Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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[27/jul/2003] Fraude em ciência: exceção ou regra?

1. Por que os cientistas fraudam?

Se amanhã os jornais publicarem que um grupo de políticos, ou de advogados, ou de diretores de empresa, ou de policiais, ou de fiscais estão envolvidos com alguma fraude, ninguém se surpreenderá realmente.

É como se o ilícito fizesse parte da natureza de suas atividades. Um mal que deve ser expurgado com o rigor da lei, mas que todos sabemos que, como parasitas, não tardará a brotar novamente.

Porém, se a notícia de fraude envolve a produção científica, ela tende a causar surpresa. Afinal, o cientista é rascunhado pelo imaginário público como um tanto alienado e desapegado de coisas materiais. A ciência, fonte de verdade para o mundo contemporâneo, aparece como bastião extemporâneo da honestidade intelectual. 

Poderia até se admitir que um cientista passasse outro para trás, plagiando ou furtando a pesquisa do colega; mas parece bem menos crível que o cientista venha deliberadamente a fraudar resultados. Em ciência, os casos de fraude tendem a ser vistos como isolados, anômalos e anedóticos.

Não conheço dados estatísticos que possam sustentar minha opinião, mas realmente creio que estas noções estão bem distantes da verdade. A atividade científica envolve a acumulação do que Pierre Bourdieu chamava capital simbólico e, tal como qualquer capital, ele pode estimular a busca de atalhos ilícitos para o lucro.

Portanto, conforme compreendemos a ciência como um mercado no qual se compete pelo capital simbólico, percebemos que a fraude na atividade científica deve ser tão comum quanto em qualquer outra atividade. E se não for, será algo tão estranho, que merecerá profundas investigações.

Normalmente, a produção científica se converte em acúmulo de capital simbólico, na forma de reconhecimento entre os pares, acúmulo de autoridade e ascensão nas várias hierarquias institucionais das quais participa o cientista. O capital simbólico, por sua vez, se converte em capital real, já que ele determina a capacidade do cientista de angariar verbas para sua pesquisa (o que realimenta o ciclo, aumentando a produção) e angariar também vantagens financeiras pessoais.

Mas a atividade científica institucional normalmente coloca o cientista sob grandes pressões para corresponder às demandas de produção - que podem envolver publicações, registros de patentes, atividades didáticas e de divulgação, orientações acadêmicas, coordenações de eventos, atividades políticas e administrativas - ao mesmo tempo que impõe, dentro de um ambiente que pode ser bastante competitivo, restrições orçamentárias e de infraestrutura.

Neste sistema, é bem provável que aqueles indivíduos eticamente mais flexíveis, tendam a manipular suas pesquisas de modo a aumentar a produção e a acumulação do capital simbólico.

Um bom exemplo para ilustrar este processo foi dado por Trevor Pinch, que mostrou que as estimativas do físico Ray Davis, a respeito da detecção de neutrinos solares, variaram ao longo dos anos em função da demanda de verbas para a construção do seu dispendioso laboratório de detecção [1]. Nos anos críticos para a montagem do laboratório, em torno de 1964, a estimativa de detecção de neutrinos chegou a ser dez vezes superior que em outros momentos, com menos necessidade de verbas. 

Um ponto interessante deste exemplo é o fato de Davis nunca ter sido apontado como fraudador. Ao contrário, em 2002 recebeu o Nobel de física. junto com Masatoshi Koshiba, da Universidade de Tókio, por suas "contribuições pioneiras para a astrofísica, em particular para a detecção dos neutrinos cósmicos".
   
Predição do fluxo de neutrinos solares em função do ano de publicação do artigo que fazia a predição [Reproduzido de J. de Paula Assis, CH, abr. 2003.]

2. Pequenas e grandes fraudes

A maior parte das fraudes científicas deve se dar em pequenos elementos da pesquisa. Em pequenas adulterações de dados divergentes; na flexibilização do rigor metodológico; na escolha dos resultados mais satisfatórios; na omissão proposital de detalhes que possam levantar polêmicas ou questionamentos de metodologia; no uso da autoridade para garantir a co-autoria de pesquisas das quais não participou; no plágio de pesquisas divulgadas em meios menos acessíveis; na elaboração de textos com linguagens especialmente herméticas para ocultar inconsistências; na publicação dos mesmos resultados em diferentes meios.

A característica central do que eu chamo de pequena fraude é a utilização de procedimentos ilícitos, com diferentes graus de transigência ética, para garantir a produção científica, mas sem afetar significativamente o conteúdo de verdade expresso pelos resultados. Ou seja, a pequena fraude, apesar eticamente reprovável, não invalida, no geral, os resultados apresentados.  

Uma evidência indireta do quanto deve ser comum a pequena fraude em ciência é dada por Mikhail Simkin e Vwani Roychowdhury, pesquisadores da Universidade da Califórnia. Estes autores mostraram que o padrão de repetições de erros nas citações bibliográficas indicava que nada menos que 80% das referências citadas nos artigos científicos não eram realmente consultadas. Para chegar a esta estimativa, eles rastrearam como um erro em uma citação reaparecia por vários outros artigos, de outros autores, que possivelmente apenas copiaram o erro original, sem consultar a fonte citada [2].

Simkin e Roychowdhury também construíram um modelo matemático que mostra que este padrão de cópia de referências explica a distribuição das citações entre os artigo de física [3]. Em particular, eles concluem que os artigos contando com centenas de citações, são resultados de um processo de vantagem cumulativa, no qual as referências copiadas levam a novas referências copiadas.

   
   

A citação de referências sem consulta ao original faz com que a distribuição de probabilidades do número de citações de um artigo em física, se aproxime de uma distribuição aleatória. [Reproduzido de Simkin e Roychowdhury, cond-mat/0305150]

Menos que uma curiosidade acadêmica, a repetição de referências sem consulta faz com que a distribuição de probabilidades do número de citações dos artigos em física se aproxime de uma distribuição aleatória, na qual todos os artigos publicados teriam a mesma chance de serem muito ou pouco citados, independentemente de sua qualidade. Isto põe em cheque a validade do número de citações como critério de aferição da qualidade da produção científica. 

Apesar de ser bem provável que a pequena fraude seja muito freqüente nas publicações científicas, não há como saber o quão comum são também as grandes fraudes, aquelas que envolvem invenção, adulteração e manipulação dos resultados.

No caso do físico Jan Hendrick Schön, pesquisador dos laboratórios Bell, que nos últimos anos fraudou deliberadamente os resultados de umas duas dezenas de publicações, as fraudes só foram descobertas porque o autor chamou muita atenção pela quantidade de artigos publicados em revistas de primeira linha, tratando de um tema de alto potencial tecnológico.

Possivelmente, se a sua produção fosse mais modesta, suas fraudes teriam passado despercebidas. As "inacurácias" experimentais, quando seus dados fossem comparados com os de outros grupos de pesquisa, poderiam ser atribuídas às diferenças de metodologias.

Isto leva diretamente à questão: quantos outros pesquisadores da Bell não são mais inteligentes na confecção de suas fraudes e nunca serão descobertos?

3. Fraude ou erro?

Mesmo quando detectado o erro, não é simples determinar se se trata de um engano legítimo ou realmente um caso de fraude. Um caso clássico que carrega esta ambigüidade são os experimentos de Arthur Eddington, que em 1919 organizou as famosas expedições para a Ilha de Príncipe, na África, e Sobral, no Ceará, para realizar medidas durante um eclipse solar. Hoje sabe-se que os seus resultados - apresentados e amplamente aceitos como a confirmação experimental da Teoria Geral da Relatividade de Einstein - não eram confiáveis. 

Além da impossibilidade de se obter medidas com a precisão necessária nos observatórios móveis do começo do século vinte, dois terços dos dados experimentais - dezesseis chapas fotográficas - foram "tecnicamente" descartados por Eddington, justamente aqueles que apoiariam a mecânica clássica contra a teoria de Einstein. Mas curiosamente é bem provável que o astrônomo tenha agido de boa-fé. Ele acreditava que a Relatividade Geral estava correta. Portanto, na linguagem kuhniana, qualquer dado contrário deveria ser descartado como uma anomalia com relação à matriz disciplinar.

Cometido de boa-fé, talvez o nome fraude seja muito forte. Mas o fato é que pode ser bastante difícil determinar se a fonte do erro foi uma fixação em certos padrões considerados legítimos de respostas, como deve ter sido o caso de Eddington; ou um equívoco de procedimento; ou um embuste proposital. 

Em geral, quando confrontado com o erro, o cientista sempre pode apelar para um engano legítimo. Schön tentou este estratagema, mas sem ser convincente. Era realmente difícil explicar a falta de anotações de laboratório, a pane do seu computador sem backup e a destruição das amostras logo após os experimentos.

De qualquer modo, esta possibilidade de assumir um engano legítimo permite ao cientista flexibilizar as exigências de rigor metodológico, diante das demandas de produtividade. Conto, de minha experiência pessoal e de colegas próximos a mim, que é relativamente raro encontrar um artigo científico no qual uma leitura cuidadosa não nos leve a identificar algum erro. 

Se me pedissem um número, diria que em mais da metade dos artigos que li com cuidado - e não foram poucos - detectei algum erro. Normalmente erros pequenos, sem maiores implicações sobre os resultados gerais apresentados. Mas encontrei também, algumas poucas vezes, erros grosseiros, que comprometiam a própria proposta da publicação.

4. Cuidado! o sistema antifraudes não funciona.

Fraudar em ciências exatas, a princípio, não é simples. As publicações normalmente passam por sistemas de referendagem, nos quais revisores especialistas determinam os artigos que devem ou não ser publicados.

Mas o sistema abriga uma falha em potencial que é a dos artigos não serem revisados anonimamente. O editor e os revisores sabem quem são os autores, suas instituições e países de origem, e assim elementos espúrios a uma análise neutra passam a fazer parte do processo.

Muito possivelmente, um artigo de Schön sendo assinado a partir do Bell Labs teve muito maiores chances de ser aceito para publicação na Science, que se este mesmo artigo tivesse sido assinado a partir de uma instituição, digamos, brasileira.

Além disto, a referendagem, que é feita necessariamente por especialistas, limita o número de pesquisadores competentes para este fim. Logo, a chance de haver conflito de interesses entre o resultado do artigo submetido e os resultados que o próprio revisor vem obtendo em suas pesquisas é relativamente alta.

A capacidade do revisor de detectar fraudes também é muito limitada. A não ser nos casos grosseiros, que poderiam ser atribuídos mais a erros que a tentativas de fraudes, os revisores apenas julgam se os resultados teóricos ou experimentais são consistentes com o que se conhece sobre o assunto e razoáveis nas novas predições. O fato é que os pesquisadores têm bastante liberdade para publicar pequenas e grandes fraudes.

Esta situação cria um sério problema: o principal indicador de produtividade científica, os artigos especializados, e o principal sistema de garantia da qualidade deste indicador, a revisão especializada, parecem extremamente falhos. 

A contagem do número de artigos estimula a fraude; a contagem do número de citações pode - como mostrado por Simkin e Roychowdhury - não ter significado algum; o levantamento da qualidade dos jornais nos quais os artigos foram publicados é distorcido pelo preconceito e interesses dos editores e revisores; o processo geral de revisão especializada é completamente aberto às fraudes. 

E para não dizer que a questão é recente, em 1977, Richard Smith, editor do British Medical Journal, já diagnosticava que o problema com o sistema de revisão de artigos é que ele "é caro, lento, sujeito a desvios, aberto a abusos, possivelmente avesso às inovações e incapaz de detectar fraudes".

Enquanto o público e os próprios cientistas vão acreditando que os embustes são episódios ocasionais que sempre virão à tona, é assustador pensar que a ciência, em nível mundial, possa ser um grande edifício completamente carcomido pela fraude.

(texto de Mario Barbatti)


Leia mais:
[1] J. de Paula Assis, Dialética da Fraude, Ciência Hoje, abril de 2003.
[2] M.V. Simkin and V.P. Roychowdhury, Copied citations create renowned papers? cond-mat/0305150 
[3] M.V. Simkin and V.P. Roychowdhury, Read before you cite! cond-mat/0212043

Leia também no Defenestrando Idéias:
Oito anos desde Sokal
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