciais de seus representados. 

Esta incompetência corporativa da SBF é certamente reflexo do próprio desconhecimento por parte dos físicos das potencialidades de sua formação, para atuação em diversos setores do mercado de trabalho. Claro que até a grande expansão da pós-graduação observada na última década, estas questões não eram realmente urgentes. As atuações-padrão satisfaziam amplamente boa parte dos jovens profissionais. Eventualmente até se ouvia algo sobre a possibilidade de absorção dos físicos pela indústria, sempre seguido de um lamento comentando o quanto a situação era diferente nas terras ao norte do equador.

Mas atualmente, num cenário de estagnação econômica e grande quantidade de jovens profissionais sendo formados ano após ano, o desafio torna-se ampliar ao máximo a participação dos físicos nos mercados já existentes, fora das atuações-padrão. Uma das funções mais relevantes que a SBF deve trazer para si é a de tornar-se agente para a realização deste projeto corporativo; o projeto de dar alguma utilidade ao título de bacharel em física, que atualmente é pouco mais que moeda-podre.

Para, no entanto, a SBF cumprir este papel, é necessário que a comunidade dos físicos brasileiros estejam receptivos à idéia de que a corporação pode abrigar sob a mesma alcunha não somente o cientista e o professor, como também o analista de informação e de sistemas, o jornalista científico, o técnico pericial, o gestor de tecnologia, etc.; tal como os engenheiros admitem corporativamente profissionais tão distantes quanto o eletricista e o administrador.

A partir da compreensão de que o físico pode atuar de forma competente em vários setores do mercado de trabalho, cabe à SBF trabalhar para que a sociedade brasileira saiba disto. A SBF deve agressivamente atuar junto aos setores empresariais, públicos e privados, utilizando os mais diversos meios de comunicação e marketing, para explicar o que o físico sabe, o que ele pode aprender num treinamento profissional e o que ele tem competência para realizar.

Neste momento, ocorrem as eleições para a nova diretoria da SBF. Apesar de  não fornecerem propostas concretas para a questão, ambas as chapas em disputa já declararam que estão preocupadas com tema mercado de trabalho para os físicos. Pode ser uma boa idéia que os pleiteantes assumam agora o compromisso para com a comunidade de que terão fracassado em sua gestão, se ao final dos mandatos ainda encontrarmos editais para concursos que aceitem matemáticos e engenheiros, porém, não aceitem físicos.

(texto de Mario Barbatti) 


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