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[01/jul/2003] O
tempo dos impérios
Ao
longo da história da humanidade, os povos sempre buscaram a
supremacia sobre os seus vizinhos. Conquista territorial, domínio
econômico, imposição cultural, superação militar são
características quase sempre presentes na manutenção destas
nações, que por sua potência impõem-se sobre regiões que
podem variar entre aquelas que cercam as margens férteis de um
rio, à territórios que ultrapassam barreiras continentais.
O
poder e a duração dos impérios é certamente proporcional ao
seu poderio econômico, cultural e militar com relação aos seus
vizinhos. Talvez seja razoável também esperar que a ampliação
de um império contenha em si própria o germe de sua
destruição. Afinal, em sua expansão, os impérios assumem uma
quantidade cada vez maior de interesses externos, que incluem
questões como controle de grandes fronteiras, despesas militares
crescentes, administrações coloniais, relações diplomáticas
múltiplas. Será
sempre da incapacidade de lidar com estes múltiplos interesses
externos, que detonará a crise que levará à superação da condição
imperial. Neste
ensaio, a partir destas hip óteses,
desenvolverei
um breve modelo teórico
para prever quantitativamente a duração de um império. Uma
das conclusões interessantes do modelo é que a duração do
império norte-americano teria uma data limite no ano de 2027. 1.
Desenvolvimento do modelo
Seja
P
o PIB relativo de um império com relação às nações de sua
região de influência. P pode variar entre zero (no caso
de um império cuja a economia é muito pequena) a um (no caso do
império controlar toda a produção da região).
Seu poderio militar pode ser expresso em
termos da fração f de P que é dedicada à
produção e manutenção de armamentos e exércitos. f
pode também variar entre zero (império completamente
desmilitarizado) e um (toda economia do império é dedicada ao
setor militar).
A duração,
D, deste império será proporcional a sua influência
econômica sobre seus vizinhos, a qual é proporcional à parcela de P
descontada os gastos militares fP, e também proporcional
aos gastos militares. Portanto:
(Eq.1) Chamaremos
o termo
(1-f)fP2
de fator de duração do império. Segundo
a Eq. 1, a duração do império será nula se sua economia ou seu
poderio militar forem nulos, ou no caso de toda a sua economia ser
dedicada ao setor militar. Por outro lado, o fator de duração
(1-f)fP2 tem um máximo quando o império
controla toda a economia da região e dedica metade de seu PIB ao
setor militar. Supondo
que a probabilidade de ocorrer um império com qualquer f
e qualquer P tenha uma distribuição uniforme, o valor
médio do fator de duração é:
(Eq.
2)
Como
discutido acima, a duração será inversamente proporcional ao número de interesses
externos. Podemos supor que o número de interesses externos vem aumentando ao
longo dos anos, t, sendo que os primeiros impérios
humanos, há t0 anos atrás possuíam um número
mínimo de interesses externos. Esta
hipótese se justifica primeiro sobre o desenvolvimento tecnológico que
permite, de modo geral, que os impérios assumam interesses
em pontos cada vez mais distantes de sua capital, até o limite
atual, no qual os interesses imperiais são planetários. Em
segundo lugar, regionalmente, os novos impérios assumem
parcialmente os compromissos externos pré-existentes, assumidos
pelas gerações anteriores de impérios. Portanto,
temos:
(Eq.3) onde
k é uma constante de proporcionalidade. A Eq. 3 é a
expressão-mestra de nosso modelo e permitirá estimar a duração
de um império, a partir de f, P e t. As
constantes k e t0
serão
determinadas empiricamente, na próxima seção. 2.
Análise dos dados históricos A
Tabela 1 traz os anos de início, fim e a duração de algumas de
dezenas de impérios, desde os mais antigos aos mais recentes,
baseados em vários continentes. Não
é uma compilação completa e as datas podem conter algumas
deficiências, como quando considerar o início ou o fim de algo
tão complexo como o domínio imperial. Mas uma característica
salta aos olhos imediatamente quando estes dados são postos
graficamente (ver Figura 1). A duração dos impérios parece
estar sistematicamente diminuindo com o tempo, tal como esperamos
a partir de nosso modelo matemático.

Figura 1. Duração dos impérios em função do seu
anos de início.
Dados da Tab. 1.
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Tomando
o fator de duração médio dado pela Eq. 2, o ajuste destes dados
pela Equação 3, nos fornece os parâmetros: k
= 41,3x106 anos2
t0
= -4084 anos. Com
estes parâmetros, é possível utilizar a Eq. 3 para se fazer
diversas estimativas a respeito da duração dos impérios (ver
Fig. 2).
Por
exemplo, um império cuja metade de sua economia fosse dedicada ao
setor militar (f = 0,5) e que controlasse toda a economia
regional (P = 1), teria um fator de duração de
(1-f)fP2 = 0,25.
Neste caso, vemos na Fig. 2 que se este império começasse no ano
2000 AC, ele duraria cerca de 4000 anos. Porém, se começasse em
2000 DC, duraria menos de 2000 anos. Note que dois impérios se
aproximam desta condição limite, os chineses e os maias.
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Figura 1. Resultados da Eq. 3 para vários valores do
fator de duração
(1-f)fP2,
que são mostrados acima de cada curva. Note que o
valor máximo é 0,25.
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3.
Duração do império norte-americano
No
caso do império norte-americano, podemos estimar a sua duração
considerando os seguintes dados. Os americanos têm um orçamento
para a área de defesa de 6% do PIB ou seja f = 0,06 (valor
médio entre aqueles da guerra fria, 8%, e os atuais 4%).
Seu
PIB constitui 26% do PIB mundial. Considerando que sua área de
influência imperial seja constituída de todos os países,
excluindo aqueles do G7, os quais respondem por 70% do PIB
mundial, o PIB relativo dos americanos é P = 26/(26+30) =
0,46. Isto nos dá um fator de duração de
(1-f)fP2 = 0,012.
Substituindo
estes valores na Eq. 3 obtemos:
(Eq.4) Ou
seja, a duração do império norte-americano deve ser, de acordo
com nosso modelo teórico, de 82 anos, o que nos dá como data
limite o ano de 2027. Podemos
estimar a incerteza nesta estimativa a partir do conjunto dos
dados tabelados. Na Fig. 1 são mostradas as
curva dos "longos impérios" e dos "curtos
impérios". Estas curvas são simples ajustes polinomiais
(grau 6) dos dados nos extremos do gráfico (com exceção dos
acadianos, no conjunto dos curtos impérios), de modo que todos os
impérios compilados se encontram entre as duas curvas. Supondo
que o império norte-americano não seja uma exceção, a curva
dos curtos impérios fornece uma duração mínima de 70 anos, ou
seja, data limite de 2005; enquanto a curva dos longos impérios
fornece uma duração máxima de 260 anos, ou seja data limite de
2205. Assim,
nosso modelo teórico prevê que o poder americano deve cair em
alguma data entre 2015 e 2205, sendo o valor mais provável o ano
de 2026. (texto
de Mario Barbatti)
|
Império
|
Início
|
Fim
|
Duração
|
|
Sumérios
|
-3100
|
-1950
|
1150
|
|
Egípcios
|
-3100
|
-30
|
3070
|
|
Hindus
|
-2500
|
-1500
|
1000
|
|
Acadianos
|
-2350
|
-2180
|
170
|
|
Chineses
|
-2000
|
1911
|
3911
|
|
Israelitas
|
-2000
|
70
|
2070
|
|
Babilônios
|
-1894
|
-539
|
1355
|
|
Hititas
|
-1700
|
-1193
|
507
|
|
Olmecas
|
-1500
|
-400
|
1100
|
|
Maias
|
-1500
|
1400
|
2900
|
|
Assírios
|
-1400
|
-612
|
788
|
|
Gregos
|
-1200
|
-323
|
877
|
|
Fenícios
|
-1000
|
-538
|
462
|
|
Cartagineges
|
-800
|
-146
|
654
|
|
Romanos
|
-753
|
476
|
1229
|
|
Macedônios
|
-640
|
-148
|
492
|
|
Persas
|
-550
|
637
|
1187
|
|
Nazcas
|
200
|
600
|
400
|
|
Bizantinos
|
330
|
1453
|
1123
|
|
Teothuacans
|
400
|
600
|
200
|
|
Gana
|
450
|
1050
|
600
|
|
Árabes
|
622
|
1258
|
636
|
|
Vikings
|
750
|
1100
|
350
|
|
Kanem-Bornus
|
800
|
1800
|
1000
|
|
Toltecas
|
900
|
1100
|
200
|
|
Benin
|
1000
|
1300
|
300
|
|
Iorubas
|
1100
|
1300
|
200
|
|
Bantos
|
1200
|
1432
|
232
|
|
Astecas
|
1250
|
1521
|
271
|
|
Zimbabwe-Mutapas
|
1250
|
1450
|
200
|
|
Nubios
|
1275
|
1523
|
248
|
|
Otomanos
|
1281
|
1918
|
637
|
|
Hausas
|
1300
|
1500
|
200
|
|
Malís
|
1312
|
1500
|
188
|
|
Songhays
|
1400
|
1528
|
128
|
|
Incas
|
1438
|
1535
|
97
|
|
Portugueses
|
1495
|
1975
|
480
|
|
Espanhóis
|
1519
|
1898
|
379
|
|
Britânicos
|
1600
|
1945
|
345
|
|
Austro-Húngaro
|
1867
|
1918
|
51
|
|
Soviéticos
|
1922
|
1991
|
69
|
|
Americanos
|
1945
|
2027
|
82
|
|
Tabela 1: Início, fim e duração de diversos impérios ao longo da história humana.
Datas do calendário cristão.
As cores indicam a região continental à qual o centro do império pertence: América, Eurásia, África, China.
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Uma
introdução à alogomancia
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