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[22/set/2003] O
FMI e o babuíno dominante Colecionando
fracassos em seus inúmeros planos de estabilização monetária
mundo afora, o Fundo Monetário Internacional tornou-se alvo
fácil das críticas, não só de grupos políticos de esquerda,
mas até de celebridades do mundo financeiro, como George Soros.
Tais
fracassos retumbantes foram deliciosamente resenhados e criticados
por Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de economia de 2001, no best
seller "A Globalização e seus Malefícios" [1], obra
que o ministro Palocci fez questão de discretamente portar em
público durante o último mês de julho.
Diante
deste quadro de críticas, não seria surpresa que mais cedo ou
mais tarde, algum país em crise se rebelasse contra a cartilha de
recomendações contratuais do FMI. O Brasil, à época da
eleição de Lula, tornou-se um candidato à rebeldia. A
renovação do acordo em 2002, em pleno processo eleitoral,
exigindo um explícito aval de todos os candidatos à
presidência, foi uma excelente estratégia do Fundo para
minimizar os riscos.
Lula
ganhou e, para surpresa de muitos, pouco mudou em termos de
política monetária. Para alívio dos técnicos do Fundo, o novo
Executivo brasileiro não só se manteve fiel ao acordo, como
defende apaixonadamente determinados pontos, como a manutenção
de superávits primários elevados.
Exemplo
de fidelidade extremada ao acordo foi dado pela imensa energia
empenhada na condução da reforma da previdência. O memorando técnico
que define as metas a serem atingidas durante a vigência do
acordo (2002-2003), coloca explicitamente como parâmetro
estrutural:
"Apresentação de
legislação ao Congresso Nacional dispondo sobre a criação de
fundos de pensão complementar para os servidores públicos
federais após a aprovação da legislação pertinente." (Memorando
Técnico, Ministério da Fazenda, 04/set/2002.)
Na quarta revisão do acordo, em
20/ago/2003, o Ministério da Fazenda presta contas ao Fundo:
"Caro
Sr. Köhler: (...)
A legislação para os fundos de
previdência complementar do setor público foi incorporada na
própria reforma da previdência. Prevemos que a reforma estará
concluída no final do ano, quando encaminharemos a legislação
para a criação dos referidos fundos dos servidores civis, como
estipulado no parâmetro estrutural acordado no começo deste
ano. Acreditamos, portanto, que esse parâmetro não é mais
necessário." (Carta
de Intenção, Ministério da Fazenda, 20/ago/2003.)
A
leitura destes documentos é bem interessante. Há exigências
sobre a privatização de bancos estaduais federalizados, sobre a
transformação do PIS/CONFINS em um imposto sobre valor agregado
e sobre a desvinculação das receitas da união. Ou seja, várias
das prioridades do novo governo foram definidas previamente pelo
FMI, antes mesmo das eleições.
Bom,
no meio de todo este bom-mocismo, ficou claro que não seria o Brasil,
o menino peralta. Em recompensa, gente grande do Fundo, como Horst
Köhler e Anne Krueger, se desmancham em elogios ao governo
brasileiro e prometem algumas benesses para a renovação do
acordo no fim de 2003.
A
tranqüilidade do Fundo, no entanto durou pouco. A rebeldia irromperia
na própria América Latina, daquele que já não têm muito a
perder, a Argentina.
Ao
contrário de Lula, Kirchner desde o início do governo tem se
comportado de forma-malcriada, criticando e maldizendo o FMI. Nas
últimas semanas, bateu de frente com o Fundo sobre os termos
do novo acordo e ainda cancelou o pagamento de uma parcela do
último empréstimo. Segundo o divulgado pela imprensa, o
presidente argentino é particularmente contra o aumento das
tarifas públicas, exigido pelo Fundo para proteger as
multinacionais sediadas no G7, que hoje controlam os serviços
privatizados.
O
FMI têm uma lendária fama de arrogância. Dizem que seu corpo
técnico, em visita aos países clientes, não confia nos nativos
locais, e quando muito considera o Ministro da Fazenda um
interlocutor qualificado. Narrativa de segunda-mão, de um
economista que já assistiu a uma destas reuniões, conta que os
técnicos apenas apontam os pontos que querem modificados. Sem
discussão, sem ouvir especialistas locais, nada. Com medo de
desagradar ou contrariar os enviados do demônio, a pajelança
local acata tudo passivamente.
Por
isto, criou-se uma certa expectativa sobre como o FMI responderia
às afrontas da Argentina. Abandonaria o país à sua própria sorte?
Utilizaria mecanismos de retaliação? Ou, após
apanhar de um improvável macho dominante, baixaria a bola e cederia em um novo
acordo?
Após
uma semana de suspense, a Argentina fechou um "acordo
suave" de 12,55 bilhões de dólares com o FMI. Apesar de manter o arrocho e alto
superávit fiscal (3%), o acordo não estabelece metas de inflação, prevê
renegociação de contratos com as concessionárias de serviços
públicos e possui abertura para renegociação das dívidas.
Bingo!
John
Dodworth, chefe da missão a Buenos Aires e o mais recente macho
dominado na selva do neoliberalismo, simplesmente declarou: "podemos parecer ingênuos, mas quando o presidente [Kirchner]
nos disse que não iria assinar algo que não poderia cumprir,
nós acreditamos" [El Clarín, 21/set/2003].
Bom,
os analistas políticos mais cínicos creditaram a atitude
combativa de Kirchner à proximidade das eleições nas
províncias. Porém, é inegável que a sua língua ferina, da
qual até o presidente Lula já fora alvo, tem estado bem ativa,
mesmo antes do calendário eleitoral. Kirchner adotou um discurso
nacional-desenvolvimentista semelhante ao de Lula pré-eleição,
mas o manteve no poder de maneira substancialmente mais firme que
o colega brasileiro.
No
Defenestrando Idéias de 03/mar/2003,
defendi que o Brasil tivesse, àquela época, uma atitude similar
à da Argentina agora, talvez não tão enfática. Cobrando do FMI
mudanças profundas em políticas que sistematicamente têm levado
inúmeros países à crise e à recessão.
Mas
para o bem de todos e felicidade geral da nação verde-amarela,
na sua covardia estratégia, o governo brasileiro manteve-se
calado e deixou o trabalho sujo para
os portenhos. Aberto o notável precedente para a Argentina, se
houver um mínimo de coerência nas políticas do Fundo, a
renovação do acordo no Brasil poderá contar com diretrizes
menos recessivas que as aplicadas até agora.
(texto
de Mario Barbatti)
[1]
J. Stiglitz, "A
Globalização e seus Malefícios", Ed. Futura, 2002.
Leia
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O ano em que perdemos a
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