Defenestrando idéias
Mario Barbatti


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[01/set/2003] O grande inimigo

A onda de calor no verão europeu é uma das conseqüências mais notáveis das mudanças climáticas globais. Imagino que muita gente, suando sob o sol londrino, deve estar amaldiçoando Bush por não ter assinado o protocolo de Kyoto. Mas a Casa Branca tem outra visão da história. Bush e seu Sindicato Republicano do Mau consideram que o escaldante verão europeu é apenas um ajustamento natural dos ecossistemas, ao aumento da expectativa de vida da população européia. Nada a ver com queima de combustíveis fósseis.

Inclusive, se um curioso com as mudanças climáticas procurar pelo tema "Aquecimento Global" no último relatório anual sobre ambiente da Agência de Proteção Ambiental norte-americana (EPA), encontrará apenas a curiosa afirmação "This report does not attempt to address the complexities of this issue". Cinco capítulos, nove apêndices e nada a dizer sobre aquecimento global.

Conta uma matéria de Andrew C. Revkin e Katharine Q. Seelye, no New York Times de 19/jun/2003, que as primeiras versões deste relatório continham uma seção completa sobre o tema, discutindo os efeitos do aquecimento global e citando vários estudos que mostravam que era um efeito antropogênico. Segundo Revkin e Seelye, a Casa Branca retirou estas referências e, por exemplo, um estudo de 1999 que mostrava que a temperatura global estava subindo rapidamente, com relação às alterações dos últimos mil anos, foi substituído por um outro financiado pelo American Petroleum Institute (API) questionando este resultado.

(A API sabe que não deve negar o aquecimento global. É bem mais eficaz questionar a sua intensidade. Na sua homepage, após contar sobre os bilhões de dólares que a industria do petróleo investe em preservação ambiental e sobre a redução da poluição resultante dos combustíveis fósseis, o Instituto adverte: "Accurate estimation of greenhouse gases is essential to managing them and judging progress, yet the requisite knowledge and tools for this, both within industry and within government, have been rudimentary and often unreliable.") 

Na gestão atual, a Casa Branca fez questão não só de eliminar qualquer referência a aquecimento global no relatório da EPA, como também de trocar pessoas incômodas em postos-chaves. A publicação do relatório "editado", em junho de 2003, coincidiu com a substituição da administradora da agência, Christine Whitman, por Linda Fisher, que permaneceu no cargo por apenas duas semanas, até Marianne Horinko assumir.

Reunidos na Casa Branca, Rumsfeld, Bush e Powell 
discutem as vantagens do aquecimento global.

E estas mudanças extrapolam o território doméstico. Em 2002, a administração Bush também se posicionou contra a reeleição do Dr. Robert Watson para a direção do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), órgão ligado ao Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP). 

Dr. Watson não é qualquer um. Foi diretor da divisão de ciências da NASA, cientista chefe do Banco Mundial e, desde 1996, diretor do IPCC. Mas sua gestão colidiu com os interesses da Casa Branca quando o relatório de 2001 concluiu que a maior parte do aquecimento observado nos últimos cinqüenta anos pode ser atribuído a atividades humanas e ainda estimou a taxa de aumento da temperatura global em 0,15oC/década.

Após a publicação do relatório do IPCC, a ExxonMobil atuou diretamente junto à Casa Branca para impedir a reeleição de Watson. Um fax enviado no início de 2001 por Arthur Randol, conselheiro sênior para assuntos ambientais da ExxonMobil, para John Howard, do Conselho sobre Qualidade Ambiental (CEQ) da Casa Branca, já colocava a seguinte questão: "Can Watson be replaced now at the request of U.S.?" Bom, se foi ou não a influência da indústria de petróleo sobre a Casa Branca não dá para afirmar, mas desde abril de 2002 a direção do IPCC não está mais com Dr. Watson, e sim com Rajendra K. Pachauri.    

Vários grupos têm denunciado constantemente como a administração Bush tem distorcido, manipulado e ocultado informações científicas do público norte-americano. A questão do aquecimento global é apenas um caso particular, mas exemplar de como este processo está se dando. Ao curioso, fica como sugestão uma visita ao site Politics & Science, que traz detalhes sobre diversos outros casos interessantes de desinformação científica praticada pela administração Bush. 

Opa! Faltou explicar a relação entre o assombroso verão europeu e o aumento da expectativa de vida da população européia. Para a Casa Branca, o aumento da população de idosos gera um proporcional aumento de flatulência, com impacto imediato sobre a concentração de gases-estufa sobre a Europa. Tais gases levam ao observado aumento da temperatura, que como conseqüência, leva a um aumento do número de mortes na população idosa. Com a redução do número de idosos, a flatulência cairá, e os próximos verões serão mais amenos. Puro equilíbrio ecológico.  

(texto de Mario Barbatti)


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