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[23/mai/2003] Idéia
para um romance policial
Para
um capítulo 1
Nas
últimas semanas, tive uma idéia para um romance policial. Uma
boa ficção que dependeria apenas da competência para pô-la no
papel. Mas, infelizmente, como me sobra a idéia e me falta o talento
para a escrita, vou apenas alinhavar o enredo da história.
Abriria
o romance com uma tragédia. Como nos episódios do seriado de TV
"Lei & Ordem", o crime seria apresentado de imediato. Mas sem suspeitos, sem
clareza do que teria ocorrido, a não ser que uma jovem
universitária teria sido alvejada enquanto lanchava numa cantina
do campus. A comoção pública seria geral. Afinal, a moça de
classe média, teria o rosto desfigurado pelo tiro e ainda
correria o risco de ficar tetraplégica. Destino talvez mais
assustador que uma morte pura e simples.
As
especulações iniciais apontariam para perigosos traficantes
instalados em uma favela, num morro nas vizinhanças da
universidade. Teria sido um ataque a civis em represália à morte
de um colega do tráfico. Penso que o capítulo um poderia
terminar com a iminência de uma impressionante ação policial
que o secretário de segurança autorizaria, para vasculhar os
morros e prender suspeitos.
A
esta altura, que leitor, com sede de sangue e vingança, resistiria a dar
pelo menos uma olhadinha no capítulo dois?
Um
rápido capítulo 2
E
de fato, haveria sangue. O capítulo segundo seria curto: mostraria
a operação da polícia, que se espalharia por
vários bairros e favelas da região. Entraria em confronto com o
tráfico, e ainda no final da mesma tarde mataria pelo menos um
dos suspeitos do crime.
O
leitor não entenderia este ponto final repentino, "Acabou?
É só isto?", e não resistiria em passar para o capítulo
3.
A
imprensa de rapina no capítulo 3
No
terceiro capítulo, uma nova personagem seria apresentada ao leitor: um ex-senador da república, homem
íntegro e respeitado, seria o porta-voz da universidade, na
posição de seu chanceler. Em seus pronunciamentos à imprensa
passaria os detalhes das duras medidas de segurança, o lamento
pela vítima, a plena
colaboração com a polícia, etc. Participação tímida, mas
deixaria sutilmente indicado que a esta personagem ainda haveria reservado mais espaço no futuro.
Também neste capítulo, apareceria um novo elemento importante
para a história, a imprensa. Dois dias depois do crime, um
diário sensacionalista anunciaria que ação contra a
Universidade teria sido armada pelo tráfico com meses de
antecedência. Como prova, uma fita de origem policial - porém de
fonte desconhecida - traria a gravação da conversa telefônica
entre dois traficantes.
Deste momento
em diante, ficaria claro para o leitor que os meios de
comunicação estariam no enredo para jogar sujo, para construir
os fatos em lugar de divulgá-los. O leitor mais esperto perceberia
de imediato que a fita não trazia elementos objetivos a respeito
do crime, apenas frases gerais que poderiam ser postas "no
contexto" adequado. Mas, estranhamente, todo o resto da
imprensa, mesmo os órgão mais sérios, compraria a história e
à noite os principais noticiários da TV estariam mostrando os trechos
"relevantes" da fita.
As
gravações provocariam uma crise entre as autoridades. Algumas
seriam exoneradas do cargo e ainda haveriam investigações para
determinar o porquê de a polícia não ter agido quando obtivera
a gravação. E afinal, quem vendera a gravação? Obviamente ela seria
fonte de corrupção policial.
O
capítulo terceiro, portanto, mudaria levemente o foco da história. Já
não seria apenas um romance policial, mas conteria elementos de uma
trama política.
Capítulo
4: virada nas investigações
A
imprensa novamente forneceria o próximo passo para o desenvolvimento da
história. Primeiro revelaria que o consumo de drogas por parte
dos estudantes da universidade, sustentava o tráfico da
região. Segundo, apresentaria as imagens das câmaras de
segurança do campus. Tal como as gravações, os vídeos não
apresentavam nenhum material objetivo, mas a imprensa na ânsia, típica
dos animais de rapina, de
fazer novos e rentáveis fatos, conseguiria enxergar em uma silhueta
disforme, um homem carregando um fuzil, quando teria sido um
zelador com as vassouras.
A
esta altura, as investigações policiais concluiriam que o tiro
partira não do morro, mas de dentro do campus. O projétil seria
do calibre típico das armas policiais. E mais, as fitas de vídeo
teriam sido grosseiramente adulteradas para não mostrar os momentos
antes e após o crime. Estes fatos provocariam uma reviravolta no caso. Afinal, o que estaria
acontecendo? Já não pereceria que o crime teria sido uma simples
ação de traficantes. Um segurança da universidade, ou mesmo um
policial teria atirado na jovem? E quem havia adulterado a fita?
O
braço político do romance daria um novo passo. O delegado
responsável pelo seria afastado, acusado de incompetência na condução
da investigação. Afinal, pouco acostumado com o conceito de
investigação (não é o tipo de frescura que a polícia carioca
esteja acostumada a fazer), não isolara a cena do crime e nem
pedira as fitas de segurança de imediato.
Agora o principal suspeito seria o chefe dos
seguranças do campus. Esta nova personagem seria um policial que
nas folgas trabalharia para a universidade e possivelmente teria
participado da adulteração dos vídeos. Poderia soar um tanto
artificial para o leitor, mas seria fundamental para a trama que
este policial fosse, adivinhe, cunhado do ex-senador da
república!
Capítulo
5?
Ainda
não sei exatamente como a trama poderia se desenvolver a partir
daqui, apesar de ter várias idéias. Teria que resolver qual
teria sido a participação da universidade, da empresa de
segurança, do ex-senador.
Mas realmente nem faz
diferença, pois como eu já disse, me sobram as idéias, mas me
falta o talento para escrita. Desconfio
que até mesmo por conta disto, eu não resistiria a um final
piegas, que estragaria o romance, com criminosos e corruptos presos, jornais e jornalistas
irresponsáveis desmoralizados, policiais incompetentes demitidos
e, o mais importante, a jovem milagrosamente se recuperando e aos
poucos retomando a sua vida normal.
(texto
de Mario Barbatti)
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