Defenestrando idéias
Mario Barbatti


  Início
  Índice de textos
  Gotas de Sabedoria

  

  Seus comentários
 Avise quando atualizado

  

  Física molecular
  Você conhece o Mario?
   
Defenestrando idéias
   
O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[26/mai/2003] Do menino à margem da estrada

Quando garoto, eu e minha família morávamos à margem da rodovia. Nossa casa, no Bairro Novo, ficava a apenas três quadras daquela imensidão de concreto. Muitas são as lembranças que tenho daqueles tempos, mas é impressionante como sobre todas elas domina em mim justamente a imagem imponente da auto-estrada, comigo pequeno à sua margem, cogitando sobre o mundo que haveria do outro lado.

A escola primária beirava a estrada, e toda manhã a gente caminhava pela rua de Dentro, que timidamente margeava a rodovia, enquanto - ruidosos - os carros, ônibus e caminhões (muitos caminhões) passavam velozes pela gente, naquele interminável fluxo do trânsito interestadual.

Não sei se os outros garotos também viviam a rodovia como um mito pessoal. Para mim ela representava tudo o que eu não conhecia; toda a minha curiosidade. Atravessar suas muitas pistas seria algo como descobrir terras desconhecidas e habitadas por seres e pessoas completamente distintas daquelas que habitavam meu pequeno mundo. Então, quando eu descia a rua de Dentro para chegar à escola, ou quando a subia em direção ao mangue, para jogar no campinho, estava sempre a fantasiar com as coisas, as gentes, as modas do outro lado.

Por isso acho que até hoje sobrevive em mim a imagem do garoto, pequeno, diminuto, olhando o mar de concreto que se apresentava aos seus olhos. Quente, barulhento, veloz, imenso e perigoso oceano intransponível.

Em cima laje da venda do seu Nhô, um monte de moleque juntava para soltar pipa. Eu, pipa empinada, vez ou outra me perdia olhando as pistas um pouco mais de cima. Me enchiam os olhos, os caminhões de carga, as carretas de automóveis, os basculantes, os tanques. Mas a vista ainda não tinha perspectiva suficiente para observar a outra margem. Dali de cima, menos que resolver o mistério, ele só se fazia se intensificar, com a imponência daquele monte de pistas que iam e vinham.

Passavam-se os anos e mudavam os desejos, mas a estrada estava lá em seu misto de solidez e movimentos eternos. No tempo certo, troquei as peladas e as pipas, pelos sarros e punhetas, e nesta época os mistérios da estrada já se começavam a se pôr no inconsciente. Seriam só mais uma gota da personalidade do adulto que se gestava. Aos quinze, fui trabalhar na fábrica de tênis, que ficava logo depois do mangue. Naquele corpo magro e ossudo, a camisa branca fechada até o penúltimo botão sobrava em panos; sobrava também o orgulho do primeiro emprego. Carregava a marmita como a um troféu de maturidade e já não me enchiam os olhos as fantasias sobre a estrada.

Foi preciso que muito tempo passasse, para que eu revivesse a raiz das minhas curiosidades, da minha vontade de desbravar; de chegar, fincar bandeira, e imediatamente me botar em jornada, rumo a um novo e desconhecido destino. Para quem sempre se encantou com o mundo e suas variedades, descobri, surpreso, que seria olhando para dentro de mim, que eu conheceria um dos mais intrigantes lugares que poderia visitar: as memórias intensas da rodovia.

E talvez seja por isso que voltei ao Bairro Novo. Há muito que minha família se mudara de lá. Ironicamente, eu próprio por anos só passei naquela região, como passageiro na rodovia. Tudo está lá, mas ao mesmo tempo tudo mudou muito. O bairro está sujo e acabado, e ao caiado original das casas, se impõe os sobrados e puxados de tijolos. A escola está lá. O prédio da fábrica de tênis também, se bem que a produção esteja desativada. A venda de seu Nhô ainda existe, mas não pertence mais ao seu Nhô, fora vendida pelos seus filhos após a sua morte. O mangue é agora uma vala negra e o campinho cedeu à construção de um templo. Só a estrada não mudou: continua ali impassível, eterna, assistindo os homens, em suas máquinas, voando sem olhar as margens.

Eu parei uma última vez junto à margem. Em todos os sentidos eu já não era mais pequeno e diminuto. Mas talvez por nostalgia romântica me senti, neste último momento diante da rodovia, tão intimidado e curioso como quando menino.

(texto de Mario Barbatti) 


Leia também no Defenestrando Idéias:
O Duelista e o Pedreiro
A parábola da formiga

 


gun.gif (5899 bytes)

Gotas de Sabedoria