Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.

[03/jun/2003] A falácia da inflação

1. Nós fingimos que falamos, vocês fingem que entendem

Uma curiosa característica do alto-escalão do governo Lula é a capacidade de não falar nada relevante. A cada entrevista, a cada discurso e pronunciamento um monte de chavões são repetidos como se fossem verdades teoricamente estabelecidas; argumentos modulados por uma lógica enviesada são utilizados como válidos; analogias simplistas são feitas como se os cidadãos fossem um bando de imbecis.

Este baixo nível de comunicação, que o editor César Benjamin tem chamado de "dialética da empulhação", é uma prática recorrente entre várias figuras do governo, petistas e não petistas. Emblemática foi a palestra proferida pelo presidente do Banco Central, no XV Fórum Nacional do BNDES, há duas semanas. Naquele meio, cercado por empresários e economistas, Meirelles desperdiçou o tempo da audiência palestrando sobre a distinção entre juros reais e juros nominais e explicando o conceito de juros de equilíbrio. Fica a questão: por que o presidente do Banco Central do Brasil passaria mais de dois terços de sua palestra falando sobre o óbvio - matéria do primeiro dia de aula do calouro de economia - para uma audiência qualificada, ansiosa para discutir questões muito mais técnicas e profundas? A resposta óbvia parece ser a vontade de evitar o debate.

Que é mesma vontade que faz com que Lula só se comunique através de discursos, evitando a todo custo o contato direto com a imprensa. E que também é a razão por trás da comunicação dos ministros que só falam por meio de analogias, em tom condescendente, como se quisessem dar à população uma chance de entender a sapiência de suas idéias.

Neste nível raso da comunicação - analogias, chavões, definições conceituais triviais - tudo fica muito óbvio e impossível de discordar: "A inflação é ruim para o trabalhador"; "O rombo da previdência tem que ser sanado"; "O orçamento público tem que ser cuidadosamente controlado"; "Não se pode dar cavalo-de-pau na economia". Quem há de discordar de afirmações como estas? Portanto, pensam os homens de Lula, enunciemos apenas estas tolas verdades universais e quem discordar poderá ser taxado como radical, louco, ou ignorante.

2. Mente rasa, analogias ruins

Um dos casos mais recorrentes de utilização abusiva das analogias tem sido o "debate" sobre inflação e juros. Nos dias em torno da última reunião do COPOM, duas ou três vezes por dia víamos um vassalo da presidência enunciando que "os juros altos são um remédio amargo para a doença da inflação". Em seguida os boticários econômicos concluíam: "Reduzir os juros neste momento seria como cortar o medicamento de um paciente quase são".

Notem que esta analogia não diz absolutamente nada de técnico a respeito do controle da inflação pelos juros; não leva em consideração o papel dos vários agentes econômicos na taxa de inflação; não permite uma compreensão concreta de qual seria o momento certo para "parar com o medicamento". E como analogia, ela realmente não tem obrigação de conter estas informações. É aquele que a usa que tem, para qualificar o debate, que seguir adiante com as informações relevantes. Mas esta segunda parte não acontece. Fica tudo apenas no nível raso, no nível do remédio e do paciente. 

Então, qualquer um pode modificar a analogia de acordo com seu próprio gosto. Por exemplo, poderia ser: "Juros altos são um remédio amargo para inflação. Temos que parar agora antes que o paciente crie dependência". O valor de verdade desta nova analogia é exatamente o mesmo daquela enunciada pelo governo, ou seja, zero.

Mas o governo sabe que não pode se esconder apenas atrás de analogias. Neste ponto vem o expediente do argumento incompleto ou enviesado. Na questão dos juros, o governo tenta deslocar o debate para o tema do spread bancário. O próprio presidente afirmou: 

"Estou querendo fazer uma discussão sobre a taxa de juros porque acho que há muita coisa a mais na ordem do dia do que a taxa Selic. Fico imaginando que, se todos os juros cobrados no Brasil tivessem o percentual da Selic, teríamos uma fila, que daria a volta no planeta, de gente querendo dinheiro a 26,5%." (O Globo, 31/mai/2003) 

Certíssimo! Quem há de discordar das palavras de Lula? A diferença entre a taxa referencial (SELIC) e os juros praticados pelos bancos é anormalmente alta. Conclusão, o problema não é baixar a taxa referencial, e sim baixar o spread.

Palocci, 
o novo xerife de Nottingham.

Elegante e falaciosa conclusão: o argumento simplesmente deixa debaixo do tapete que a SELIC é a base para a remuneração do capital financeiro emprestado ao setor público. Portanto o seu valor, e mais especificamente, o seu valor diminuído da taxa de inflação é extremamente relevante, porque é o que controla tanto o endividamento público, quanto as opções de investimento privado. 

Neste momento a expectativa de inflação para doze meses está em torno de 8%, o que significa que o investidor comprando uma letra pré-fixada hoje, garantirá um rendimento de 18% de juros reais em junho de 2004. Como o governo já garantiu que, via superávit primário, reservará 67 bilhões de reais para o pagamento destes títulos, estamos diante do cenário fabuloso onde rendimentos fantásticos acontecem com risco nulo, às custas de estagnação econômica! Então como pode o governo, de Lula a Meirelles, ficar insistindo que o problema não é a SELIC, mas os spreads?   

3. Deixem os trabalhadores em paz!

Para investimentos pós-fixados com vencimento agora, descontada a inflação dos últimos doze meses o rendimento foi apenas de 10%, abaixo dos usuais 13% praticados em média ao longo dos últimos anos. Mas isto é jogo jogado e não afeta a inflação. Portanto não há motivo para o Banco Central manter juros altos visando proteger o rendimento do investimento passado. Ou há?

Aqui está a mais descarada e covarde falácia do governo federal e do Banco Central. Repetem à exaustão que os juros altos visam o controle inflacionário, e que o controle inflacionário visa proteger o trabalhador. 

Este argumento é falso. O controle inflacionário através da política de juros altos visa proteger a remuneração do capital financeiro. Tanto que temos visto ano após ano a renda do trabalhador, o número de empregos e a participação dos salários no PIB diminuir graças justamente às altas taxas de juros!  

Neste espetacular exercício de novilíngua, os economistas do governo argumentam que forçam o empobrecimento dos trabalhadores, até o nível em que um em cada quatro trabalhadores está desempregado, para protegê-los contra a inflação. 

Claro que não foi Lula & Cia. que inventaram este modelo econômico, que faria inveja ao xerife de Nottingham. Mas pelo menos Lula poderia demonstrar um pouco de respeito por sua bela biografia e admitir que não está mantendo o modelo para proteger o trabalhador. Que se digam os motivos reais: exigências do Fundo Monetário Internacional; prioridade do capital financeiro sobre o produtivo e os salários; uso de teorias macroeconômicas que não permitem outras soluções. 

Mas deixem os trabalhadores em paz.

(texto de Mario Barbatti) 


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