Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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[23/jun/2003] Brevidades medio-orientais

1. Os iguais deveriam se atrair

Pode parecer paradoxal, mas se há alguma chance de entendimento entre palestinos e israelenses, este deve ser por meio de suas lideranças mais radicais.

Sharon, por exemplo, já mostrou que não é simpático à nenhuma solução em que haja palestinos vivos no final. Mas quando confrontado com a política real - desemprego, violência, acordos com partidos moderados, pressões internacionais - o primeiro ministro tem que por os pés no chão e trabalhar para o entendimento.

Mas note que o fato dele se identificar ideologicamente com os grupos da direita israelense, lhe dá a legitimidade para conduzir um processo no qual Peres falhou e Rabin perdeu a vida.

Pelo lado palestino, a figura equivalente seria a de Arafat. Mas enfraquecido por Israel, EUA e a velhice, se viu substituído  por Abbas, que é muito moderado para ser levado a sério pelo Hamas.

2. Idhs

A medida televisiva da intifada é o número de mortos. Nos noticiários é comum escutarmos o texto-padrão: "Desde o início da nova intifada já morreram x israelenses e y palestinos".

Mas cá entre nós, o objetivo central das brigadas palestinas não é o de matar judeus, assim como o objetivo central do exército israelense em ação nos territórios ocupados, não é o de manter a segurança de Israel. Ambos estão empenhados em desorganizar ao máximo a vida civil uns dos outros, que é o objetivo mais primário das técnicas terroristas, sejam elas apoiadas ou não pelos americanos. Pelas imagens televisivas é obvio que os israelenses têm sido muito mais competentes nesta cruzada (sem trocadilhos). 

Portanto fica a dica: a medida do conflito deveria ser feita em índice de desenvolvimento humano (IDH). É mais difícil de medir, não tem o mesmo dramático impacto da contagem crua do número de mortos, mas pode ser muito mais interessante para se compreender os meandros da bagunça medio-oriental.

3. Sugestões editoriais

E por falar em mídia, os editores dos noticiários internacionais poderiam ser mais cuidadosos com as escolhas de palavras.

Primeiro, poderiam prestar um grande auxílio à paz, se parassem de usar as seguintes expressões:

  • "Escalada da violência";

  • "Aumenta a escalada da violência";

  • "Continua a escalada da violência".

Meus ouvidos, em paz, agradeceriam.

Segundo, pode ser sutil, mas há diferença entre ataques de palestinos a civis israelenses e ataques de palestinos a militares israelenses. O ataque a civis pode ser chamado de terrorismo, mas a militares não. Ataque a militares é guerrilha, mesmo que envolvam os mesmos métodos que os usados contra civis. A maior parte dos editores não percebe a diferença.  

Finalmente, desviando o assunto para leste, os editores deveriam evitar se referir ao enviado da ONU para o Iraque como "brasileiro Sérgio Vieira de Mello". O adjetivo "brasileiro" é usado com uma insistência tão grande, que já tem gente achando que é o pré-nome do diplomata. 

4. Momento oportuno

A radicalização das ações de segurança do exército nos territórios ocupados e no controle das fronteira rendeu algumas semanas de sossego aos cidadãos israelenses. A coincidência destas ações com a Guerra do Bush, deu ao exército de Israel o aval (e o véu) necessário para implementar medidas mais repressivas que o suportável pela opinião pública européia em tempos mais normais.

Mas aí veio o Mapa da Paz de Bush e, repito, após semanas de sossego, uma série de ataques palestinos, incluindo dois na super-protegida Jerusalém, quebram o silêncio, comprometendo a agenda americana para a região. 

Fica a questão: por que a segurança israelense, que vinha se mostrando tão competente, no momento politicamente mais delicado começou a falhar sistematicamente?

Podem me chamar de bobo, daqueles que vêem conspiração em tudo, mas parece que se juntou a vontade dos radiais palestinos de explodir com a vontade do exército de Israel de deixar explodir. Realmente tem muita gente dos dois lados que não quer conversar.

(texto de Mario Barbatti) 


Leia também no Defenestrando Idéias:
Cenários da Guerra
Ainda não perderam a ternura
David contra Ted 

Para saber mais:
Índice de desenvolvimento humano - PNUD
Desenvolvimento humano nos territórios ocupados da Palestina.


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