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[13/jul/2003] Cada
povo tem a bandidagem que merece Não
fico feliz com a constatação, mas me parece cada vez mais que se
a bandidagem carioca é selvagem, é apenas reflexo da selvageria
do carioca comum. Ou seja, cada povo tem, não só os governantes,
mas também os bandidos que merece. O
conceito de polidez, central para o individualismo burguês, é
estranho para uma parcela considerável da população,
independentemente de classe social. Devido a isto, o Rio se
assemelha a um grande baile funk: pessoas ignorantes, barulhentas e
mal-educadas, com muito pouca distinção entre o público e o
privado, às vezes com uma dificuldade antropológica de demarcar
espaços individuais.
Quando
a estas características da população se juntam a incompetência crônica do poder público e
a estagnação
econômica, a conseqüência é que viver no Rio torna-se um
exercício de paciência. A vida pública é de muito baixa
qualidade e é necessário um profundo exercício de
alienação para limitar o estresse causado por problemas
que vão da selvageria dos motoristas em trânsito, a uma
bolha inflacionária imobiliária que faz um mal
construído 70 m2, de frente para o barulho e
poluição da avenida Maracanã, custar 150 mil reais. Como
todas as outras grandes cidades brasileiras, o Rio é pobre.
Mais de 30% da população é pobre, sendo que 15% está em
situação de miséria. Nem é preciso dizer que a cidade
também é profundamente desigual. Por exemplo, em dois
bairros fronteiriços, Barra e Rocinha, o número de
miseráveis pula de 8% no primeiro para 22% no
segundo.
A
miséria urbana do Rio se traduz num absurdo número de
pedintes e ambulantes e criou ao longo dos anos uma cultura
de mendicância, que ultrapassa o drama da desigualdade
econômica. Mendigar tornou-se natural, não para os mais
velhos, que educados dentro de uma ética do trabalho,
preferem puxar carroças, ganhando menos de dez reais diários, a pedir
nos sinais, onde, por certo, ganhariam mais e com menos
esforço.
Mas é fácil perceber que as crianças e
adolescente não compartilham da "vergonha de
pedir", tão fundamental para o espírito do
capitalismo. É
fácil encontrar garotos de colégio, nutridos e com
uniforme asseado, esmolando centavos pelas ruas, sem ao
menos a desculpa moral da fome ou do ascetismo religioso.
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Observatórios
sociais a R$ 1,40
Viajar
de ônibus no Rio pode ser um ótimo
observatório da cultura e das práticas populares.
Vivi uma boa quantidade de histórias reveladoras do
espírito carioca, incluindo uns dois assaltos a mão
armada.
O
estresse urbano no Rio pode ser exemplificado quando num
simples trajeto entre o Fundão e o Rio Comprido, passei
pelos restos de um ônibus incendiado na Leopoldo Bulhões;
garotos que tentavam invadir o ônibus pela janela, na
Francisco Xavier; um taxista atirando lixo pela janela, em
frente ao Colégio Militar; uma moça brigando com uma
drogada para recuperar sua bolsa furtada, na Saens Peña; e
carros de polícia subindo, com as sirenes ligadas, a rua do
Bispo na contra-mão. Tudo isto em uma única viagem de 40
minutos, no final da tarde.
Guardo
uma outra viagem, como exemplo da cultura da mendicância.
Há um ano, um menino, uniforme bem cuidados de colégio
público, entrou e sentou-se ao meu lado. Percebendo que ele
ficava tentando olhar pela janela, com a curiosidade natural
de criança, me ofereci para trocar de lugar. O menino de pronto aceitou e claro imediatamente aproveitou para me
pedir "um trocado". Posso até estar sendo
injusto, mas pela aparência, era muito pouco provável que
a mendicância fosse uma necessidade para ele.
Em
todas os trajetos de ônibus, os passageiros são abordados
várias vezes por ambulantes vendendo de tudo, de balas a
escovas de dente. Para a maior parte dos ambulantes, o
discurso monótono "Senhores passageiros, desculpe
incomodar o silêncio da sua viagem, trago aqui a
promoção.." é obrigatório. Apesar de incomodar a
minha leitura, até acho que os ambulantes têm um certo mérito empreendedor, ao perceberem um mercado de
consumidores que os empresários tradicionais desprezaram.
Mas vários destes ambulantes demonstram a falta de respeito
pelo espaço privado, que considero típica dos cariocas,
quando colocam, sem permissão, amostras ou bilhetes
mendicantes sobre o colo dos passageiros. |
A
ética da tecnologia ou o demônio do reforço de graves No
Rio, o clima quente e dias claros estimulam humores festivos. O carioca naturalmente quer ficar até
mais tarde na rua, fugindo do calor úmido da noite. Mas este
espírito alegre se corrompe na incivilidade urbana e na incapacidade do carioca de observar limites. Jovens
exibidos, com seus Chevetes rebaixados e potentes alto-falantes, circulam mostrando todo o
poder que o funk e o pagode tem de diluir os neurônios numa massa
inerte. Bares, restaurantes e igrejas evangélicas, todos
sem isolamentos acústicos, se espalham pela cidade, incluindo
áreas residenciais, para garantir que sempre haverá uma fonte de
barulho, onde quer que o cidadão esteja. Uma
simples festa de aniversário de um filho da classe média,
promovida nos playgrounds dos prédios, pode ser testemunhada, em
toda sapiência musical de Sandejunior, a centenas de
metros. Como
não conheço em detalhes outras grandes cidades brasileiras, não
posso afirmar que estas características também não estejam
presentes fora do Rio. Com certeza estão, em algum grau. Mas
minha intuição me diz que, por algum motivo, no Rio é pior. Um
dos motivos insuspeitos para a incivilidade urbana é o acesso a
novas tecnologias. Novos brinquedos tecnológicos aparecem e
difundem-se por toda a sociedade sem dar tempo para a
assimilação e geração de um ética de comportamento no seu
uso. Sem referenciais de comportamento "adequados" e
"inadequados", as pessoas tendem a usar seus novos
brinquedos invadindo os espaços alheios e aumentando
o mal-estar urbano. Um
exemplo típico disto é o celular, que, sem-vergonha, toca em
teatros, cinemas e salas de aula. Mas com o tempo, ele vem se
adaptando, e uma ética de comportamento relativa ao seu uso vem sendo desenvolvida. Basta ver a reação irritadiça
dos público do teatro ao som de um celular. Mais
exemplos? A música mal feita, produzida em série pelas
gravadoras e tocada à exaustão pelas rádios populares, não é
uma novidade. A novidade é que o acesso a aparelhos de som cada
vez mais potentes e com reforço de graves universalizou-se na
última década. Novamente, a falta de uma ética de comportamento
relativo a como usar estes aparelhos tem dado uma importante
contribuição para a barbárie. De posse de um aparelho potente,
qualquer idiota, de pastores a funkeiros, se acha no direito de
cooptar para si o espaço público, inundando-o com suas
preferências sonoras. A
hipótese da pedra Mas
por que o cidadão não é mais constante no uso de um espírito
crítico, que permita decidir com mais sensatez o que é
"certo" ou "errado" para as práticas sociais?
A resposta para isto está na educação, mas não na educação
individual, mas na educação do conjunto da sociedade. No
Rio, como em quase qualquer outra cidade brasileira, se você deixar uma
pedra cair do alto de um edifício, você acertará, muito
provavelmente alguém com seis ano de estudo. Apenas duas em cada
três pedras acertará alguém com ensino médio
completo. Repetir esta mesma experiência na Europa, resultará
numa cabeça quebrada com provavelmente doze anos de estudo. Um
cidadão europeu com seis anos de estudo estará cercado por gente
com curso superior. Conseqüentemente, ele é obrigado a ser mais exigente
no consumo dos produtos culturais. O indivíduo é resgatado de
sua condição de baixa escolaridade pelo conjunto da sociedade educada. Já
um cidadão brasileiro com curso superior, quinze ou dezesseis
anos de instrução, está cercado por gente semianalfabeta.
Suas conversas, seus padrões de consumo, suas preferências
culturais estarão contaminados pela ignorância nativa. Ele
começa a achar 'legal' o pagode e natural assistir a novela da
Globo. O resultado final é que, independentemente da classe ou
escolaridade, todos somos puxados para a lama da ignorância
nacional. O Rio e o Brasil como um todo precisam passar por um
profundo processo civilizatório, que é muito pouco provável que
venha a ocorrer. Portanto,
me considero um otimista: nunca viveremos tempos melhores que o
atual. Olavo
de Carvalho vê medidas como "as quotas raciais, o
desarmamento civil, o casamento gay, o alarmismo ecológico, o
abortismo" como sinais de um golpe articulado por uma
"aliança mundial de neocomunistas, anarquistas, neonazistas,
radicais islâmicos e budistas" para dominar o planeta (O
Globo, 12/jul/2003). Curiosamente,
eu colocaria todas estas medidas na minha listinha de coisas para
fazer o país melhor. Acrescentem-se aí investimentos maciços em
educação, distribuição de renda e crescimento econômico, e
teríamos um bom receituário para que nossos netos vivessem um
pouco melhor que nós. Para
mim, carioca forçado, a única possibilidade de melhora é o
Galeão. (texto
de Mario Barbatti)
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