[26/mai/2003]
Do menino à margem da estrada
Quando
garoto, eu e minha família morávamos à margem da rodovia. Nossa
casa, no Bairro Novo, ficava a apenas três quadras daquela
imensidão de concreto. Muitas são as lembranças que tenho
daqueles tempos, mas é impressionante como sobre todas elas
domina em mim justamente a imagem imponente da auto-estrada,
comigo pequeno à sua margem, cogitando sobre o mundo que haveria
do outro lado.
A
escola primária beirava a estrada, e toda manhã a gente
caminhava pela rua de Dentro, que timidamente margeava a rodovia,
enquanto - ruidosos - os carros, ônibus e caminhões (muitos
caminhões) passavam velozes pela gente, naquele interminável
fluxo do trânsito interestadual.
Não
sei se os outros garotos também viviam a rodovia como um mito
pessoal. Para mim ela representava tudo o que eu não conhecia;
toda a minha curiosidade. Atravessar suas muitas pistas seria algo
como descobrir terras desconhecidas e habitadas por seres e
pessoas completamente distintas daquelas que habitavam meu pequeno
mundo. Então, quando eu descia a rua de Dentro para chegar à
escola, ou quando a subia em direção ao mangue, para jogar no
campinho, estava sempre a fantasiar com as coisas, as gentes, as
modas do outro lado.
Por
isso acho que até hoje sobrevive em mim a imagem do garoto,
pequeno, diminuto, olhando o mar de concreto que se apresentava
aos seus olhos. Quente, barulhento, veloz, imenso e perigoso
oceano intransponível.
Em
cima laje da venda do seu Nhô, um monte de moleque juntava para
soltar pipa. Eu, pipa empinada, vez ou outra me perdia olhando as
pistas um pouco mais de cima. Me enchiam os olhos, os caminhões
de carga, as carretas de automóveis, os basculantes, os tanques.
Mas a vista ainda não tinha perspectiva suficiente para observar
a outra margem. Dali de cima, menos que resolver o mistério, ele
só se fazia se intensificar, com a imponência daquele monte de
pistas que iam e vinham.
Passavam-se
os anos e mudavam os desejos, mas a estrada estava lá em seu
misto de solidez e movimentos eternos. No tempo certo, troquei as
peladas e as pipas, pelos sarros e punhetas, e nesta época os
mistérios da estrada já se começavam a se pôr no inconsciente.
Seriam só mais uma gota da personalidade do adulto que se gestava.
Aos quinze, fui trabalhar na fábrica de tênis, que ficava logo
depois do mangue. Naquele corpo magro e ossudo, a camisa branca
fechada até o penúltimo botão sobrava em panos; sobrava também
o orgulho do primeiro emprego. Carregava a marmita como a um troféu
de maturidade e já não me enchiam os olhos as fantasias sobre a
estrada.
Foi
preciso que muito tempo passasse, para que eu revivesse a raiz das
minhas curiosidades, da minha vontade de desbravar; de chegar,
fincar bandeira, e imediatamente me botar em jornada, rumo a um
novo e desconhecido destino. Para quem sempre se encantou com o
mundo e suas variedades, descobri, surpreso, que seria olhando
para dentro de mim, que eu conheceria um dos mais intrigantes
lugares que poderia visitar: as memórias intensas da rodovia.
E
talvez seja por isso que voltei ao Bairro Novo. Há muito que
minha família se mudara de lá. Ironicamente, eu próprio por
anos só passei naquela região, como passageiro na rodovia. Tudo
está lá, mas ao mesmo tempo tudo mudou muito. O bairro está
sujo e acabado, e ao caiado original das casas, se impõe os
sobrados e puxados de tijolos. A escola está lá. O prédio da fábrica
de tênis também, se bem que a produção esteja desativada. A
venda de seu Nhô ainda existe, mas não pertence mais ao seu Nhô,
fora vendida pelos seus filhos após a sua morte. O mangue é
agora uma vala negra e o campinho cedeu à construção de um
templo. Só a estrada não mudou: continua ali impassível,
eterna, assistindo os homens, em suas máquinas, voando sem olhar
as margens.
Eu
parei uma última vez junto à margem. Em todos os sentidos eu já
não era mais pequeno e diminuto. Mas talvez por nostalgia romântica
me senti, neste último momento diante da rodovia, tão intimidado
e curioso como quando menino.
(texto
de Mario Barbatti)
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