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[11/out/2003]
Capital não combina com democracia
Epaminondas
Palmério teve uma revelação nestas últimas semanas. Percebeu
que todo o blá-blá-blá na mídia sobre autonomia do
Banco Central, respeito a contratos e papel de agências
reguladoras tem a exclusiva função de proteger o capital contra
as imprevisibilidade da vida democrática.
É
como se empresários, governo e agentes financeiros se juntassem
para declarar que dinheiro é coisa muito séria para ficar
sujeito às oscilações da democracia eleitoral.
Epaminondas
nem acha que seja uma espécie de conspiração da elite
dominante. Crê apenas que, de maneira mais ou menos fragmentada,
os donos do capital tentam criar mecanismos de proteção que são
alheios à vontade popular.
1.
BC
O
capital financeiro tem o Banco Central como o seu sindicato. Para
garantir o rendimento financeiro, um bom Banco Central intensifica
os mecanismos de diminuição da renda do trabalho, através de
recessão e desemprego. Claro que o principal mecanismo para esta
política de Nottingham é o controle da taxa básica de juros.
O
capital financeiro já tem algumas boas garantias de que o Banco
central será simpático às suas aspirações, já que a lei exige
que o presidente da instituição tenha competência técnica em
economia e reconhecimento profissional no Brasil e no exterior.
Epaminondas lê estas exigências como "o presidente do BC
deve ser amigo dos banqueiros".
Mas o
capital financeiro ainda não está satisfeito. Quer, na verdade,
que o BC seja independente do governo. Ou seja, quer apenas que a
agência que vai controlar a cada mês quantos cidadãos estarão
desempregados e o quanto a menos irão receber os que ainda
trabalham, seja controlada de modo completamente independente dos
processos eleitorais.
2.
Agências
Epaminondas
acha que o capital produtivo, pelo menos o grande capital
produtivo, também tem seu sindicato. São as Agências
Reguladoras. Tal como o BC, as Agências trabalham protegendo o
capital, às custas do conjunto da sociedade.
Basta
notar que todo o processo inflacionário de 2002/2003 foi liderado
pelos preços administrados pelas agências, que queriam garantir
os rendimentos das empresas concessionárias a qualquer
custo.
Epaminondas
também não esquece o caso curioso da Anatel, que para proteger
algumas empresas amigas, enterrou a internet de banda larga
brasileira, obrigando aos usuários contratarem simultânea e
desnecessariamente provedores de acesso e de conteúdo. Este ato
carinhoso da Agência para com suas empresas afilhadas faz o custo da
banda larga brasileira praticamente dobrar.
3.
Respeito a contratos
Tanto
o grande capital produtivo quanto o financeiro conseguiram montar
dentro da estrutura governamental sistemas autônomos e
independentes dos mecanismos eleitorais.
Garantem
com isto que as pessoas certas para defender seus interesses
estarão no comando, independentemente da cor da bandeira
partidária dominante em Brasília.
O
bordão favorito desta gente engravatada é a necessidade
"respeito aos contratos", não importa o quão
fraudulentas e ilegítimas tenham sido as bases sobre as quais
foram assinados. Epaminondas ficou feliz em descobrir que não só
ele pensa assim. Gilson Schwartz, na Folha de São Paulo de
21/set/2003, definiu "respeito aos contratos" como:
"Condição
de confiança imposta pelos detentores de privilégios e de
direitos adquiridos por meios duvidosos. Geralmente invocada em
situações de crise financeira, moratória iminente da dívida
externa ou da dívida pública ou, mais recentemente, como
garantia exigida pelos ricos para que a democracia seja
tolerada."
Epaminondas
já até começa a achar que talvez os capitalistas tenham razão,
e dinheiro seja coisa muito séria para ficar dependendo de quem
é o xerife do momento. Ele já até pensa em iniciar uma campanha
pela autonomia do Ministério do Trabalho. Não seria bom um
Ministério autônomo e independente? Com um ministro com mandato
fixo, não coincidente com o mandato do executivo e, claro,
indicado pelos sindicatos de trabalhadores?
(texto
de Mario Barbatti)
Leia
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Quanto o diabo pagou pela alma deles?
De quem é o petróleo?
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