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[09/jun/2003]
As três pontas
A
cobrança dos cursos nas universidades públicas é assunto
recorrente nos noticiários, vindo à tona pelo menos uma vez por
ano. Desta vez, o próprio ministro da educação Cristovam
Buarque tratou de pôr o tema em discussão, ao defender o projeto
do ex-deputado Padre Roque (PT/PR), que prevê que o pagamento
seja efetuado após o estudante já estar formado e empregado com
renda superior a trinta mil reais anuais.
Claro
que defensores e opositores do pagamento têm bons argumentos para
sustentarem suas opiniões. Alegam, os primeiros, que o pagamento
seria socialmente justo, já que os maiores beneficiários do
ensino superior público são oriundos das famílias de classe média
e alta. Os opositores do pagamento, por sua vez, temem que a
cobrança seja um primeiro passo no processo de privatização do
ensino público superior. Os recursos orçamentários atuais não
seriam mantidos e o pagamento dos alunos tornar-se-ia receita
central para a manutenção das instituições.
Em
seu formato original, o projeto de emenda constitucional do Padre
Roque (PEC
573/2002) fixa as fontes de financiamento para as
universidades públicas, tornando os orçamentos previsíveis,
independentemente das políticas dos governos. Apesar do ponto
mais propalado pela mídia ser a contribuição dos ex-alunos, o
projeto também prevê um aumento na destinação orçamentária
para a área de educação, com alíquotas específicas de investimento
no ensino superior.
A
contribuição da União para o sistema de educação, por
exemplo, passaria dos atuais 18% para 25% da tributação. No caso
dos estados, subiria de 20% para 30%. O projeto obriga ainda que
pelo menos 75% do orçamento da União para a área de educação
seja destinado a um fundo a ser partilhado entre as instituições
de federais de ensino superior, e que um sexto da contribuição
de cada estado seja destinada ao ensino superior em seus territórios.
Este último ponto pode ser um ótimo dispositivo para estimular o
desenvolvimento dos estados mais pobres.
Desta
forma, Padre Roque propôs uma boa solução intermediária, entre
financiamento privado e público, promovendo um compromisso entre
cobrança
daqueles que podem pagar e uma dotação orçamentária garantida
constitucionalmente. Duas pontas, a do estado e a do cidadão, bem
amarradas às responsabilidades e possibilidades de cada um.
Mas
corre o risco da proposta ser novamente engavetada. Primeiro,
porque o que a princípio seria apenas como uma incômoda proposta
para a classe média, porém bem razoável do ponto de vista
social, pode torna-se, no atual cenário de tributação
excessiva, politicamente inviável. Em segundo lugar, em tempos de
superávits primários obrigatórios, é pouco provável que o
Ministério da Fazenda avalize aumentos de destinação para o
ensino. Talvez o maior risco, seja o de vermos o projeto ser
mutilado para contar apenas com a contribuição dos
ex-estudantes, sem a parte referente às obrigações públicas.
Apesar
de ser benéfico para o sistema público de ensino superior, o
projeto do Padre Roque é estranhamente incompleto, já que define
apenas o papel do estado e o papel do cidadão no financiamento do
sistema, sendo completamente omisso quanto ao papel do capital.
Afinal, tal como os estudantes, o capital é beneficiário direto
da competência do ensino público superior. Se a cobrança dos
ex-estudantes se justifica pelos benefícios que a sua formação
universitária lhes trarão, por que o mesmo raciocínio não é
imediatamente estendido às empresas que contratam os
profissionais treinados com dinheiro público, sem ter dado uma única
contribuição direta para esta formação?
Se
é verdade que os que estudaram em universidades públicas devem
pagar pelo investimento público em sua formação profissional, e
que o Estado deve fazer a sua parte para a manutenção do
sistema, é direto concluir que as empresas, sejam públicas ou
privadas, deveriam também pagar pela formação do profissional
altamente qualificado que estão contratando.
Professor
Buarque e Padre Roque talvez ainda venham a perceber que o cidadão
talvez nem se incomode tanto em contribuir para a sua
universidade, se ele souber que os outros interessados, o estado e
o capital, também terão as suas cotas bem estabelecidas.
(texto
de Mario Barbatti)
Leia
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Mais sobre políticas de cotas
Racismo e políticas de
inclusão
Para
saber mais:
Texto original
da PEC 573/2002. Informe Legislativo, n.24, 24/11/2002, pg.9.
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