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[29/set/2003] A
opinião intocável Richard
Dawkins, biólogo evolucionista e notável divulgador da ciência
da Universidade de Oxford, tem criticado o excessivo respeito à
religião. Ele quer chamar a atenção para como a sociedade
deposita uma imensa confiança nas opiniões dos religiosos, como
se apenas a sua posição de liderança espiritual os tornassem
dotados de uma inquestionável sapiência.
Dawkins
parece especialmente incomodado com dois pontos.
Primeiro, com a onipresença da opinião religiosa na mídia. De
fato, forme-se na TV uma turma para debater a questão, digamos,
do aborto, e certamente ela contará com um padre, ou um pastor,
ou um rabino.
Segundo,
com a impossibilidade de se criticar as opiniões religiosas.
Você pode discordar politicamente de alguém e dizer:
"Fulano, seu partido é uma porcaria". Em boa parte do
mundo, não haverá problema algum com isto. Então por que você
não pode dizer "Fulano, sua religião é uma
porcaria", sem que isto soe agressivo? Existe - aponta
Dawkins - um tabu que limita a possibilidade de criticar as
religiões, como se elas fossem intocáveis. Como se apenas o
esboço de uma crítica já se constituísse na intenção de um
apartheid de fés, e não apenas na expressão da liberdade
democrática de opinião.
Tendo
a concordar com Dawkins: por que a opinião religiosa deve ser
intocável? Por que suas verdades devem permanecer sem
questionamentos?
Deveria ser perfeitamente natural, dentro de um ambiente
democrático, dizer que a política do Vaticano, quanto ao uso de
preservativos na África, não só é um engano, como é irresponsável.
Deveria ser natural dizer que os mitos de criação defendidos
pelos fundamentalistas cristãos e islâmicos são patentemente
falsos e não guardam absolutamente nenhuma analogia ou
correlação com as verdades cientificamente estabelecidas. O
mesmo se esperaria para com conceitos completamente sem sentido
como o de "vida-após-a-morte". Deveria ser natural
dizer que a defesa de um estado judeu em terras palestinas como um
legado de patriarcas bíblicos, que expulsaram os cananitas
guiados por Deus, é um monte de besteiras sem
fundamentação histórica.
E
nada disto deveria ser encarado como discriminação religiosa,
anticristianismo, ou antiislamismo, ou anti-semitismo, ou
restrição à liberdade de culto de ninguém. Seria apenas liberdade de expressão.
Mas
pelo contrário, a tendência é se evitar este tipo de crítica
direta, percorrendo desvios eufemísticos para guardar respeito
para com as crenças dos outros. E aí abre-se espaço para a
criação de monstruosas analogias entre os mitos religiosos e
verdades científicas, ou mesmo entre mitos de religiões
diferentes.
Quanta
besteira não ouvimos em comparações entre a narrativa do livro
do Gênesis e a cosmologia moderna? Este, por sinal, é um exemplo curioso. Na
tradução da cosmologia, construída em uma hermética linguagem
matemática, para a linguagem corrente do cotidiano, só o que
sobram são afirmações genéricas como "o universo teve um
início numa grande explosão". Às vezes (mas nem sempre) de
boa-fé, traça-se a analogia "explosão = ação de
Deus". Ou seja, tende-se a ver a ciência corroborando o mito
judaico-cristão da criação. Mas o interessante é que a
cosmologia é ainda muito imatura, suas teorias ainda estão em
nascedouros e as evidências experimentais ainda são muito
deficientes. Como conseqüência, assim que um cosmólogo mais
afoito divulga sua nova hipótese de que o universo sempre existiu
e passa por períodos de expansões e contrações, imediatamente
há um palpiteiro para divulgar que eram os brâmanes que estavam
certos.
Também
nem é necessário muito esforço para ouvir alguém defendendo
que todas as religiões são manifestações de um só Deus. Os
atributos são distinto, os poderes distintos, a atuação no
mundo, distinta, mas não importa: é o mesmo Deus! Isto não faz o
menor sentido, mas cumpre bem a função de evitar que eventos
ecumênicos se transformem em curiosos debates políticos.
De
qualquer modo, esta atitude respeitosa, de cabeça baixa, para com
a religião é ótima para aqueles que detêm o poder religioso.
O sacerdote com sua sapiência mística se embrenha por todos os
meios sociais, conquistando e exercendo seu papel político, sem
precisar explicar os porquês de suas opiniões, a não ser por
referências tão vazias quanto genéricas a princípios morais
absolutos.
João
Paulo II, em sua encíclica sobre a relação entre filosofia e
fé, dirige-se aos cientistas dizendo que "a busca da
verdade, mesmo quando se refere a uma realidade limitada do mundo
ou do homem, jamais termina; remete sempre para alguma coisa que
está acima do objeto imediato dos estudos, para os interrogativos
que abrem o acesso ao Mistério" (João Paulo II, Fides
et Ratio, 1998.)
Ou
seja, Paulo II delimita um espaço no qual a ciência tem competência
para construir verdades, mas cuidadosamente reservando um
perímetro para a fé, o espaço do Mistério que só é conhecido
pela verdade revelada. Como a ciência não é - nem se pretende
que seja - absoluta, esta divisão cria uma relação tautológica
na qual a fé sempre está correta, pois mesmo quando a ciência
invadir o seu perímetro, este não deixa de existir, apenas recua
no horizonte do que se desconhece secularmente.
Isto
dá à igreja possibilidade de manobra, principalmente se for
politicamente bem planejada, como é o caso da Católica. Ao mesmo
tempo que recua em questões relativamente irrelevantes para o
cotidiano público, como reconhecer erros no caso Galileu, aceitar a
possibilidade de vida em outros planetas, ou aceitar a evolução
das espécies como "mais do que uma hipótese", investe
ampliando seu território em questões importantes na área de
direitos civis e biotecnologia, atingindo mesmo aqueles que não
são praticantes de sua fé.
Não
sou radical como Dawkins. À mesa de debates deve estar sempre
reservado o lugar não só para o religioso, mas para todos
aqueles que de alguma maneira expressem os sentimento de algum setor da sociedade sobre o assunto em questão, mesmo que sua
opinião não seja cientificamente avalizada.
É
fundamental para a democracia que a verdade social, ou seja,
aquela que dita os padrões éticos e legais, se estabeleça mais
por um debate, digamos, tribal, que por pura e exclusiva análise
científica dos dados.
A
ciência é parcela importante para subsidiar e orientar as decisões, mas nem
seus conhecimentos são absolutos, nem os cientistas são
infalíveis e isentos. Uma sociedade onde decisões fundamentais
sobre, por exemplo, clonagem humana, fossem orientadas apenas
pelas opiniões dos conselhos científicos, não seria o melhor
dos mundos que posso imaginar. Por outro lado, se o religioso quer
ter sua opinião levada em conta nas decisões políticas de uma
sociedade, ele tem que aceitar a crítica sem condescendência à
sua fé, como parte legítima do jogo da
democracia.
(texto
de Mario Barbatti)
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