Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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[23/ago/2003] Wallerstein: não li e não gostei

Immanuel Wallerstein é uma daquelas figuras simpáticas. Pesquisado sênior da Universidade de Yale e diretor do Centro Fernand Braudel para estudos sociais da Universidade do Estado de Nova York, fala as coisas que queremos ouvir no momento certo. Com seu discurso rápido, bem articulado e concatenado, ataca o grande vilão do momento, George W. Bush e seu Sindicato Republicano do Mau. 

Não bastasse prever a queda do império americano, sua análise do mundo contemporâneo leva à explosiva e midiática conclusão de que todo o sistema capitalista tem os seus dias contados. Nada mais fácil para garantir popularidade nos fóruns anti-globalização e vender seu novo livro "The Decline of American Power: The U.S. in a Chaotic World" (New Press, 2003).

Não conheço a obra de Wallerstein, a não ser por seus textos na internet e uma rápida entrevista na TV. E foi justamente esta entrevista, no programa Milênio, da Globo News, que me chamou a atenção. Apesar da retórica segura, a exposição de Wallerstein era um curioso conjunto pouco coerente de idéias.

Sua análise se constituía de uma mixórdia de elementos de vários domínios. Transitava sem densidade entre conceitos de caos e sistemas dinâmicos, análise geopolítica, sociologia estrutural e análise histórica, recheando tudo com citações de temas clássicos da filosofia.

Quer um exemplo? A sensibilidade às condições iniciais que sistemas complexos apresentam é utilizada para explicar o conceito clássico de livre-arbítrio. Algo que já havia sido feito mais ou menos com o mesmo nível de profundidade pelo Dr. Ian Malcom, em Jurassic Park. 

Numa análise ao estilo de Marx [1], Wallerstein tenta vislumbrar uma crise do sistema capitalista, a partir de um esgotamento estrutural interno. Explica didaticamente que esta crise ocorre devido a um aumento dos custos de produção causado pelos altos salários pagos pelos sistema, a partir da diminuição das populações rurais, do aumento das cargas tributárias para manter os sistemas democráticos e dos custos ecológicos da produção. 

Mas onde está a crise? Em cada uma de suas hipóteses é possível ver fraquezas. Por exemplo, mesmo sem populações rurais, os bolsões de miséria de todo o mundo continuam funcionando como fornecedores de mão de obra barata para o sistema. Wallerstein desconsidera isto, de tão apegado está à hipótese da escassez de migração rural.

Na maior parte de seus textos, fala de uma suposta crise americana, que seria demonstrada justamente pela força de sua atuação militar. "Os falcões (grupo de Bush) querem amoldar o orçamento governamental norte-americano de tal forma que não sobre lugar para mais nada a não ser despesas militares." ("Shock and Awe?", 11/Abr/2003) Mas a história recente não ajuda sua análise. Afinal, os custos militares americanos de fato diminuíram nas últimas décadas. E qual a relação da "crise americana" com a "crise estrutural do capitalismo"?    

Como novo profeta do socialismo, vislumbra nos movimentos anti-sistêmicos - ONGs, ambientalista, minorias organizadas, etc. - os novos sujeitos que substituíram o proletariado na função de construir a nova ordem mundial, isto se vencerem as dificuldades de conjuntamente construírem uma agenda positiva. Mas é justamente aí que está o problema: tome todas as organizações e pessoas que se juntaram no Fórum Mundial Social de Porto Alegre, analise suas idéias, e o que sobra em comum? Apenas o inimigo. Não há agenda positiva possível.

Wallerstein não me convenceu. Vai permanecer bastante tempo ainda entre os autores que não vou ler.

(texto de Mario Barbatti)


[1] Após a publicação deste texto, o historiador e professor Luiz Souza, me enviou os seguintes comentários: 

"Li o teu texto sobre o Wallerstein e tenho a seguinte contribuição: Wallerstein não é e nunca foi marxista. É conhecido entre os historiadores por sua "interpretação" da crise do século XVII na Europa, em que faz barulhentas críticas à interpretação marxista sobre o tema. Tais críticas, como lhe parece óbvio, têm mais barulho do que substância (inclusive por serem anti-marxistas). O fato de I. W. ser ligado ao instituto Fernand Braudel - antro de estruturalistas irracionalistas, à imagem de seu patrono - corrobora minha assertiva. Se vc viu marxismo na argumentação dele durante a entrevista, há grande probabilidade de ser involuntário... é curioso como os de fora chamam de "marxista" qualquer espasmo intelectual pró-povo. Até o coitado do Celso Furtado, um estruturalista puro-sangue, é tomado por "cumunista"...

De toda forma, travar conhecimento com a crise do século XVII é fundamental não só para os marxistas, mas também para os defenestradores de idéias que têm algum carinho pela História. E nesse campo, I. W. é, se não o melhor autor para vc se inteirar do assunto, um significativo interlocutor. As abobrinhas que o sr W. planta ao longo de sua obra sobre este assunto forçaram historiadores de verdade como Christopher Hill e Eric Hobsbawm a nos esclarecer sobre os porquês daquele alemão ter enxergado uma crise na Europa do século XVIII. Só isso já vale o trabalho de ler, não vale?"

Como respondi ao prof. Souza, não quis dizer que Wallerstein era marxista, mas que sua análise estrutural era "ao modo de Marx". Estou pensando por analogia com o livro 3 do Capital, onde Marx vislumbra o esgotamento do Capitalismo a partir de relações estruturais internas ao modo de produção. E isto é exatamente o Wallerstein faz. Com certeza a influência é de Marx, que creio que foi o primeiro a fazer este tipo de análise, que por sinal acho formalmente correta.   

A este argumento, ele ainda me respondeu:

"Aí é que está o perigo: "análise estrutural ao modo de Marx". Enxergar o que está em movimento como algo parado poderia ser muito bonito para um cientista hipotético do século XVII, mas apenas o transformaria em um economista neoclássico (essa espécie que enxerga tudo "parado" e em "equilíbrio") no nosso tempo. Extirpar "categorias" como "população rural" e "custo de produção" de seu habitat natural - o respectivo modo de produção - é como querer que um cérebro funcione separado do restante do corpo, e nesse caso, o cérebro de nosso querido IW há muito "deixou o prédio".

Particularmente o que mais me interessa no Livro 3 é a financeirização das "crises" capitalistas em seus estertores - a banca financeira, cada vez maior e mais voraz, passando o rodinho nas fichas da economia real, conduzindo-a ao buraco negro, e preparando o terreno para um novo ciclo de acumulação - salários baixos, condições de vida imiseradas, gente disposta a vender sua força de trabalho e gente disposta a valorizar valor no novos níveis estabelecidos... pela banca. Claro que, no final, o rodinho sempre vai voltar. Um tal de Rudolf Hilferding - sujeito interessante - já chamou a atenção para isso, há muito tempo. Mas o problema de verdade é o fordismo na intelectualidade - o fordismo da Fundação Ford. Eles NÃO VÃO tocar nesse assunto porque não interessa, ora bolas... quem é que está nessa para desdizer o patrão?Só eu, você e um punhado de malucos qu não querem se dar bem na vida, prezado. .. Mas o fato é que, no ritmo cada vez mais voraz e predatório desses ciclos (1 830 - 1870, 1870 - 1930, 1930 - 1980 e agora o de 1980 - ...), os quais foram "resolvidos" na base do dinheiro fácil que vem das guerras, uma hora a humanidade e o planeta não aguentam. Isso mesmo: a alternativa à mudança das relações de produção é o suicídio. O Capitalismo se gabar de ter uma resistência tão grande equivale ao orgulho de um bêbado em tomar hoje o dobro de álcool que tomou ontem... burrice suicida.

De qualquer maneira, vale a pena ler o Hill e o Hobsbawm sobre a crise do século XVII (é XVII mesmo!)"


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