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[16/ago/2003] Portal
da Capes, até quando?
Desde
2000, o Ministério da Educação mantém por meio da Capes um
portal de acesso on-line a 185 mil teses, mais de 3500 publicações
acadêmicas nacionais e internacionais e 13 bases de dados. Cerca
um milhão de usuários, em uma centena de instituições - entre
públicas de ensino superior, institutos de pesquisa com pós-graduação
reconhecida pela Capes e instituições privadas com pelo menos um
doutorado com nota 5 na avaliação da Capes - têm acesso ao
portal.
O
acesso é direto, gratuito, rápido e sem burocracia. Sobre as
bibliotecas tradicionais, tem a enorme vantagem de permitir o
acesso em qualquer lugar do país, democratizando e
desregionalizando o acesso à informação, e ainda contar com mecanismos de pesquisa bem
mais eficientes que os desajeitados Abstracts em papel.
Basta que o usuário tenha acesso à internet via um terminal com
endereço de IP de uma das instituições cadastradas.
A
manutenção do Portal
da Capes, um dos maiores do mundo, representa um considerável esforço financeiro. De
um orçamento anual de cerca de 500 milhões de reais, a Capes
paga 56 milhões de reais (18 milhões de dólares) para manter o
portal. Não seria portanto surpresa que, em tempos de vacas
muito magras, as oscilações orçamentárias pusessem em risco
este tipo de programa.
Nas
últimas semanas, boatos sobre uma redução no orçamento da
Capes para 2004 levou muita gente a acreditar que o Portal poderia
ser descontinuado. A apreensão aumentou quando o presidente da
CAPES, Jamil Cury, pediu demissão no dia 29 de julho, sem nenhum
motivo muito claro. Num cenário no qual as publicações
impressas já não chegam às bibliotecas universitárias, uma
paralisação ou mesmo uma redução do Portal da Capes
significaria um duro golpe no sistema de pesquisa e ensino
superior nacional.
O
ministro Cristovam Buarque se apressou em desmentir os boatos.
Tentou tranqüilizar as comunidades acadêmicas afirmando que o
programa não sofreria quaisquer descontinuidades. Mas ao mesmo
tempo, no Globo do dia 6 de agosto último, declarou que "o
MEC quer baixar um pouco o preço e aplicar os recursos na própria
Capes". "Não é possível gastar R$ 80 milhões sem
renegociar".
O
ministro está certo, sejam 80 ou 56 milhões, com certeza o
governo brasileiro tem poder de barganhar com as várias editoras,
os preços para a renovação das assinaturas para 2004. Mas
possivelmente não muito. Nos níveis atuais de acesso do Portal, um artigo
no formato pdf baixado de uma revista da editora européia Elsevier sai por 4 dólares,
o que já está bem abaixo dos 30 dólares que esta editora cobra
por uma compra avulsa do mesmo pdf. De qualquer modo, não se pode
desprezar que os usuários do Portal da Capes devem baixar, só da
Elsevier, cerca
de 3,6 milhões de artigos neste ano, ou seja, o governo
brasileiro não é um cliente qualquer.
Mesmo
que tenham sido só boatos, não é necessário um grande poder
divinatório para prever que, mais cedo ou mais tarde, o Portal
vai ser descontinuado. Quem freqüenta as bibliotecas universitárias
conhece muito bem os efeitos das crises políticas e econômicas
sobre as coleções. É fácil encontrar nas estantes, por
exemplo, os buracos deixados pelos anos Collor.
Mas
nos idos tempos das coleções em papel, quando a assinatura
atrasava ou era descontinuada, pelo menos os estudantes e
pesquisadores mantinham acesso aos números antigos, que já
estavam nas estantes. No modelo virtual do Portal, a
descontinuidade significará que imediatamente perderemos o acesso
não só aos novos números mas também aos antigos, que já não
são comprados em papel.
Outro
risco, mais especulativo, mas não menos desastroso é de um
eventual endurecimento das regras de publicação e divulgação
científica por parte do governo norte-americano. Nos dias de hoje,
não é absurdo pensar que republicanos mais temerosos com relação
às questões de segurança interna tentem bloquear a divulgação
internacional de revistas científicas de áreas sensíveis, como
bioquímica, engenharia nuclear, microbiologia ou medicina. Para
quem duvida desta possibilidade, basta lembrar que em 15 de
fevereiro de 2003, discretamente pressionados pela administração
Bush, editores das mais importantes publicações americanas e
britânicas, entre elas a Nature e a Science, assinaram um manifesto
se comprometendo que "se em alguma ocasião um editor
concluir que o risco em potencial de uma publicação supera os
benefícios públicos", este editor poderá sugerir que o
artigo seja modificado, ou mesmo não publicado.
Estes
são riscos que de fato deveriam ser considerados pelas comunidades
acadêmicas. Possivelmente por motivos contratuais, o Portal da
Capes não prevê a manutenção de um espelho (uma cópia das
publicações) baseado no Brasil,
que garantiria que se - apenas hipoteticamente - em 2004 o superávit
primário atropelasse o Portal da Capes, continuaríamos a ter
acesso aos artigos publicados até 2003.
Não
existe, até onde posso ver, nenhum impedimento técnico muito
grande para se montar um espelho deste gênero. Numa estimativa básica,
ele consumiria uns 700 GB/ano, não mais que uns 10 bons HDs. O
problema é realmente contratual, que hoje proíbe, por exemplo, a utilização
de meios automáticos de pesquisa e download dos artigos (robôs).
O
Portal da Capes é uma benção para o sistema de ensino e
pesquisa superior brasileiro, mérito do governo FHC. Mas, da
forma que é mantido hoje, sem dotação orçamentária garantida
e sem um espelho brasileiro, é extremamente frágil e sujeito aos
desmandos das políticas nacionais e internacionais. Por isso a
Capes e o Ministério da Educação deveriam pensar seriamente nos
meios de garantir a sua manutenção a longo prazo.
(texto
de Mario Barbatti)
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